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Duas profissões esquecidas do Rio antigo

Revista Pesquisa FAPESP edição 205 de março de 2013Catava esterco

Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.

Caminhava sempre pelas mesmas ruas, no mesmo horário, todos os dias. As mucamas já o conheciam: esperavam sua passagem e ficavam no aguardo do sino.

Ninguém queria contato. Tudo era muito rápido. A mucama saía porta afora com o balde de esterco quente nas mãos, ele abria o tampão da carroça, ela despejava ali a carga e voltava correndo para dentro. Não falavam com ele.

Havia sempre respingos. Ao final da tarde, estava salpicado pela própria mercadoria.

Os tigres eram mais dignos. Temidos, até. O próprio nome impunha respeito. Eram escravos fortes, que carregavam nos ombros os dejetos de suas casas. Não passavam o dia lidando com os excrementos dos outros. Despejavam tudo na lagoa mais próxima e já voltavam para cuidar de outras atividades.

Pensava muito nisso. Que ali, no barril do tigre, misturados aos dejetos dos sinhôs e das sinhás, das mucamas e dos moleques, estavam também os seus. O tigre carregava o próprio excremento. De algum modo, aos seus olhos, isso lhes conferia dignidade.

Mas nem toda casa tinha escravos. Então, ele ainda era útil.

Gostava mesmo era de uma mulatinha da rua da Ajuda. Era sempre ela que trazia o balde. Mas nunca teve coragem de lhe falar. O esterco os separava. Um dia, não apareceu mais e ele não teve coragem de perguntar por ela. Ficou a lembrança daqueles dentes brancos. Tinha todos. Era lindo.

Ao final do trajeto, ele percorria a rua do Aljube até a Prainha. As barcaças recolhiam os dejetos da Corte e os levavam para os engenhos do outro lado da baía, onde não havia gente para produzir tanto estrume.

Os galegos pagavam quase nada pelo esterco. Só valia a pena se enchesse a carroça até a borda. Afinal, era recolhido de graça. Conseguiria mais mendigando, era o conselho que recebia.

Mas gostava de saber que deixava a Corte mais limpa. Que o esterco que recolhia se transformava em açúcar. Que tudo se transformava em outra coisa. Que ele, que era tão baixo, tão preto, tão feio quanto seu esterco, um dia também talvez virasse açúcar.

 * * *

 Soltava passarinhos

Frequentava as quermesses e procissões. Sempre em feriados religiosos.

Carregava uma gaiola quase maior que ela. Tinha seis compartimentos independentes, cada um com sua portinha. Nunca mais perderia a viagem soltando todos os bem-te-vis ao mesmo tempo.

Era conhecida dos penitentes. Só não abordava os brancos ricos. Quem já vivia cheio de graça não precisava da graça adicional de soltar uns passarinhos.

Preferia os desgraçados e os desafortunados, os moleques e as mucamas, os mutilados e os coxos, os culpados e os esperançosos, os tísicos e os leprosos, os pretos e os pardos. Os seus.

Muitos não entendiam. Quando a menina levantava a gaiola, já gesticulavam seu desinteresse. E ela esclarecia, não vendo passarinho, não, moço. Eu solto.

Alguns continuavam sem entender: vou lá pagar para soltar passarinho, menina?

E ela dizia, Deus ajuda quem liberta suas criaturinhas. É graça para o ano inteiro. O senhor reza comigo a prece de São Francisco de Assis, escolhe um bem-te-vi e deixa voar. Deus proverá.

Escolhiam quase sempre os passarinhos mais vistosos. Será que Deus prefere que os belos sejam livres?, se perguntava a menina.

A velha lavadeira foi o oposto. Demorou longos minutos. Estudou bichinho por bichinho. Quis a certeza de soltar o mais velho e mais fraco, o mais feio e mais cansado.

Seus dedos mal funcionavam. Mãos escurecidas e descoloradas de bater roupa em pedra. Mas fez questão de ela mesma destravar o ferrolho. Não era fácil. O preto Sebastião construíra a gaiola especialmente para a menina, levando em conta seus dedos ainda finos e ágeis.

Finalmente, o bem-te-vi saiu cambaleando pelo ar.

Ao cair da tarde, a menina foi até um matinho próximo, abriu as portinhas da gaiola e assoviou. Um por um, todos voltaram. Menos o velho passarinho. No feriado seguinte, a lavadeira também não apareceu. A menina gostava de pensar que estavam juntos.

Em casa, braços cansados de carregar a gaiola, acomodou seus tostões e vinténs (nem uma pataca hoje) em um latão na despensa. A sinhá era generosa: lhe dava todos os dias santos e ainda lhe permitia guardar tudo o que ganhasse.

Deu boa-noite para a sinhá e se dispôs na esteira aos pés da cama. Sonhou que voava.

 * * *

 A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto menciona barcos chineses onde passarinhos e peixes eram soltos no ar e na água, em troca de esmola, para “serviço de Deus” (capítulo 98). Um texto chinês do século XVI, mesmo século no qual Mendes Pinto esteve na China, detalha um dos muitos rituais budistas que devem acompanhar o ato de libertação (“Freeing Animals from Bondage” em Buddhist scriptures, Penguin, 2004). No Brasil, a única menção que encontrei, que pode ou não ter relação com o budismo, está em uma crônica da juventude de Machado de Assis, que teria testemunhado essa prática durante a procissão dos ossos da Misericórdia (O Futuro, 15 de dezembro de 1863). Entretanto, em diversas ocasiões (o conto “O segredo do bonzo”, de 1882, ou o ensaio “Instinto de nacionalidade”, de 1873), Machado demonstrou ser leitor atento da Peregrinação. Terá o episódio sido apenas uma glosa de Mendes Pinto? Mera invenção do Bruxo? De Machado, pode-se esperar tudo.

Por coincidência, no mesmo capítulo 98, a Peregrinação também menciona os “mercadores de esterco” da China. Existe ampla documentação sobre os catadores de esterco do Rio antigo, como La Blanchardière, em 1748 (em Visões do Rio de Janeiro colonial, 1531-1800), e Schlichthorst, em 1824 (em O Rio de Janeiro como é – Uma vez e nunca mais, cap. IX). No Segundo Reinado, com o avanço das regulações sanitárias, a prática deve ter desaparecido. A última menção que encontrei foi no capítulo 4 de Mulheres e costumes do Brasil (1863), mas o sempre tão crítico Expilly menciona a atividade sem deixar claro se a testemunhou ou apenas ouviu falar. Finalmente, em 1864, foi inaugurado o serviço de esgoto da Corte.

Desnecessário acrescentar que esse é um conto de ficção.

Alex Castro, 39, é autor de Mulher de um homem só (2009, romance) e Onde perdemos tudo (2011, contos).

* * *

Originalmente publicado na Revista Pesquisa FAPESP, edição 205, de março de 2013. (link)

varig

varig

enseada da glória. antigo prédio da varig. visto do mam. janeiro de 2013

cristo lotado

segunda feira de janeiro. verão no rio. estrada das paineiras. multidões se acotovelam para subir ao cristo.

procurando pelo namorado

teatro municipal, rj. 23dez12.

teatro municipal, rj. 23dez12.

a alegria do reserva

eu e a Outra Significativa nos conhecemos numa quarta feira, no arpoador. naquele árabe novo ali do lado da centaurus. na rua onde morou fernando sabino.

ela estava no rio só de passagem e me contou seus planos de sair do nordeste e ir morar em são paulo, sabe como é, onde estão os trabalhos, as pessoas interessantes, a grana, essas coisas.

no domingo, depois de cinco dias de todo um intenso trabalho de sedução e sightseeing, ela voltou pra casa já decidida a vir morar no rio.

e veio.

* * *

vista do parque das ruínas.

ontem, no parque das ruínas, dia lindo de sol, vendo a noite chegar na enseada de botafogo lá embaixo, pensei:

coitado de mim! queria muito assumir todo o crédito por essa mudança de decisão, mas só poderia fazer isso se morasse em pirapora do mato dentro, né?

senão, é como ganhar a partida jogando no mesmo time do neymar e me iludir que a vitória foi minha.

mas não quero nem saber. jogo nesse time também. visto essa camisa com garra. fui a todos os treinos. estava lá no banco pronto pra entrar em campo.

vou celebrar a conquista do campeonato junto com os artilheiros e foda-se!

copacabana

copacabana

rua almirante gonçalves.

e três textinhos meus sobre copacabana: gentileza em copacabana, a história deixa marcas, hora marcada.

as marcas da parada gay flutuam pelo céu do rio de janeiro

as marcas da parada gay flutuam sobre o rio...

as marcas da parada gay flutuam pelo rio...

fotos tiradas do mirante dona marta.

só por isso

lanchonete de bairro na minha esquina. como tantas em copa. quase todos clientes devem ser do próprio quarteirão.

a dona se chama joice. suas empregadas a chamam de joice. não dona joice. só joice.

tomo um cafezinho lá todo dia.

hora marcada

copacabana. consultório de clínica ortopédica. lotado. quase todos velhinhos.

uma senhora estrangeira, forte sotaque, começa a dar escândalo com a recepcionista. grita que é um absurdo. que já está esperando há mais de uma hora. que se não for atendida em dez minutos vai embora!

com toda a educação e paciência do mundo, a recepcionista aponta que a senhora tinha chegado sem hora marcada e que precisava esperar pela possibilidade de um encaixe.

então, a senhora se volta para a sala de espera e diz:

e você quer me convencer que essa gente toda tinha hora marcada? hein? hein?

* * *

leia meu texto gentileza em copacabana.

pontos turísticos

dou meu endereço, e o taxista:

“ah, o prédio das putas?”

é bom morar em um edifício icônico de copacabana.

a história deixa marcas

durante os séculos 16 e 17, o rio de janeiro foi um dos principais entrepostos da prata de potosí, na bolívia — uma atividade comercial importante que impulsionou os primeiros anos da cidade.

os navios vindos da europa ou da áfrica aportavam no rio de janeiro, desciam a costa até buenos aires, trocavam de embarcações, e subiam, de barco e de mula, até potosí.

o rio de janeiro mandava tabaco, cachaça, farinha de mandioca, açúcar, tecidos, e recebia doses fartas de prata. mais importante, o rio enviava infindáveis escravos — em média, a vida útil de um escravo nas minas de potosí era de somente oito meses.

hoje, a memória do comércio da prata no rio de janeiro praticamente se perdeu, mas deixou uma marca importante.

(a história não gosta de ser esquecida.)

no século 16, às margens do lago titicaca, perto da localidade de “kota kahuana” (ou “vista do lago” em aymará), surgiu um culto à nossa senhora que se tornou bastante popular em todos os andes. no século seguinte, alguns devotos bolivianos e peruanos que passavam sempre pelo rio no comércio da prata trouxeram uma imagem da santa e construíram para ela uma pequena capelinha na praia de sacopenã, na época bem afastada e de acesso muito difícil.

a capelinha foi demolida no começo do século 20, para construção do que era então “a mais moderna praça de guerra da América do Sul e um marco para a engenharia militar de seu tempo”.

nessa época, entretanto, o nome latinizado da santa já havia rebatizado a praia, e dado nome ao bairro e à sua principal avenida: nossa senhora de copacabana.

lar, dulcíssimo lar

a melhor coisa de estar entre cariocas é que a gente pode dizer que ama, pode mandar passar lá em casa, pode até jurar amizade eterna, e sabe que o outro carioca não vai dar uma de suiço e achar que amo mesmo ou, pior, realmente aparecer na minha casa.

sair para voltar

está acontecendo no rio e em são paulo o festival “é tudo verdade”, que há muitos anos eu queria ir e nunca podia. em abril, vou participar de uma mesa redonda em minas gerais e de um evento em minha antiga escola no rio, em ambos falando sobre literatura – eventos que eu não podia participar quando morava fora. antes do filme, passei em uma livraria e, na mesma mesa de destaques, estavam o novo livro da fal e o novo do roger. mais ao lado, o novo do bia, o magnífico tijolão da ana maria e vários da ana paula, todos queridos amigos.

quero estar aqui pra isso. para participar dos festivais e ver a nova arte de ponta. para poder prestigiar os eventos para os quais me convidam. para poder conhecer e papear com quem está fazendo a literatura brasileira hoje.

cada vez mais acho que é preciso sair só para poder voltar. a cultura do brasil é o que me alimenta. longe dela, eu me sentia excluído, cortado, limitado.

e, agora, estou feliz, tão feliz.

diálogos insondáveis da ponte aérea

Disse o paulista:

– Orra, véi, puta filme fodido, tá ligado?

Responde o carioca:

– Caraca, brother, muito sinistro mesmo, valeu?

E a grande dúvida: gostaram ou não do filme?

a nódoa da escravidão

Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:

The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá de Novo”)

Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.

E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.

Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.

Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.

Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.

bem-vindo ao rio de janeiro

Estou morando no Flamengo, bairro densamente urbano do Rio de Janeiro. Pela primeira vez na vida, saio do prédio… e estou no mundo. Cinco academias de ginástica e oito casas de suco só no meu quarteirão. Adoro.

Mas ontem, depois da caminhada matinal, tinha um cheiro estranho nas patas do Oliver. Forte, desagradável. Demorei a identificar. Querosene? Faísca? Não saía de jeito nenhum.

Era a creolina que jogam nas calçadas para afastar os moradores de rua.

a continuidade das mudanças

passo meus dias andando pelo rio, olhando e absorvendo tudo, sedento e feliz, identificando com atenção cirúrgica cada coisinha que mudou, cada marca que sofreu redesign, cada linha de ônibus com novo número.

é um alívio delicioso, sabe?

se nada tivesse mudado, teria sido apavorante e assustador. como se a cidade não tivesse existência longe da minha ó-tão-luminosa presença.

se tudo tivesse mudado, teria sido assustador e apavorante. como se a cidade tivesse somente me esperado virar de costas para se refazer sem mim.

então, nada pode ser mais acolhedor do que pequenas mudanças dentro de uma enorme continuidade. o novo metrô de ipanema, a futura ponte do fundão, a ausência do moinho marilu. o rio se faz meu até nas mudanças que realizou na minha ausência.

gelosias e grades

A arquitetura mourisca de Alhambra e a arquitetura norte-americana da Barra da Tijuca têm mais em comum do que se pode imaginar: as gelosias proibidas de ontem são as grades disseminadas de hoje.

* * *

Um dos primeiros editais do Intendente Geral da (recém-criada) Polícia do Rio de Janeiro foi proibir as rótulas e gelosias nos sobrados da cidade (11 de junho de 1809). Para Joaquim Manoel de Macedo, escrevendo suas “Memórias da Rua do Ouvidor” em 1878, gelosias e rótulas eram costume “quase bárbaro, de raiz mourisca”, e ele lamenta que muitas casas tenham “resistido à reforma decretada pela civilização”.

gelosia

Herança da arquitetura árabe que se popularizou na Península Ibérica, gelosias e rótulas eram painéis formados por treliças de madeira para vedar vãos de janelas, muitas vezes convertendo-se em verdadeiras gaiolas, fechadas de madeira por todos os lados, cujo objetivo confesso era aprisionar ou proteger (depende de quem conta) as mulheres da casa. Além de permitirem a passagem de ar fresco, também possibilitavam que as pobres mulheres encarceradas (mas honradas) observassem a rua sem serem observadas pelos de fora.

Com o tempo, as gelosias popularizaram-se tanto na cultura e na língua que passaram a designar o próprio ciúmes: “gelosia”, em italiano, “jalousie” em francês e “jealousy” em inglês, entre outras. Uma novela como “El Celoso Extremeño”, de Cervantes, sobre um homem ciumento obcecado em impedir sua mulher de traí-lo a todo custo, é excelente retrato da cultura que popularizou as gelosias. Enquanto isso, no Brasil Colônia, era comum visitantes estrangeiros se queixarem de nunca ver mulheres brancas, eternamente escondidas atrás de suas rótulas e gelosias, saindo apenas para as missas dominicais, e mesmo assim protegidas por véus e mantilhas.

 

Por isso, para os cariocas de 1809, empolgados com o sopro europeizante e modernizador trazido pela corte de D.João VI, gelosias e rótulas eram um símbolo concreto de tudo o que havia de mais retrógrado e bárbaro na cultura ibérica. O decreto de 1809, ao suprimir um elemento arquitetônico que fazia de cada casa uma fortaleza e uma prisão, era uma tentativa estatal de promover o espaço público em detrimento do privado. Macedo, setenta anos depois mas ainda herdeiro dessa mesma tradição, comemora:

“As rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas, mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas. A higiene, a arquitetura, o embelezamento da cidade exigiam a destruição das malignas e feias gaiolas. E a Rua do Ouvidor devia ser pronta, como foi, em dar cumprimento ao edital de Paulo Fernandes, porque rótulas e gelosias destinadas a esconder à força o belo sexo deviam ser imediatamente banidas da rua que não tarde tinha de tornar-se por excelência de exposição diária de elegantes e honestíssimas senhoras.”

gelosias 2

Duzentos anos depois, a cidade parece caminhar na direção oposta. Casas e condomínios se cercam de grades, essas modernas gelosias, buscando tornar-se como as antigas fortalezas auto-suficientes.

Teoricamente, um condomínio pode escolher designar suas ruas internas de públicas ou privativas: no segundo caso, abre-se mão de uma série de serviços públicos (entrega de correios, coleta de lixo, transporte coletivo, etc) em troca do direito de só permitir a entrada ou passagem de quem se quer. Caso decida que suas ruas internas são públicas, o condomínio pode desfrutar desses serviços também públicos mas, em contrapartida, não podem negar entrada ou passagem a ninguém. Afinal, a rua é pública.

Entretanto, cada vez mais condomínios tentam malandramente conseguir o melhor dos dois mundos: apesar de suas ruas internas serem públicas, ainda assim colocam uma cancela e seguranças armados na porta. Abaixo, o Condomínio Península, onde mora meu pai.

cancela barra rio de janeiro
(Foto de Arthur Jacob, publicada na Coluna do Ancelmo Góis, O Globo, 11 de dezembro de 2007)

A menos de cinco minutos dali, na Cidade de Deus, no dia 19 de junho de 2006, moradores revoltados bloquearam a Estrada do Gabinal, colocando fogo em pneus, madeiras e até mesmo em um ônibus para protestar mais um inocente morto sumariamente pela polícia, em uma operação que também deixou baleada uma criança de oito anos. Foram violentamente reprimidos (felizmente, sem perda de vidas) e logo aprenderam a lição: os ricos da Barra podem bloquear uma via pública na maior cara-de-pau; eles, não. Eu, que morava na mesma Estrada do Gabinal, tive que dormir em casa de amigos nessa noite.

Os últimos anos viram cada vez mais prédios, praças e espaços públicos de modo geral sendo cercados e gradeados no Rio de Janeiro. O espaço público tendo se tornado cada vez mais assustador, é necessário proteger o espaço privado a todo custo. No final da mesma Rua do Ouvidor historiada por Joaquim Manoel de Macedo, essa rua de sobrados coloniais de gelosias mouriscas e rótulas bárbaras, mais um prédio foi cercado e gradeado, protegido do assustador espaço público.

ifcs_plenaria do Fórum de Lutas Contra o Aumento da Passagem 25 de junho de 2013 ifcs 1940 ifcs 1922 ifcs 1850
Quatro momentos de um prédio: 2013, durante as jornadas de junho; cerca de 1940; 1922, sediando a Exposição Nacional; e cerca de 1850.

O prédio do atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), no Largo de São Francisco, começou a ser construído em 1811 (dois anos depois do decreto que extinguiu as gelosias), para servir de sede à Academia Real Militar. É considerado como o primeiro prédio no Brasil a ser construído especificamente para uma instituição de ensino. Ao longo dos séculos seguintes, foi o principal centro brasileiro de formação de engenheiros, abrigando, entre outros, a famosa Escola Politécnica e a Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil. Em 1965, com a criação da UFRJ, a Engenharia foi relocada para o Fundão e os cursos mais comunistas e criadores de caso foram colocados ali, para evitar que contaminassem o resto da universidade: História, Filosofia, Ciências Sociais. (fonte)

Finalmente, em 2008, quase 200 anos depois do edital do Intendente de Polícia proibindo gelosias e rótulas, o pêndulo já encontra-se no outro extremo. O prédio do IFCS, público há 200 anos, agora encontra-se protegido por grades: os alunos lá dentro, nossos futuros sociólogos e cientistas políticas, podem olhar a realidade carioca, inclusive os mendigos do Largo de São Francisco, através de confortáveis e seguras grades. Se fossem gelosias, talvez fosse ainda mais prático: os mendigos nem teriam como enxergá-los de volta.

Duas reportagens para o site G1, de Alba Valéria Mendonça e Vivianne Banharo, narram o conturbado processo de gradeamento do IFCS:

Segundo a direção administrativa do IFCS, o projeto de instalação das grades de proteção é da prefeitura da UFRJ. O objetivo, como informou a direção, é garantir a segurança dos alunos – principalmente, dos cursos noturnos – e do patrimônio. Segundo a direção, não há informações sobre alunos assaltados, mas carros que estacionam na frente do prédio já foram arrombados.

Aparentemente, o grande problema seria a grande população de moradores de rua do Largo de São Francisco, que estaria deixando as escadarias do prédio imundas:

Aluna do 7º período de filosofia, Helena Ribeiro, de 37 anos, conta que todos os dias pela manhã o funcionário da limpeza do IFCS é obrigado a lavar a escadaria com desinfetante. Às vezes os moradores de rua ainda estão dormindo na frente do prédio. “Eles sempre deixam muita sujeira por aqui e fica um fedor insuportável.” … “Sinceramente, sou a favor. Isso aqui fica uma imundície. Não resolve o problema maior que é a mendicância. Mas tem dias que é difícil entrar na faculdade. Ficam umas 15 pessoas deitadas por aqui”, disse Gabriel … “As escadarias dos prédios viraram residência da mendicância”, comentou o prefeito, relacionando a presença de moradores de rua com banhos, despejo de lixo e necessidades fisiológicas.

Fui aluno do curso noturno de História do IFCS entre 1996 e 1999. Quando chegava para as aulas, por volta de seis da tarde, os mendigos já estavam se recolhendo. Durante o inverno, quando escurecia cedo, colocavam um agasalho na estátua de José Bonifácio, no centro da praça. Quando acabavam as aulas, às dez da noite, era raro haver mendigos acordados: já dormiam profundamente.

Naturalmente, vários alunos se manifestaram contra as grades:

“Isso aqui é um espaço público e a colocação de grades é uma questão pública. A faculdade em vez de se abrir está se fechando para o povo e não deveria ser essa a nossa filosofia. Não é cercando com grades que vamos resolver o problema do apartheid social que vivemos. As grandes não vão nos impedir de ver o que está aí, do outro lado da calçada”, disse Filipe, afirmando que vai ficar constrangido de ter de atravessar todos os dias um portão com o símbolo da UFRJ, como se quisesse deixar a realidade para trás. … “Vai causar um clima diferente, com mais privacidade. O IFCS vai ficar num clima de campus, não mais tão integrado à cidade. As grades me incomodam mais pelo fato de não sobrar espaço na calçada para as pessoas circularem.”

Se o prédio do Largo de São Francisco fosse ainda Escola de Engenharia, a situação não seria tão irônica. Um centro de excelência criado explicitamente para segregar os cursos mais politicamente subversivos e socialmente incômodos da primeira universidade do nosso país, dirigido por algumas das melhores mentes acadêmicas nos campos de história, política, antropologia, sociologia, filosofia, e a melhor solução que encontrou-se para o excesso de mendigos no centro do Rio de Janeiro foi… construir grades!

Em menos de duzentos anos, o Rio de Janeiro que buscava estimular o espaço público ao proibir gelosias e construir passeios públicos transformou-se no Rio de Janeiro que bloqueia ruas públicas com cancelas e erige grades de metal para proteger prédios públicos da população de rua.

* * *

Termino de escrever um texto como esse e percebo cada vez mais a relação concreta que tenho com minha cidade. Uma discussão por alto sobre espaço público e privado acaba passando pelo condomínio onde mora meu pai ou pela favela da estrada onde moro, e também pela Rua do Ouvidor, por onde tanto andei, que desemboca no prédio onde estudei tantos anos. Essa cidade é minha porque é impossível falar sobre ela e sua história sem também falar de mim e da minha história: sou herdeiro das pedras portuguesas de Copacabana e do bondinho de Santa Teresa, das lagoas da Barra da Tijuca e das cotias do Campo de Santana, assim como também sou herdeiro da porcaria pelo chão e dos engarrafamentos pelas ruas, das chacinas e do caos. O bom e o mau, o lindo e o podre, é tudo meu. Os mesmos antepassados que me legaram a Floresta da Tijuca e o largo do Boticário também deixaram outras tantas bombas pra explodir na minha mão. Como cidadão carioca, aceito tudo.

Daqui a pouco, nos comentários, vai me aparecer um idiota criticando meu pretenso “orgulho pelo Rio” e dizendo que o Rio é uma cidade suja e violenta, e um outro idiota vai responder que não, que o Rio é a cidade mais linda do mundo, mas não estou falando nem de orgulho, nem de vergonha: meu sentimento é muito mais primal e concreto. Certo ou errado, bonito ou feio, esse chão é meu.

O mundo é cheio de problemas: assisto Juno e fico comovido com toda a questão da gravidez infantil, aborto e adoção, mas assisto Tropa de Elite e o filme ME aponta um dedo direto na cara: esse é o problema da minha época, da minha terra, da minha geração. Na loteria da História, foi essa batata quente que me coube. O bônus é meu, o ônus também.

voltando aos seus braços

Nesses seis anos, nunca perdemos o contato: passei sempre cinco meses por ano com você, trabalhando, namorando, alugando apartamento, vivendo a vida cotidiana ao seu lado, justamente pra não perder o seu cheiro e o seu ritmo, as gírias e as modas, pra não virar haole – deus me livre! Ninguém pode me acusar de te idealizar: conheço cada estria, cada arrastão; amo cada celulite, cada chacina.

Muita coisa mudou. Você passou no teste do Pan – confesso que eu estava cético! Foi retratada em dois Tropas de Elite – belíssimas obras que elevaram ao nível da arte todos os nossos maiores dilemas e apreensões. Depois, descobriram uma quantidade enorme de petróleo na sua costa – que querem lhe tomar no tapetão! Agora, esse ano, vai sediar os jogos militares (quarto maior evento esportivo do mundo) e, daqui a pouco, uma copa (incluindo a final!) e uma olimpíada.

Hoje, aqui de longe, você me parece revitalizada, linda, cheia de esperanças – potencializando seu duplo caráter turístico e petroquímico. Será que, em 2005, fui pessimista demais e não lhe dei o devido valor? Será que você está ressurgindo? Desculpa se não confiei em você, meu amor! Você me perdoa?

Pra mim, nesse momento, a pergunta é a seguinte: onde quero estar nos próximos vinte anos? De onde quero observar o futuro acontecer? De qual processo histórico quero ser testemunha? Nada me prende. Posso ir pra qualquer lugar. Acabei de viver os seis anos imediatamente pós-Katrina em Nova Orleans – um período único que nunca mais vai se repetir.

Confesso que Havana é uma forte finalista: assim que morrerem os irmãos Castro, a batalha dupla pela democracia em Cuba e pela manutenção do legado revolucionário vai ser feroz, linda, necessária. Gostaria de fazer parte dessa aventura, de me meter nessa briga, mas quem estou enganando, não é? Havana é uma amante querida, uma jineteira sem-vergonha, mas você é minha esposa. É o seu futuro que quero ver, é da sua História que quero participar, é nos seus braços que quero morrer.

Crescendo ao seu lado, havia sempre algum gringo maluco com a mesma história: estava de passagem, esbarrou em você, ficou para sempre. E eu os invejava, sabe? Por um lado, eu nasci dentro de você – o que, pra mim, não é fonte de orgulho mas mero acidente histórico. Já eles, caramba!, eles te escolheram! Nasceram em Tucson, Estocolmo, Florença mas bastou te conhecerem para saberem na hora: é aqui que vou ficar!

E você, hospitaleira e sem-vergonha, é dessas que só dizem sim: mesmo sem renda e sem prenda, você nos faz as vontades, nos diz meias-verdades e nos faz acreditar (vaidosos!) que somos o povo mais privilegiado do mundo. (Gueixa indiscriminada, você aceita igualmente todos os que te amam – carioca é quem se sente carioca.) Na manhã seguinte, naturalmente, antes de contarmos até vinte, podemos ter sido atingidos por uma bala perdida ou soterrados pela lama que desce o morro, mas é o risco que corremos. Existem muitas outras mais seguras, mais pacatas, mais civilizadas, mais respeitadoras: quem quiser, que fique com elas. (Curitiba é linda nessa época do ano!)

Nós, os que te escolhemos, aceitamos o positivo junto com o negativo, o risco com o dividendo, o ônus com o bônus. Na verdade, não é nem que aceitamos o ônus em si: aceitamos o ônus de positivar o negativo, de minizar o risco para para podermos melhor usufruir dos dividendos. Quem te escolhe também escolhe o ônus histórico de te amar, te preservar, te salvar de si mesma. Ninguém que assistiu Tropa de Elite pode alegar que não sabia onde estava se metendo.

E essa é a questão, não é? Passar seis anos longe me permitiu fazer algo que sempre desejei: te escolher. Estar ao seu lado não por um feliz acaso do destino, mas por decisão consciente, pensada, fatídica.

Te escolho.