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5ª aula: Idade Média grande conversa

Idade Média, suas línguas e literatura: uma brevíssima história

Como pode ser uma “Era das Trevas” se nos deu a universidade e o hospital, nossas línguas ocidentais e o desejo de nos fazer ao mar? (Guia de Leituras para o curso Introdução à Grande Conversa.)

A Idade Média não foi nem Era das Trevas nem Idade de Ouro, mas um período de grandes contrastes, em que fome e peste se alternaram com prosperidade e paz, no qual o universalismo do papado e do império conviveram com os particularismos senhoriais e com as monarquias em vias de centralização.

(Marcelo Cândido da Silva, “Introdução”, História Medieval.)

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O mundo romano e os reinos bárbaros

“Bárbaro” é um conceito que romanos pegaram emprestados dos gregos. A diferença é que, para os romanos, os bárbaros podiam ser integrados. A medida que os bárbaros eram integrados, e adotavam a religião cristã, eles adquiriam também uma certa concepção de História, de práticas ditas civilizadas. O que eles conseguem são categorias étnicas, políticas e de costumes romanos, e são através dessas categorias que vão pensar a si mesmos e articular sua própria existência.

Quando Roma cai e o seu território é tomado por reinos bárbaros, não há uma mudança significativa de estrutura política, prática administrativa, língua utilizada, composição das elites, etc. Eram reinos fundamentalmente romanos em sua concepção. (O que se perde é o governo central, que não é pouco. Escavações arqueológicas revelam que não houve problema na produção de alimentos, mas que as várias fomes que aconteceram foram por problemas de má distribuição.)

O contato com os romanos, por exemplo, é decisivo para as populações da Germânia e da Escandinávia: suas primeiras tentativas de centralização política se deram por influencia romana. Mesmo quando era para combater a própria Roma. A grande verdade é que, a partir de sua integração ao império, a distinção entre “romanos” e “bárbaros” era difícil de visualizar: o império era o melting pot por definição, que a todos aceitava, e a todos transformava em romanos. O que unia os bárbaros, na prática, era somente serem chamados de bárbaros, pois tinham muito pouco em comum uns com os outros. A oposição “bárbaros” e “romanos”, como a conhecemos hoje, foi explorada e estimulada no século XIX, por historiadores franceses e alemães, para buscar e explicar as diferenças entre esses povos. Designações que hoje nos soam étnicas e culturais (francos, lombardos, godos, vândalos, etc) não eram na época: eram bandos, livres, onde havia muita troca e vaivém e que, quando se integram ao império romano, rapidamente perdem suas características distintivas.

As histórias dos povos bárbaros, escritas a partir do século VIII, tem como objetivo consolidar e criar uma narrativa conjunta para aquele povo e dizem mais sobre esse momento histórico em si do que sobre as “invasões bárbaras” a Roma. Temos indícios que, enquanto existia o império, tudo que os bárbaros mais queriam era se integrar romanos. Não é à toa que essas histórias dos povos bárbaros somente começam a surgir a partir do momento em que o império não existe mais e esses reinos precisam se legitimar perante si mesmos e perante o mundo, fabricando mitos de origem. (Vamos falar bastante sobre isso na 9ª aula, ao lermos Martin Fierro, mito de origem dos argentinos. Aqui tem um textinho meu sobre esse poema.)

Dentro da Alta Idade Média (que vai mais ou menos da queda de Roma até a virada do milênio), existem dois períodos muito mencionados: o merovíngio e o carolíngio. Os merovíngios foram uma dinastia franca que reinou onde hoje é a França entre meados do século V e o ano de 751, quando o último rei merovíngio é deposto pelo primeiro rei carolíngio. Os carolíngios atingem seu apogeu no ano 800, quando Carlos Magno é coroado “Imperador Romano”. A grande novidade dos carolíngios foi tentar validar seu poder terreno com o poder espiritual do Papa. Isso faz nascer uma nova concepção de exercício de poder, onde o soberano age como responsável perante a deus pelo reino, com a benção do papa e o apoio da aristocracia. Essa concepção está na base das alegações universalistas de Carlos Magno ao se sagrar Sacro Imperador Romano, e também das guerras que ele trava contra os bárbaros — agora definidos como os não-cristãos. A união do imperador com o papa, e o largo território dominado por ela, quase toda a Europa ocidental, menos península ibérica e ilhas britânicas, é fundamental para a forçamao e manutenção do conceito de cristandade, de Europa, de ocidente. É sob os carolíngios que a palavra Europa, alias, adquire esse sentido político e religioso de “espaço que reunia católicos que estavam submetidos a autoridade temporal do imperador e espiritual do papa”. O Papado pode assim exercer autoridade moral sobre o conjunto das igrejas do ocidente e participar, e liderar, a construcao da ideia de cristandade. Essa ideia sobrevive ao esfacelamento do império carolíngio, ao surgimento dos principados territoriais, graças a formação de uma cultura fundada em torno da doutrina e dos ritos cristãos, uma cultura da qual participavam igualmente os mais ricos e os mais pobres.

Os reis e imperadores carolíngios adotaram o título “rex Dei gratia” ou “rei pela graça de Deus”. Quando seu império se esfacela, é interessante que seus sucessores adotam a fórmula: “príncipe pela graça de Deus”, “conde pela graça de Deus”, etc, afirmando não apenas sua condição de cristão, mas também sua independência em relação ao imperador: não governam mais por graça do imperador, mas por graça de Deus. Também mostra que já se acha relevante e importante justificar a fonte do poder para seus governados.

(Desenvolvo algumas dessas questões em minhas notas de leitura ao Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon. Referências: Marcelo Cândido da Silva, “O mundo romano e os reinos bárbaros”, “Dominação senhorial”, História Medieval)

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Roma e a colonização romana

A romanização de um território acontecia lentamente, de cima pra baixo. Os primeiros romanos que vinham se estabelecer nos territórios recém-conquistados eram os oficiais, burocratas, juízes, comandantes. A seguir, vinham as escolas, estabelecimentos de recreação, esporte, teatro. Em breve, a povoação principal tinha se convertido em uma cidade romanizada. A língua da alta administração, da burocracia estatal, era latim, que também era, por óbvio, a língua mais prestigiada e valorizada. Logo, a elite local já estava não só falando latim mas, mais importante, ensinando-o aos filhos, matriculando-os em escolas romanas, como melhor maneira de ascender socialmente. Os pobres lentamente seguiam logo atrás. Em breve, o campo, cada vez mais dependente da cidade já completamente romanizada, se romanizava também. A elite já estava totalmente romanizada em uma geração; os mais pobres, em algumas poucas. De qualquer modo, o processo se completava em poucos séculos.

Nas províncias ocidentais do Império Romano, no que hoje é a Europa ocidental, o prestígio do latim destruiu pouco a pouco até os últimos vestígios das línguas que existiam antes de sua chegada, restando somente os poucos vocábulos que diferenciam uma língua românica de outra. O prestígio cultural, militar, político que as pessoas percebiam no latim não se comparava ao valor que davam às suas próprias línguas. No Império Romano do Oriente, entretanto, a história foi outra: quando os romanos lá chegaram, trazendo seu latim, a língua franca já era o grego, que tinha muito mais prestígio. (Nesse caso, foram os romanos que, apesar de terem conquistado todo o mundo grego, nunca se libertaram de um certo sentido de inferioridade em relação a ele.) No mesmo período em que o latim estava lentamente desbancando as línguas “bárbaras” ocidentais, no oriente, a língua do prestígio, da instrução, da filosofia seguindo sendo o grego. Por isso, as línguas românicas só se desenvolvem naquelas áreas onde o grego não era língua franca. (Auerbach, “Roma e a colonização romana”, Introdução aos estudos literários, 63-70.)

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O latim vulgar

A diferença entre o latim falado e o latim escrito, entre o latim culto e erudito, e o latim vulgar e popular, era muito maior e mais consciente na antiguidade do que hoje. (Apesar de haver diferença, nós tentamos escrever o máximo possível como falamos e vice-versa.) O latim que aprendemos atualmente, nas escolas e universidades onde ele ainda é ensinado, é o latim escrito, culto, erudito, o latim de Cícero, de Virgílio, etc. Entretanto, o latim que deu origem às línguas românicas atuais era o latim vulgar, a língua falada e corrente, muito muito distinto. Além disso, em cada país onde os romanos se estabelecem, o latim vulgar (não o culto) se estabelece sobre as línguas célticas ou ibéricas, etc, que já existiam. Em breve, essas línguas deixam de ser faladas mas deixam marcas e vestígios nas novas línguas que vão surgindo, especialmente palavras mais locais e mais antigas, plantas, animais, instrumentos agrícolas, etc. Enquanto o Império Romano se manteve intacto, com excelentes estradas e com as províncias em constante comunicação, a língua se manteve uma só, com pequenas variações regionais, dependendo das línguas de substrato. Com a queda do império, as províncias se desagregam, a comunicação decai, as forças de coesão e centralização lingüística somem, e a língua falada em cada região começa a se mover para direções diferentes.  Enquanto isso, o latim literário, mantido por uma pequena elite culta e literata, se manteve estável, mesmo com parcas comunicações, pois a antiguidade valorizava o belo como critério estético estável e imutável. Enquanto isso, entretanto, nas ruas, sujeito a muitas pressões populares, o latim vulgar, sem livros e sem gramática, sem pressão para manter-se igual, mudava velozmente. Importante também ter em mente que o latim vulgar era mais uma “concepção” do que uma língua em si. Ou seja, o latim vulgar falado na região de Lisboa, mistura do latim clássico com os dialetos lusitanos, era necessariamente muito diferente do latim vulgar falado na região de Paris e fruto de uma mistura com os dialetos gauleses. É provável que não fossem nem mutuamente inteligíveis. Roma cai em 476: o primeiro documento em qualquer língua românica é um juramento de um rei carolíngio, em francês, no ano de 842, enquanto o latim clássico manteve-se igual por milênios até, finalmente, fossilizar-se e morrer.

(Auerbach, “O latim vulgar”, Introdução aos estudos literários, 71-81.)

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O cristianismo

Mesmo antes da instituição da monarquia papal (IX), com o enfraquecimento e queda do império carolíngio, a igreja se torna, novamente, a única instituição a abranger todo o território europeu. Ela forjou alguns dos principais traços daquilo que consideramos cultura ocidental.

O termo ecclesia, de onde vem igreja, começa a aparecer em vários textos do ocidente a partir do IX para designar a comunidade de todos os cristãos. O termo também era usado para designar uma congregação específica (Igreja de Lyon), o edifício do culto e também, a partir do XI, a instituição estruturada em torno do poder absoluto do bispo de Roma, ou seja, a Monarquia Papal.

A preeminência do bispo de Roma, por ser o sucesso de Pedro, era conhecida, mas não por isso ele era reconhecido como o soberano da Igreja católica. Até o VII, sua eleição, sob controle da aristocracia romana, deveria ser referendada pelo imperador do Oriente. (Somente no IX ela passa a ser feita por um colégio de cardeais.) A partir do VI, o bispo de Roma passa a ser mais e mais chamado para mediar conflitos entre diferentes igrejas e congregações. Finalmente, sua aliança com os carolíngios e a criação dos Estados Papais, no final do VIII, deram ao bispo de Roma um papel não só de interlocutor com reis e imperadores, mas também uma preeminência secular, como chefe de seu próprio estado. Quando o império carolíngio desaparece, no final do IX, os bispos de Roma eram os únicos q ainda podiam reivindicar um poder de natureza universal, embora a principio apenas espiritual. No final do XI, no episódio conhecido como Querela das Investiduras, o Papa entra em conflito com o imperador e, pela primeira vez, proclama sua supremacia sobre toda a cristandade, tanto em matéria temporal.

É na Idade Média que surge o conceito de Cristandade, que faz, pela primeira vez na história, que os habitantes de uma região vasta, se sentissem membros de uma mesma comunidade, apesar de suas inúmeras diferenças. O legado da antiguidade é preservado não só nos mosteiros e conventos, mas também nas práticas dessa igreja que é romana e foi moldada na antiguidade. Um dos marcos da Idade Moderna é justamente a Reforma, que divide essa cristandade em dois. Logo, portanto, ela é um fenômeno por definição medieval. (Marcelo Cândido da Silva, “Introdução”, História Medieval.)

No começo da Idade Média, as missas eram rezadas em latim — como eram, aliás, até meados do século XX. Em poucos séculos, entretanto, as pessoas comuns já haviam perdido a capacidade de entender o que se chamava de “baixo latim literário” — que já era alguns degraus abaixo do latim clássico de Cícero e Virgílio. Já no século VII, temos a ocorrência mais antiga de sermões pregados em latim vulgar — que já deveriam acontecer há bem mais tempo. Esses sermões e paráfrases das escrituras são muito importantes, pois são a primeira coisa que dá aquelas línguas (vamos lembrar que não havia um latim vulgar, mas vários, diferentes em cada região), até então orais e grosseiras, um começo de dignidade, um princípio de forma literária, de uso literário, de alguma unidade e consistência. Pois, para exprimir em linguagem vulgar, mesmo de maneira mais simples, os mistérios da fé era necessário criar todo um vocabulário abstrato, toda uma sintaxe, toda uma lógica interna que aquelas línguas, até então eminentemente práticas e orais, simplesmente não tinham. Sabemos disso pois muitas palavras da esfera eclesiástica se mantiveram quase tão uniformes e quase tão próximas ao latim quanto outras palavras das esferas jurídica e administrativa. Além disso, o latim vulgar também era usado para dramatizações de episódios das escrituras: esses diálogos baseados explicando e popularizando a Bíblia foram o cerne dos futuros autos religiosos e o germe do teatro europeu. Em lugar do antigo sublime, consolidou-se um novo estilo sublime e também humildade, que admitia as personagens do povo e que não recuava diante de nenhum realismo cotidiano, cujo objetivo era não mais buscar a aprovação de uma elite letrada que o julgaria em comparação a algum ideal estilístico ancestral, mas simplesmente, praticamente tornar as histórias bíblicas mais familiares e mais populares.

(Auerbach, “O cristianismo”, Introdução aos estudos literários, 82-96; Marcelo Cândido da Silva, “Igreja e sociedade”, História Medieval.)

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As invasões

As províncias do Império Romano já vinham se distanciando durante seu longo declínio e a queda efetiva de Roma (476) apenas acelera o processo. O processo de desestabilização política só colabora para a desestabilização lingüística. Uma estabilização relativa é alcançada somente durante o período carolíngio, que começa por volta de 751. Ou seja, temos cerca de 300 anos de rápidas e descontroladas mudanças lingüísticas. Estima-se que já durante os séculos VI e VII a unidade do latim vulgar se fragmenta completamente e os falares regionais se transformam em línguas independentes. Em fins do século VII, os árabes destroem o que restara do latim no norte da África e, em 711, já na Península Ibérica, destroem em uma só batalha o reino dos Visigodos. O Mar Mediterrâneo deixava assim de ser um “mar europeu e cristão”, e o centro da cristandade se voltava mais para o norte. Eles cruzam os Pirineus, são derrotados pelos francos de Carlos Martel em 732, voltam e se consolidam na Península Ibérica, onde ficarão por 700 anos. (Sempre gosto de lembrar que os mouros dominaram a Península Ibérica por mais de três vezes a duração da existência da nação brasileira.) O resto dos cristãos-hispanos-visigodos se refugiam no norte da Península e fundam o Reino das Astúrias, único pedaço de território ibérico nunca conquistado pelo muçulmanos e de onde partirão, durante todos esses 700 anos, seus esforços de Reconquista. Entretanto, não havia outros reinos cristãos na Península, mas isso não quer dizer que o cristianismo tenha sido varrido do mapa: os mouros, pelo contrário, especialmente nos seus primeiros séculos de dominação, eram bastante tolerantes e, tirando os reinos cristãos sempre em pé de guerra, nos reinos mouros tendiam a conviver pacificamente mouros, cristãos, judeus. Já relativamente cedo, os falares românicos da Península se dividiram em três grupos: o dos conquistadores, que partiram do norte, de Astúrias e, depois, de Castela, que foram os mais fortes, militar e politicamente, lideraram a reconquista e impuseram sua língua, dando origem ao espanhol; à oeste, um grupo partindo da Galícia, ao norte, veio descendo a costa atlântica até chegar quase à África, e deu origem ao galego-português. Por fim, a fronteira espanhola do império franco mantinha relações culturais estreitas com o sul da França e, quando se tornou independente, e depois ao se unir à Castela, manteve sua língua com fortes traços de provençal, e dando origem ao catalão.

Os árabes, apesar de dominarem a península por mais tempo do que os romanos, apesar de uma dominação pacífica com vida cultural intensa, não conseguiram arabizar a população romana, como os romanos tinham feito com os germânicos, mas também não foram romanizados

Com o Império destruído, a única unidade que restara para unir a Europa ocidental era o cristianismo. A igreja católica tenazmente expulsara ou debelara todas as heresias e continuava seu lento trabalho de converter todos os povos pagãos europeus. Mais e mais, toda a atividade literária e intelectual se concentrava na igreja. Escritores, poetas, músicos, filósofos, professores, todos, em algum grau, pertencem ao clero.

Com o fim do império e o declínio da atividade econômica, os camponeses empobrecidos começam a abandonar suas terras, para fugir dos impostos, e os imperadores e as elites locais, em um esforço de impedir essa movimentação, passam leis restringindo a mobilidade dos camponeses, prendendo-os ao solo, impedindo trabalhadores de mudar de profissão. De um modo bem geral, a medida que vida se estabiliza, ela também perde toda a flexibilidade e a sociedade vai se tornando um sistema de castas onde as possibilidades de se deixar a posição onde se nasceu são cada vez mais baixas. O comércio, de modo geral, decai, atrapalhado por freqüentes revoltas, maior pirataria nos mares, mais roubos nas estradas, e leva consigo os burgueses das cidades, cada vez mais empobrecidos. Enquanto isso, somente um pequeno grupo de grandes proprietários de terras efetivamente enriquecia, mas mesmo eles preferiam deixar as cidades, cada vez mais esvaziadas de atividade econômica, e viver em suas terras, cercados por seus colonos, antes livres, agora hereditários. Graças a decadência do poder central, essas grandes propriedades muitas vezes se convertiam em unidade políticas praticamente autônomas, onde o senhor local exercia até mesmo a prerrogativa de julgar. Esse foi (bem lenta e gradualmente, ao longo dos primeiros séculos depois da queda de Roma) o fim da civilização urbana da antiguidade.

Em meio a tudo isso, somente a atividade literária ainda tinha alguma unidade, pois estava concentrada debaixo da chancela da igreja e sendo praticada pelas pouquíssimas pessoas que ainda sabiam ler e escrever. Enquanto isso, nas ruas, fora do controle da Igreja, o latim vulgar ia se esfacelando e se consolidando nas línguas românicas que temos hoje. Por longo tempo rechaçadas pela Igreja, que presumia o seu latim como única língua literária, elas não conseguiram começar a desenvolver literatura até o século XI.

(Auerbach, “As invasões”, Introdução aos estudos literários, 97-118.)

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A Idade média

As novas línguas derivadas do latim vulgar não se tornam línguas literárias do dia pra noite e precisam, antes, travar longa batalha contra o latim literário, culto, internacional. A teologia, a filosofia, as ciências, a jurisprudência, os documentos políticos, as cartas entre chancelarias, tudo isso era escrito em latim. As línguas românicas, consideradas línguas vulgares, línguas do povo, eram línguas somente orais, usadas nas ruas, quando muito para contar piadas ou cantar canções, coisas que os eruditos e literatos consideravam que estava abaixo da sua atenção. A erudição era eclesiástica: todos os conhecimentos humanos se subordinavam à teologia: como a língua da igreja era o latim, somente o latim era reconhecido como instrumento de cultura, sabedoria, erudição. A igreja, quando muito, por necessidade de comunicação, pregava alguns sermões no latim vulgar, ou nas novas línguas românicas, mas apesar de sabermos que isso acontecia, não temos registros — pois justamente se considerava que textos escritos nessas línguas eram indignos até de serem registrados — serviam apenas para se comunicar com o povo mais simples. Enquanto as línguas vulgares, faladas nas ruas, completamente dinâmicas, sem gramáticas ou dicionários que lhes segurassem, mudavam rapidamente, o latim continua igual em todos os lugares, uma língua fixa e única em toda parte, mas, também por isso, cada vez mais morta, cada vez mais longe daquela vitalidade real, das ruas, que mantém viva qualquer idioma. Era compreendida mais e mais somente pelo clero e pela classe de eruditos ligada a eles.

Enquanto isso, as línguas vulgares vão conseguindo, pouco a pouco, cavar para si uma existência literária. A partir do ano 1000, conseguimos encontrar mais e mais obras de vulgarização eclesiástica escrita na língua do povo, e, a partir do século XIII, começam a surgir, no sul da França, centros de civilização literária em língua vulgar, onde começa a surgir a primeira literatura poética escrita por pessoas que não sabiam latim: é a civilização dos cavaleiros, a civilização feudal.

Do ponto de vista cultural e literário, do ponto de vista da Grande Conversa, a Idade Média é a época onde surgem, se desenvolvem e adquirem existência literária as línguas que viriam a se tornar as línguas ocidentais: a princípio, somente um instrumento popular, enquanto o latim permanecia a língua da política, da alta cultura, da erudição, da ciência. E a Renascença seria a época em que essas línguas vulgares (e não só as românicas, mas também as germânicas) assumem definitivamente sua posição de superioridade, infiltram-se na filosofia e nas ciências, introduzem-se até mesmo na teologia e destroem assim a dominância do latim.

Apesar disso, as identidades nacionais como as conhecemos ainda não existem: as pessoas não se sentem francesas ou espanholas ou italianas, mas aragonesas, napolitanas, provençais. (A grande exceção é Portugal, onde se forma a primeira consciência nacional ocidental, já no século XI ou XII) A identidade que todas têm em comum, que une todas essas culturas na unidade que se chamou Ocidente, é o cristianismo. Em cada lugar, a consciência nacional vai surgindo de maneiras diferentes. Na Itália, ela se baseia na civilização e línguas comuns, e num passado comum visto como glorioso; na Espanha, a unidade nacional se constrói na luta para expulsar os mouros de um espaço geográfico com fronteiras naturais bem claras (Portugal forma sua unidade nacional lutando contra os mouros e contra os espanhóis); na França, a consciência nacional se funda no prestígio da realeza, que seguia tenazmente uma política de unidade nacional contra as forças centrífugas do feudalismo e tinha como aliada a burguesia urbana. O século XII marca o apogeu da civilização feudal, que era em sua essência centrifuga e particularista, onde o poder repousava em pequenas autarquias independentes, e começa a ver a ascensão de uma certa burguesia mercantil urbana, interessada no desenvolvimento do comercio, das comunicações, da industria, que floresce em agrupamentos organizados em escala mais vasta. A medida que as classes burguesas se expandiam e entravam nos domínios dos grandes nobres, também serviam para fortalecer um poder central único e uma certa ideia de nação. Dependendo das forças nacionais em atrito, o processo poderia ser mais rápido ou mais lento: Portugal sai na frente e completa esse processo já no século XII; Alemanha e Itália, somente no XIX. Nesses dois países, a presença de duas potências centrais, que perseguiam ambições universalistas ao invés de nacionais, o sacro-imperador e o papa, serviram para malograr e atrasar as forças internas que trabalhavam em prol de uma unificação nacional. Não é a toa também que, por toda a idade média, imperador e papa estarão sempre em conflito aberto, arrastando a Europa toda atrás de si, em alianças e acordos sempre mutáveis.

Apesar de nossos preconceitos, a verdade é que a igreja deve sua força e sobrevivência à sua flexibilidade, que lhe permitiu incorporar e conciliar os sistemas filosóficos e científicos mais diversos. Além disso, ao restringir o número de dogmas, deixou muita liberdade à interpretação, à fantasia popular, às visões místicas, às diferenças regionais de culto e de ritual. A cada problema, essa mesma elasticidade é que lhe dava os meios de se criticar, se corrigir, se levantar, sair mais forte. Sob a liderança da igreja, floresceram artes, arquitertura, pintura, escultura. A vida religiosa do católico era vigorosa, fértil, popular. A Igreja conseguiu realizar uma verdadeira unidade viva, vibrante, de muitos povos e muitas classes sociais. Pode-se argumentar que a Renascença e a Contra-Reforma destroem isso, mas também pode-se argumentar que foi a perda dessa elasticidade e adaptabilidade, dessa capacidade de se auto-corrigir, que transforma a igreja na instituição dura e monolítica do século XV e será essa dureza o principal catalisador tanto da Renascença quanto da Contra-Reforma.

A atividade intelectual da idade media esteve totalmente nas mãos da igreja. Os filósofos e eruditos da idade media eram monges. Bem cedo, porém, os centros de estudos se transferiram dos conventos para as cidades, onde, a partir do século XIII, se fundam as primeiras escolas gerais de todas as ciências, ou seja, universidades. O ensino seguia quatro faculdades, ou áreas: primeira, o aluno precisava passar pela faculdade de “artes liberais” (letras, filosofia, etc) e, depois, escolhia uma das outras três: teologia, medicina, direito. Mais tarde, a Renascença introduz o estudo dos grandes textos da Antiguidade, se afasta da filosofia escolástica e estabelece os primeiros centros de pesquisa científicos completamente independentes da igreja e do clero.

Muito se diz que houve um apagamento da Antiguidade durante a Idade Média e que o Renascimento seria, justamente, um renascer, uma recuperação dessa herança clássica. Mas isso não faz muito sentido. Nada se cria do nada. De onde viria a civilização medieval, seus valores e suas idéias, se não da antiguidade que lhe precedeu e serviu de base? A tradição antiga não deixou jamais de ser central na cultura e sociedades européias: ela foi vigorosa, ainda que insconsciente. Foi a partir dela que a Idade Media construiu suas instituições religiosas, políticas e jurídicas, sua filosofia, sua arte, sua literatura. Assim como o latim se transformou em latim vulgar, ainda falado e disseminado, e, a partir dele, se transformou nas línguas românicas, podemos chamar, se quisermos, a Idade Média de Antiguidade Vulgar, onde ainda sobrevivia inconscientemente a civilização antiga, tenaz e fértil, sujeita a mudanças confusas, inconscientes e desfiguradas, somente sem o desejo consciente (que é a grande novidade do renascimento) de reconstituir essa civilização antiga que lhe servia de base.

(Auerbach, “Idade Média. Observações preliminares”, Introdução aos estudos literários, 155-68.)

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Canções de Gesta

Até cerca de 1100, os raros poemas em língua vulgar tratavam apenas de temas religiosos, vulgarizações de poemas latinos para edificação do povo que não falava latim. A partir de 1100, lentamente começam a surgir inspirações originais: são longos poemas épicos, históricos, destinados a serem cantados com o acompanhamento de um instrumento musical, rememorando grandes feitos dos heróis do passado, os combates das épocas merovíngia e carolíngia, de uma época anterior alguns séculos. Não são pura fantasia, mas também não são obras de exatidão histórica: narram fatos históricos, sim, mas alterados pela fantasia popular, com simplificações, confusões, invenções, É a vida dos heróis refletida na imaginação popular. O século XII oferece abundante produção de Canções de Gesta.

A Canção de Rolando, escrita em meados do XII em anglo-normando, contando 4 mil versos, é uma das mais famosas. Conta a história da morte dos doze pares de França, companheiros de batalha de Carlos Magno (morto em 814), um dos quais é Rolando, em uma batalha ao sul dos Pirineus contra os mouros. Mas é interessante que o poema reflete o falar, a cultura, os fatos, de quando foi escrito, não da época que pretensamente retrata. Por exemplo, a batalha realmente existiu, em 778, mas foi contra os bascos: Carlos Magno tinha excelentes relações com os reinos mouros e a ideia de cruzada ou guerra religiosa ainda não tinha surgido. Ou seja, o poema narra uma história acontecida no século VIII mas com os costumes e concepções, com o contexto histórico e cultural do século XII. Não por estar propositalmente falseando a história, mas porque é natural imaginarmos que as relações entre os povos do passado era mais ou menos semelhante ao do nosso presente.

Os debates que vimos sobre Homero se repetem em larga medida sobre a criação das canções de gesta: eram produção coletiva, de bardos orais que iam compondo ao longo do tempo, decorando e adicionando? Ou eram composições de literatos, escritas desde sempre, mas levando em consideração e se inspirando por uma tradição de canções orais? Naturalmente, de um modo ou de outro, é inconcebível a existência de poemas como essas sem uma longa tradição que vincula os nomes dos heróis aos grandes acontecimentos históricos, uma tradição que vai se deformando e se moldando oralmente ao gosto do povo.

De início, a Igreja se mostrara hostil à poesia em língua vulgar, e só a tolerou, aceitou e promoveu a partir do século XI, quando percebeu q podia adapta-las as suas necessidades. Aliás, a versificação dos poemas franceses remonta aos hinos latinos da igreja, que remontam à poesia latina classica, uma tradicao que não poderia ter sido mantida a não ser no seio da igreja.

As canções de gesta são obras dos séculos XI e XII, que chegam até nos imbuídas do espírito de cavalaria das primeiras cruzadas, espírito guerreiro, feudal, fanaticamente cristão, mistura paradoxal de cristianismo e imperialismo agressivo, um espírito nascido justamente nessa época, século XI, e que não existia antes.

(Auerbach, “Canção de Gesta”, Introdução aos estudos literários, 171-6)

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O romance cortês

Em meados do XII, pela primeira surge uma civilização literária que se exprime em língua vulgar, a da cavalaria cortês. O romance cortês se distingue da canção de gesta nos seguintes pontos: seus assuntos nunca tem base histórica, mas são aventuras puramente fantasiosas, passadas em um mundo completamente imaginário e idealizado, longe das preocupações reais e cotidianas; seu tema principal é o amor, a adoração da mulher, que se torna senhora absoluta do cavaleiro cortes — nas canções de gesta, o amor não desempenha nenhum papel. O próprio termo romance originalmente queria dizer “história em língua românica”, ou seja, em língua vulgar. Os exemplos mais famosos são as histórias do ciclo do Rei Arthur, aventuras maravilhosas e mágicas, sem nenhuma base real, num mundo imaginário no qual operam feitiços e mágicas de toda sorte, um mundo que parece ter sido criado unicamente para ser palco dessas belas e corteses aventuras. O mais célebre poeta desse ciclo é Chretien de Troyes, nascido em 1160.

(Auerbach, “Romance cortês”, Introdução aos estudos literários, 176-81)

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Poesia lírica francesa e provençal

As primeiras poesias líricas em língua vulgar que chegam a nos são contemporâneas das canções de gesta, ou seja, são do começo do XII. Seguramente existiam há mais tempo, mas as anteriores se perderam para nós. Um desses gêneros de poesia, a canção de trovador, onde um homem implora o amor de dama a quem adora, de quem é escravo, que o torna triste sem que isso abale a sua fidelidade; e que acaba se tornando o gênero clássico da lírica cortês que se espalhou por toda a Europa e que também gerou as primeiras obras literárias em língua portuguesa.

(Auerbach, “Poesia lírica francesa e provençal”, Introdução aos estudos literários, 181-5.)

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Teatro religioso

O teatro religioso: uma das mais importantes criações da literatura religiosa da época. Ele surge na liturgia, como uma dramatização de episódios bíblicos, para facilitar uma compreensão dos fieis. Era naturalmente redigido em forma de dialogo, que tornava a historia sacra tanto familiar quanto popular, um dialogo que em breve passou a ser rimado, cantado, recitado em língua vulgar, diálogos que foram se tornando mais e mais elaborados a medida que a evolução das línguas vulgares o permitiu. Em breve, ele sai da igreja e vai para a praça em frente, ao ar livre. Em breve, pouco a pouco, ela se torna mais laica, mais mundana, mais secular, dando origem à tradição teatral europeia. Os autos de Gil Vicente, escritos na virada do XV para o XVI, ao mesmo tempo medievais e renascentistas, são a brilhante culminação dessa tradição medieval.

Os episódios mais frequentemente dramatizados eram o nascimento de Jesus, no Natal, e sua Paixão e Ressureição, na Páscoa. Em breve, associações de artesãos começam a organizar companhias especificamente para realização dessas peças, que muitas vezes tinham 30 mil a 50 mil versos, e eram representadas ao longo de vários dias. Eram chamadas de “mistérios” ou “paixões”. Duas particularidades: não conhece a obrigatoriedade de unidade de lugar, de tempo ou de ação, que tanto marcava e engessava o teatro clássico, e não apresenta a velha separação de estilos da antiguidade, entre o sublime e o humilde. Aos espectadores, não era mostrado um drama, um conflito, uma crise, mas sim todo o drama cósmico da humanidade, pintado na tela mais ampla possível, do começo ao fim do mundo, desde o pecado original até o apocalipse.

(Auerbach, “Teatro Religioso”, Introdução aos estudos literários, 187-91.)

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Teatro profano e Contos realistas

A ascensão do teatro religioso permite um começo de um certo teatro profano, ainda precário e incipiente, encenando farsas e comédias, que faziam sátiras políticas, mas também dramatizavam o amor e o sexo, os ardis entre maridos e esposas, tudo muito rasteiro e burlesco. Surgem também os fabliaux, um gênero literário de contos pícaros e engraçados, escritos em versos e rimados, também trazendo os temas acima, numa chave realista e cômica. Não tem propósito moral, são geralmente grosseiros e sem delicadeza. Fazem pouco de maridos enganados, camponeses burros, religiosos corruptos. Quando Boccaccio escreve o Decameron, é com a tradição dos fabliaux que ele está trabalhando. A diferença é que ele escolhe escrever em prosa; cria uma moldura elegante e elitista para adicionar respeitabilidade; e escolhe enxergar seus personagens com mais empatia e dignidade humanas.

(Desenvolvo mais algumas dessas questões em minhas notas de leitura sobre o Decameron. Referências: Auerbach, “Teatro Profano” e “Contos Realistas”, Introdução aos estudos literários, 191-5.)

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Literatura medieval italiana

Um dos marcos da evolução das línguas românicas é o tratado Da Eloquencia Vulgar, de Dante Alighieri, onde ele busca estabelecer os princípios pelos quais a língua italiana deve ser formada e fixar quais temas e formas da alta poesia que devem ser utilizados. A ideia da língua literária e da alta poesia ele tira da antiguidade clássica e do latim, mas já não mais reconhece no latim o veículo ideal para essa nova literatura. Embora recomende os poetas latinos como referência, o que ele quer é cultivar e embelezar a língua italiana, transforma-la no mais nobre instrumento de poesia. O que Dante faz nesse momento com o italiano (até então considerado uma língua vulgar, incapaz de ser usada para alta poesia e literatura) é o que será feito, sucessivamente, em todas as línguas ocidentais modernas em seus esforços de superar o latim. Por sua filosofia e por suas idéias políticas, Dante é um homem medieval, que reúne em si toda a sabedoria de sua época e de sua civilização.

Seus sucessores imediatos, entretanto, Boccaccio e Petrarca, já são mais humanistas que medievais: valorizam a cultura antiga mais que a sua própria, caçam manuscritos antigos e os imitam; começam a cultivar sua própria autoimagem de poetas ou artistas, algo que não existia na Idade Média, que conhecia bardos e trovadores, de um lado, e filósofos, de outro; Dante era visto como filósofo).

Petrarca desprezava tudo o que fosse medieval e contemporâneo a ele, inclusive sua língua mãe: seu objetivo era escrever no latim clássico, de Cícero e Virgilio. De fato, foi nas obras escritas em latim que ele apostou as fichas de sua glória literária. Sua imortalidade, entretanto, foi assegurada pelas poesias que ele valorizava tão pouco que escreveu em italiano, mas que foram o foco para onde convergiram todas as correntes poéticas da Itália e da Provença. Suas poesias, q tanto desprezava, foram o modelo do lirismo europeu por século, e só o romantismo do século XIX conseguirá superá-la.

Boccaccio igualmente era humanista, caçava manuscritos antigos, desprezava seu presente, escreveu suas obras mais ambiciosas em latim. O que o distingue de Petrarca é que foi um grande prosador e, quando decidiu escrever seu próprio fabliaux, o Decameron, escolheu escrevê-lo em italiano (teria sido impensável e impraticável no latim clássico!) O Decameron é marcado pela complexidade de sua estrutura, por seu realismo, por seu finura psicológica, tudo léguas distante dos contos moralistas, secos, simplistas, sem vida, que caracterizavam os fabliaux, divertidos mas sempre grosseiros.

O Decameron é um mundo tão elegantemente artístico quanto popular, tão rico quanto a Divina Comedia, mas sem suas altas aspirações, e bem mais pés-no-chão em sua maneira de tratar a vida humana: exala o sabor da realidade vivida, está impregnado de uma sensibilidade fina e jovial e é infinitamente acessível e aprazível. A arte de contar histórias em prosa é fundada por ele.

O ponto de partida do humanismo é justamente um certo culto da antiguidade greco-latina, inclusive o latim clássico, unido a um desprezo por tudo q fosse do medievo, entre eles o latim vulgar e as novas línguas românicas. Boccaccio e Dante, de certa maneira, chegam até nós por serem a exceções: por terem escrito em latim mas por também terem tentado se expressar na língua vernácula que os seus colegas humanistas tanto desprezavam. (O que teria sido uma Divina Comedia ou um Decameron escritos em latim clássico? Literalmente, é até difícil de separar essas obras em si da decisão de escreve-las no vernáculo.) Apesar disso, o humanismo italiano era profundamente patriótico e nacionalista, a diferença é que consideravam o latim a verdadeira língua de seus país, e se consideravam herdeiros e continuadores da Roma clássica. Ou seja, de modo bem real e concreto, apesar de humanismo ser uma palavra tão em voga, sempre positivamente, e tudo de medieval visto sempre de forma tão negativa, o processo que funda, forma, desenvolve, canoniza as línguas que falamos hoje foi profundamente anti-humanista: se Petrarca, e outros humanistas, pudessem criar um mundo novo ao seu bel-prazer, de acordo com seus critérios e prioridades humanistas, estaríamos todas falando e escrevendo latim (e também grego) clássicos.

(Auerbach, “A literatura italiana”, Introdução aos estudos literários, 202-17.)

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Literatura medieval espanhola

Começa se distinguindo por um caráter ao mesmo tempo orgulhoso e realista. Uma atmosfera peculiar, mais altiva, mais doce, e também mais próxima da realidade. Cid aparece com todos os traços de um personagem real: denodado, astucioso, orgulhoso e popular, rigoroso em suas medidas e inspirado por um forte sentimento de justiça e lealdade, inclinado a ironia. Não se vê uma atmosfera de lenda heróica, como nas canções de gesta, mas numa situação histórica e política bem definida.

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A virada para o Renascimento

Por volta de 1300, já fica perceptível uma crise entre as tradições literárias cavalheirescas e eclesiásticas, e um novo tipo de existência que começa a surgir, mais urbana, mais individual, mais burguesa. O pai de Boccaccio, por exemplo, morava numa grande cidade, Florença, e era executivo de um grande banco: nosso autor é criado parcialmente em Nápoles, outra grande cidade, essa ainda mais cosmopolita, porque o pai estava transferido lá, fazendo negócios com a corte napolitana em prol de seu banco. Qual era a forma literária que refletia sua vida, seus valores, sua subjetividade?

As obras literárias dos séculos XII e XIII refletem uma sociedade orientada para dois sentidos: o religioso e o militar, com sermões e autos, gestas de cavalaria e literatura cortesã. Os dois séculos seguintes, entretanto, são marcados pela ascensão de uma nova visão de vida: a burguesia urbana, mais mercantil, mais capitalista. Se antes os ideais literários eram o Heroi, o Amante, o Santo, agora passam a ser o Homem Prático. O Decameron, Os contos da Cantuária, O livro do Bom Amor, todos celebram essa nova figura. (Sigismundo Spina, “O estilo”, em A cultura literária medieval.)

Um dos grandes méritos, e um dos maiores espantos do Poema do Meu Cid, enquanto obra literária, é simbolizar perfeitamente o momento histórico único onde todas essas forças estavam em tensão: o protagonista, Cid, é Santo (está praticamente em uma cruzada cristã contra os mouros); é Amante (se comporta de forma perfeitamente cortesã com sua esposa); naturalmente é Herói (pois vence diversas batalhas, sempre fiel ao seu rei); mas, talvez mais espantoso, é um dos homens mais práticos, comedidos, cabeça-fria, racionais de toda literatura medieval. Nunca houve um Amante-Santo-Herói tão eminentemente prático, tão preocupado com dinheiro e empréstimos, juramentos e minúcias da lei. No Decameron, escrito cerca de cem anos depois, tudo que é tensão no Poema do Cid já está em larga medida resolvido. Santos e Heróis aparecem apenas para serem satirizados e todos os Amantes já são eminentemente burgueses práticos.

Boccaccio simboliza esse ponto de virada entre a maturidade medieval, em sua valorização do vernáculo, e no seu pressentimento humanista dos valores do Renascimento. (Auerbach, A Novela no Início no Renascimento – Itália e França, 12)

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A invenção da Idade Média

A cristandade feudal (que se vê às vezes como estagnada) possuía uma força e um dinamismo que lhe conduziu além dos oceanos e até os quatro cantos do mundo. As transformações e inovações da Idade Média foram o que permitiu aos europeus se projetarem além de seu espaço físico, levando junto suas línguas, seus costumes, sua religião.

Somos fascinados por crises, e tanto o marco inicial quanto final da Idade Média são grandes crises: a queda do Império Romano, no século V, e a queda de Constantinopla, no XV. Hoje, historiadores alertam que essas crises não foram tão traumáticas assim, mas nossa periodização hoje ainda é refém das impressões dos historiadores do XIX e do XX.

É a partir do XVII q expressão “Idade Média” começa a ser usada de maneira corrente por historiadores. Para Voltaire e outros iluministas, o poder da igreja teria impedido o florescimento das artes no período medieval. Edward Gibbon, quando coloca a queda do império romano na conta dos cristãos, não está defendendo uma tese nova, mas apenas uma pequena diferença: sua percepção de que o declínio pertence a esfera das escolhas humanas e não da providencia divina. (Mais sobre isso nas minhas notas de leitura ao Declínio e Queda do Império Romano.)

Em reação às criticas iluministas, surge já no final do XVIII uma tentativa de recuperar e valorizar a Idade Média como a depositária das raízes nacionais do ocidente, de todo o repertorio de tradições orais e escritas que dariam origem às nações europeias modernas. Na virada para o XIX, os românticos também veem o medieval com simpatia, mas esbarram em sua desconfiança em relação ao cristianismo. Era parte integrante do romantismo alemão (que dá origem a todos os romantismos) a ideia de que os germânicos tinham sido corrompidos pelos romanos, pelos cristãos ou por ambos. Ainda no XIX, Marx definitivamente associa a idade média com a ascensão e queda do que ele chama de Feudalismo — um termo que estudiosos da área não usam mais — um sistema resultante do esfacelamento do sistema escravista e da exploração dos camponeses. Em 1831, quando Victor Hugo escreve Notre-Dame de Paris (título original de O corcunda de Notre-Dame), romance passado na Paris do século XV, um de seus objetivos era chamar atenção para as qualidades e valores da Idade Média, e que isso servisse para ajudar na manutenção e recuperação da catedral: a idade media era vista com tanto preconceito que edifícios associados com ela não se valorizavam ou restauravam.

Somente com o final da Segunda Guerra Mundial, com a necessidade de o continente se unir e se reconstruir, se começou uma revaloração da Idade Média como um período que tinha as chaves da criação e, quem sabe, de uma possível reconstrução da Europa.

(Marcelo Cândido da Silva, “Crises e renovações” e “A fabricação da Idade Média”, em História Medieval.)

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Referências:

Erich Auerbach, Introdução aos estudos literários; Erich Auerbach, A Novela no Início no Renascimento – Itália e França; Marcelo Cândido da Silva, História Medieval; Sigismundo Spina, A cultura literária medieval.

O texto acima não é uma criação original, mas uma paráfrase dos textos de referência, escrita para servir de roteiro para a aula de Idade Média do curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura.

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a quinta aula, Idade Média, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Idade Média, suas línguas e literatura: uma brevíssima história é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 19 de outubro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/idade-media-literatura-historia // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: NewsletterInstagramFacebookTwitterGoodreads. // Todos os links de livros levam para a Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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