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10ª aula: Burgueses 5ª aula: Idade Média grande conversa

A importância da tradução

Por que pagar mais caro para ler uma tradução contemporânea ao invés de ler uma tradução antiga, em domínio público, de graça? (Guia de Leitura para a Grande Conversa.)

Um dos principais temas do curso Introdução à Grande Conversa é tradução. A maioria das pessoas alunas nunca tinha se dado conta da importância de boas traduções.

Por exemplo, o Decameron é uma obra canônica há quase um milênio e já foi traduzida e retraduzida várias vezes para todas as línguas ocidentais. Por que tanto trabalho? Por que retraduzir um livro já traduzir? Por que pagar mais caro para ler uma tradução contemporânea ao invés de simplesmente ler uma tradução antiga, em domínio público, de graça?

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De certo modo, escolher uma boa tradução é mais importante para obras ponderosas, como a Ilíada, a Bíblia, a Eneida, etc, escritas num registro mais antigo, ancestral na verdade. Uma tradução contemporânea busca ser invisível: quando Frederico Lourenço traduz Homero, em 2012, ele está usando um vocabulário o mais próximo possível do nosso, tentando nos transportar para as planícies de Tróia, sentadas ao pé de Homero, visualizando Aquiles e Heitor. Se pensarmos em Frederico Lourenço, se mesmo lembrarmos que ele existe, então ele fracassou parcialmente em sua missão.

Já ler a Ilíada ou a Eneida traduzidas no século XIX por Odorico Mendes é uma experiência estética por si só, mas também é um desvio. Não é nem que sejam ruim — Odorico Mendes era brilhante e, para todos os fins e efeitos, o português de sua Ilíada é um precursor do português de Grande Sertão Veredas — mas é uma outra experiência. Ler a Ilíada de Odorico Mendes não é “ler Homero” mas ler o que um brilhante poeta brasileira do XIX, antecipando muitas das inovações textuais do XX, conseguiu fazer com um dos poemas mais canônicos de todos os tempos. (Ou seja, em uma viagem que deveria ser expressa, sem escalas, entre o século XXI e a Grécia arcaica, acabamos sendo obrigadas a fazer uma escala, deliciosa, é verdade, no Maranhão do XIX.)

Então, por um lado, para textos escritos em chaves mais informais e coloquiais, como o Decameron, a tradução é menos importante, pelo menos no quesito “compreensão”. O Decameron será sempre compreensível, tanto no original, em italiano, quanto em qualquer uma de suas múltiplas traduções.

Mas, por outro lado, surge outra questão, também importante e inexistente no caso de textos ponderosos como a Ilíada e a Eneida: Boccaccio escolheu escrever em uma chave coloquial, informal, vernácula, naturalmente porque queria, porque era parte de seu processo estético que o livro fosse lido ou ouvido assim. (Em sua época, teria sido mais natural e apropriado escrever em latim: uma de suas grandes inovações é justamente escrever o livro não só na língua vernácula, italiano, mas de forma coloquial e informal.)

Como era o interesse expresso de Boccaccio nos trazer a fala das ruas, nos colocar no meio do povo, do aqui e do agora, precisamos de uma tradução que faça o mesmo por nós. Ou seja, um tradução contemporânea ao máximo, um vidro invisível e transparente. (Se lermos uma tradução do século XIX, com típicos maneirismos do século XIX, seremos transportados para lá, não para o século XIV de Boccaccio.)

Então, dependendo da obra, dependendo da tradução, às vezes valorizamos mais as traduções mais próximas da obra.

Por exemplo, Gargantua e Pantagruel, de François Rabelais, foi publicado em francês entre 1532 e 1564. É um dos romances satíricos mais famosos e festejados de todos os tempos, ao mesmo tempo medieval em seus temas e preocupações, mas também renascentista em sua abertura e vitalidade; ao mesmo tempo coloquial e informal, cheio de peidos e arrotos, mas também cultíssimo e erudito, mas sem deixar de ser crítico à erudição excessiva — adoro os longos capítulos caçoando do jargão jurídico e o maravilho elogio aos devedores. (O 11º capítulo de Mimesis, de Auerbach, é sobre esse romance.)

Entretanto, por sua própria natureza, ele se tornou um livro difícil de ler. Por um lado, é importante uma tradução contemporânea e anotada, como a de M A. Screech, de 2006, que fale a língua de hoje e explique as referências. Mas, por outro lado, também existe imenso valor em uma tradução como a de Thomas Urqhart e Peter Motteax, de 1653, bastante próxima à própria época do livro, e que nos traz um sabor da época que nenhum tradução contemporânea poderia igualar. (É consideradas uma das melhores traduções de qualquer obra ao inglês.) Então, a escolha de uma tradução acaba sendo uma escolha difícil entre diferentes prioridades.

Por exemplo, o livro é cheio de jogos de palavras e trocadilhos: queremos uma edição que os traduza ou que os explique em nota? No capítulo 10 de Pantagruel, conhecemos os personagens “Senhor de Baisecul” e “Senhor de Humevesne”. Na tradução brasileira de David Jardim Jr, ele explica, em nota:

“Nomes irreverentes, bem à feição de Rabelais. Baise, do verbo baiser=beijar, e cul=traseiro. Hume, do verbo humer=chupar, e vesne, no francês moderno, vesse=ventosidade.”

Na tradução inglesa de M. A. Screech, ele traduz os nomes mas explica em nota como era no original:

“Bumkis renders Baisecul e Slurp-ffart, Humevesne.”

Ou seja, ambas as traduções explicam, mas a brasileira segue usando, na narrativa “Senhor de Baisecul” e “Senhor de Humevesne”, nomes que, para a leitora que não sabe francês, parecem até respeitáveis. (Quanto tempo até esquecermos seu verdadeiro significado?) Já na inglesa, a cada vez que os nomes são repetidos, somos forçados a encarar, novamente, o seu grotesco e o seu ridículo. (Dado que talvez o tema mais importante da obra seja justamente o grotesco e o ridículo, por que omiti-lo ou ocultá-lo?)

Na tradução espanhola de E. Barriobero y Herrán, o trocadilho é completamente ignorado e os nomes são dados em francês: “Señor Baisecul” e “Señor Humevesne”. Na inglesa de J. M. Cohen: “Lord Kissmyarse” e “Lord Suckfizzle”. (Confesso que eu ri até escrevendo esses nomes.) Por fim, na celebrada tradução de Thomas Urqhart, ficou “Lord Kissbreech” e “Lord Suckfist”. Nenhuma das três, em nenhuma das edições que tenho, dá nenhum tipo de nota ou explicação.

(Qual foi minha escolha? Li a tradução de Screech, acompanhando com a versão em áudio da Urqhart, e conferindo só os trocadilhos na Cohen — ele é o meu preferido nos jogos de palavras, mas só nisso.)

Adoraria ter colocado Gargantua e Pantagruel em nossa ementa, é uma obra maravilhosa, engraçadíssima e muito representativa da virada da Idade Média para a Renascença: só não dei porque a tradução brasileira é muito insatisfatória.

Por fim, na última aula de nosso curso, leremos Tchecov (1860-1904). Sua primeira tradutora para o inglês foi uma senhorinha maravilhosa chamada Constance Garnett (1861-1946), que não falava russo muito bem, que só esteve na Rússia duas vezes mas que tinha um ouvido maravilhoso. Entretanto, por sua própria ignorância lingüística e limitações pessoais, produziu traduções cheias de erros. (Nabokov, escritor brilhante e russo expatriado, especificamente odiava o seu trabalho.)

Mais tarde, ao longo do século XX e, agora, no XXI, foram surgindo novas traduções de Tchecov. Hoje em dia, uma das mais celebradas é da dupla marido-mulher Richard Pevear e Larissa Volokhonsky. Entretanto, a maior crítica a eles é justamente que fazem Tchecov soar como se as histórias se passassem nos dias de hoje.

Muitos e muitos especialistas atuais, como Donald Rayfield, preferem simplesmente voltar a utilizar as velhas traduções de Garnett, apenas corrigindo os seus erros. Ao contrário de escritores como David Foster Wallace, que considerava as traduções de Garnett “excruciantemente vitorianas”, um de seus maiores atrativos é justamente, além da qualidade literária, um certo ar vitoriano impossível de ser reproduzido hoje. (Ela era somente um ano mais nova que Tchecov.)

Já eu tenho enorme carinho por Constance Garnett e procuro sempre ler suas traduções, especialmente para Tchecov e Turgeniev. Já Pevear & Volokhonsky me soam sem gosto & sem graça.

Resumindo, ler o Decameron em uma tradução contemporânea, na nossa linguagem de hoje, é entrar num túnel do tempo que nos leva diretamente ao mundo de Boccaccio, às suas ruas, às suas personagens, às suas palavras, à sua voz. Já ler o Decameron em uma tradução, digamos, do século XIX é entrar em um outro tipo de túnel do tempo, que pode até ser útil se quisermos estudar a era vitoriana (assim como é útil ler Gibbon para entender como os iluministas viam o Império Romano), mas que necessariamente nos afasta da Idade Média de Boccaccio.

(Referências: Cormac Cuilleanáin, “Translating Boccaccio”, em The Cambridge Companion to Boccaccio.)

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Quatro links sobre Constance Garnett e as dificuldades de traduzir literatura russa, todos em inglês: The translation wars; The Woman Who Brought Dostoevsky and Chekhov to English Readers; Constance Garnett: A Heroic Translator; Matrioshki, Craig Raine


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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a quinta aula, Idade Média, e a décima aula, Burgueses, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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A importância da tradução é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 16 de outubro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/importancia-da-traducao // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: NewsletterInstagramFacebookTwitterGoodreads. // Todos os links de livros levam para a Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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