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copacabana

tudo o que você precisa saber sobre o capitalismo, em uma livraria

o capitalismo é o único sistema cuja ganância é tamanha que aceita e coopta até o discurso que prega sua destruição – desde que possa lucrar com isso.

moro entre dois bairros cheios de livrarias, inclusive algumas muito badaladas e gigantescas, como a livraria da travessa de ipanema.

como não tenho internet em casa, quando quero um livro, eu ligo pra uma meia dúzia de livrarias e pergunto.

e, apesar de todas essas livrarias, é sempre uma pequena livraria na esquina da minha rua que tem tudo o que eu quero.

com um problema.

chego lá e o jardim das aflições, magnus opum do vilósofo olavo de carvalho, lançado quinze anos atrás, está permanentemente exposto em lugar de honra, como se tivesse sido lançado ontem por uma editora que pagou caro pelo espaço na vitrine.

além disso, a obra está sempre ladeada de escudeiros: o novo livro do constantino, a biografia do lobão, o último lançamento da três estrelas, todos exibidos com destaque.

mas aí, outro dia eu estava buscando por uns livros obscuros do paulo freire, sabe quem é?, aquele comunista que as pessoas do leblon fazem passeata contra?, e eles tinham uma estante inteira com dezenas de obras do paulo freire, obras que não tinham em nenhuma das outras livrarias pra-frentex do bairro.

(não em destaque como as obras do olavão, claaaaro, mas estavam lá.)

aí, semana passada, decidi reler foucault, que eu tinha lido em xerox, e, de novo, a única livraria do bairro que tinha todas as obras do foucault que eu estava procurando, sabe quem é?, o filósofo careca pervertido gay que a igreja impediu de virar cátedra na puc?, foi essa livraria olavete.

(ok, de novo, não em destaque, mas estavam todos lá – e são muitos.)

essa pequena livraria olavete em copacabana simboliza tudo o que o capitalismo tem de melhor e de pior:

ele é o único sistema cuja ganância é tamanha que incorpora, aceita e coopta até mesmo o discurso que prega a sua própria destruição – desde que possa lucrar com isso – tudo sob o manto de uma democracia de fachada – que sempre vai só até certo ponto, e olhe lá.

enfim, virei freguês.

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