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2ª aula: Gregos bacantes grande conversa orestéia

A Orestéia e As bacantes, entre o apolíneo e o dionisíaco

A dicotomia Orestéia vs Bacantes, apolíneo vs dionisíaco, marca a arte ocidental até hoje. (Guia de leitura para o curso Introdução à Grande Conversa)

A Grécia Clássica oscilava entre dois polos: o apolíneo, mais racional, e o dionisíaco, mais instintivo. Duas peças, nos dois extremos cronológicos da Grécia Clássica, a Orestéia, no seu começo, e As bacantes, no seu fim, ilustram esse movimento, que continua marcando a arte ocidental até hoje.

A Orestéia é o monumento da geração de Ésquilo, empolgada consigo mesma após derrotar talvez a maior potência do mundo, o império persa, e celebrando a vitória apolínea sobre seus instintos dionisíacos. Cinquenta anos depois, As bacantes é uma refutação ponto por ponto da Orestéia.

Ésquilo faz dos mitos da Casa de Atreu uma metáfora para o surgimento da civilização a partir da lama do barbarismo. Para Ésquilo, a história representa um progresso em direção a um futuro melhor. Ao celebrar a vitória apolínea, Ésquilo também celebra sua própria cidade: Atenas, que na Ilíada mal é mencionada de tão desimportante, na Orestéia é o lugar milagroso onde se cumprem as promessas da civilização e da democracia.

A Orestéia recapitula a história humana: da natureza para a sociedade, do caos à ordem, da emoção à razão, da vingança para a justiça, do feminino para o masculino. Pai mata filha, esposa mata marido, filho mata mãe. Quem é culpado? Quem é inocente? Se fosse uma decisão fácil, a primeira decisão do júri não teria terminado em empate.

O ato criminoso de Clitemnestra, mulher tirânica e autoritária, agente de seu próprio destino, abre a Orestéia. O voto de minerva de Atena, guerreira virgem, afeminina e antifeminina, encerra a trilogia, contendo e dominando a energia feminina sem limites que ameaça a lei, a tradição, a família, a pólis, tudo, enfim.

Clitemnestra simboliza o poder feminino, os direitos da mãe sobre o pai, da esposa sobre o marido, da rainha sobre o rei. Em outras tradições da mitologia, Egisto seduzia Clitemnestra e matava Agamemnon, mas não na Orestéia. Aqui, Ésquilo faz a escolha de dar todo o poder à Clitemnestra: Egisto, amante-consorte, mal participa da ação.

As Fúrias, vingadoras de Clitemnestra, são espíritos demoníacos dos cultos ancestrais, são feias, ofendem os olhos. Para as Fúrias, vindas de um reino de “degolamentos e olhos arrancados” (Eu 245 MGK), os deuses do Olimpo são moleques que ainda cheiram a leite.

A Orestéia mostra a sociedade como uma defesa contra a natureza. (Diria Ernest Becker, a sociedade é um “projeto de imortalidade”.) Tudo de inteligente e inteligível – instituições ou objetos, pessoas ou ideias, política ou ciência, democracia ou arte – são criações apolíneas para controlar ou, no mínimo, afastar a natureza ameaçadora. A Orestéia registra justamente a revolução sexista do patriarcado contra o matriarcado, da imaginação contra a natureza.

A Orestéia converte as Fúrias em Deusas Benévolas e inaugura a época clássica. A tragédia grega, celebrada no Festival de Dioniso, era uma prece apolínea, uma tentativa de conter os apetites amorais da natureza. Enquanto a sociedade estava unida, funcionou. Quando ela cede, Dioniso escapa pelas frestas.

A Orestéia começa com um sinal de fogo passando de morro em morro, para avisar do fim da guerra, mas também simbolizando a chama da guerra de Troia vindo em direção à Grécia, trazendo consigo uma cadeia causal assassina, uma família maldita, o tapete vermelho pisado por Agamemnon, um jato de sangue. A chama também é a chama poética passando de Homero para Ésquilo, da poesia épica para a tragédia clássica.

Euripides, em As bacantes, repete e parodia os movimentos de Ésquilo. A peça também começa com fogo vindo da Ásia, mas dessa vez, simbolizando destruição e não paz. A história dá marcha-ré, a civilização se reverte em natureza. As bacantes é um espetáculo de demolição: Dioniso é a peste, o fogo, a água, a natureza descontrolada, derrubando tudo em seu caminho.

A Orestéia é freudiana: Orestes, jovem ego, é perseguido pelo id das Fúrias, até que Apolo, superego, as coloca em seu lugar. Já Dioniso simboliza a força bruta da natureza: sexo, drogas, bebida, dança. Em As bacantes, a sociedade, o poder, a autoridade estão decadentes e corruptos. Os líderes são os velhos senis e os jovens imaturos. Penteu, herdeiro, não fundador, é arrogante e abrasivo. O vazio moral de Tebas é preenchido por Dioniso. Ele é o retorno do reprimido, o id das Fúrias de Ésquilo finalmente explodindo.

E, se a Orestéia é freudiana, As bacantes antecipa o Cristianismo: aqui, temos o conflito entre a autoridade constituída e um novo culto popular. Um não-conformista de cabelo comprido, alegando ser filho de Deus com uma mortal, chega na capital com uma multidão de provincianos esfarrapados e extremistas. O semideus é preso, interrogado, humilhado, tudo sem resistir. Uma vítima ritual, simbolizando o Deus, é pendurada em uma árvore, morta, esquartejada. Terremotos destrutivos acontecem na hora de maior ação e intensidade.

Euripides mostra tudo o que tinha sido escondido pela seriedade da tragédia. O sorriso zombeteiro de Dioniso, cruel e fantasmagórico, revela o grotesco que a seriedade da alta tragédia tentou esconder e não conseguiu.

As bacantes descontroi a personalidade ocidental, nossas ilusões e nossos orgulhos. Penteu, aliás, é literalmente desconstruído, desmontado, desmembrado. O que Ésquilo tomou de Apolo, Euripides devolve, pingando sangue, a Dioniso. Apolo é o legislador. Dioniso é aquele que está acima da lei. Euripides é a cultura grega literalmente se desfazendo aos nossos olhos.

Assim como a dicotomia Bíblia vs Ilíada, cada um puxando o emocional e o racional do Ocidente para um lado, a dicotomia Orestéia vs As bacantes, ou melhor, entre o apolíneo e o dionisíaco, também marca nossas artes da Grécia Antiga até hoje. Teremos mais oportunidades de falar nisso nas próximas aulas.

(Esse texto é um resumo e uma paráfrase do capítulo 4, “Beleza pagã”, do livro Personas Sexuais – Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson, de Camille Paglia, uma verdadeira fonte inesgotável de tesouros que eu não poderia recomendar mais enfaticamente. Também tem em inglês, mais barato.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a segunda aula, Gregos, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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A Orestéia e As bacantes, entre o apolíneo e o dionisíaco é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 23 de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/oresteia-bacantes-apolineo-dionisiaco // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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