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Qual Whitman ler

Existem várias versões da “Canção de mim mesmo”, de Walt Whitman. Qual ler?

A “Canção de mim mesmo”, de Walt Whitman, é o grande poema nacional dos Estados Unidos e uma das maiores celebrações do indivíduo de todos os tempos. Ela será uma das leituras da nona aula, Nações, de nosso curso Introdução à Grande Conversa. Mas existem várias versões desse poema. Qual ler?

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Qual versão ler, primeira ou última?

Whitman lançou seu livro Leaves of Grass (Folhas de relva) em 1855, uma edição fininha, com somente 12 poemas, entre eles nossa leitura “Song of myself” (“Canção de mim mesmo”).

Depois, ele passou o resto da vida escrevendo e reescrevendo esse livro, adicionando novas poesias e reescrevendo as antigas. A última edição de Leaves of grass, de 1892, enorme, se chamou Death bed edition (Edição do leito de morte) e tem mais de 400 páginas.

Recomendo, se possível, ler “Canção de mim mesmo” na versão de 1855.

(Whitman foi ficando mais conservador e mais careta com a idade, então, de certa maneira, ele foi mudando os poemas para pior.)

Em geral, as edições atuais informam se reproduzem a edição de 1855 ou 1892. Na dúvida, a primeira é fininha; a última, grossona. Algumas edições são mistas.

Por exemplo, essa da Penguin e essa da Norton trazem ambas as versões de “Canção de mim mesmo”.

Outras edições:

Edição do leito de morte: Macmillan Collector’s Library, Arcturus, Gibbs Smith, Oxford University Press, brochura.

Primeira edição: Oxford University Press, capa dura.

Ambas versões de “Canção de mim mesmo” estão disponíveis na internet, de graça. Caso estejam em dúvida sobre qual versão estão lendo, o primeiro verso é levemente diferente:

Song of myself, versão 1855

I celebrate myself;
And what I assume you shall assume;
For every atom belonging to me, as good belongs to you.

Song of myself, versão 1892

I celebrate myself, and sing myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.

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Qual tradução ler?

Felizmente, a tradução mais fácil de encontrar também é aquela universalmente considerada a melhor: uma edição bilíngue, da primeira edição de 1855, com tradução de de Rodrigo Garcia Lopes, publicada pela Editora Iluminuras em 2005, com segunda edição de 2019.

Abaixo, o comecinho da “Canção de mim mesmo” nessa tradução:

EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                    [ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade …. observando uma
                            [ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes …. as
        [ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
        [ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
        [ mas não deixo.

Outro trecho, da mesma tradução:

O blablablá das ruas …. rodas de carros e o
[ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
[ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
[ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
[ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ….
[ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
[ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
[ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
[ apressado forçando passagem até o centro
[ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
[ tantos ecos,
As almas se movendo …. será que são invisíveis
[ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
[ esmorecem e desmaiam de insolação
[ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
[ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui….
[ quantos uivos reprimidos pelo decoro,
Prisões de criminosos, truques, propostas
[ indecentes, consentimentos, rejeições de
[ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ….
[ estou sempre chegando.

O tradutor Guilherme Gontijo Flores, atualmente traduzindo Leaves of grass, escreveu esse interessante artigo comparando as traduções atuais (ele também recomenda a de Rodrigo Garcia Lopes acima) e oferece sua versão para outra poesia, “A canção da estrada aberta”, abaixo. Só esse único exemplo já basta para ver que Flores capturou a dicção de Whitman melhor do que qualquer outro tradutor. Estou esperando ansioso por sua tradução do livro completo.

A pé, de peito leve, eu pego a estrada aberta,
Sadio, livre, o mundo à minha frente,
A longa via ruça à minha frente leva aonde eu queira.

Daqui pra frente não peço por sorte, a sorte sou eu,
Daqui pra frente não choramingo mais, não adio mais, careço de nada,
Chega de lamentos caseiros, bibliotecas, críticas cretinas,
Forte e alegre eu sigo a estrada aberta.

A terra é quanto basta,
Eu não quero as constelações mais perto,
Sei que estão muito bem onde estão,
Sei que bastam pra quem pertence a elas.

(Ainda assim cá trago meus velhos doces fardos,
Trago, homens e mulheres, trago comigo aonde for,
Juro que é impossível me livrar deles,
Estou cheio deles e em troca vou enchê-los.)

(Leia o resto aqui.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a nona aula, Nações, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Qual Whitman ler é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 17 de janeiro de 2021, disponível na URL: alexcastro.com.br/qual-whitman-ler // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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