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Regras de leitura

Regras de leitura só servem pra causar ansiedade e inadequação. A única regra verdadeira é existencial: toda escolha é uma des-escolha.

A maioria das “regras de leitura” só serve para causar ataques de ansiedade e sentimentos de inadequação. A única regra de leitura verdadeira é existencial: toda escolha é uma des-escolha.

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Estou ensinando um curso chamado Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura, onde estamos lendo algumas das grandes obras do cânone ocidental.

(Aliás, acabamos de abrir 40 novas vagas, a um terço do valor, saiba mais aqui.)

Nas conversas com as mais de 270 pessoas alunas, nada me surpreende mais do que a quantidade de “regras de leitura” que as pessoas trazem.

Na verdade, nada contra regras de leitura, tenho cá as minhas. O que me espanta é que a maioria das regras que minhas pessoas alunas trazem só servem para lhes causar ataques de ansiedade e sentimentos de inadequação, além de sugar completamente o prazer da leitura: tem que ler até o final todo livro que começa, não pode ler mais de um livro de uma vez, não pode pular nenhum trecho, etc etc.

Grande parte do meu trabalho como professor de literatura está em absolver minhas alunas dessas obrigações que adquiriram sabe-se lá como. Se quiserem, naturalmente, elas podem ler assim. Mas não precisam.

A “regra” mais poderosa de todas é que podemos ler como bem entendermos. Não tem ninguém vigiando. Não tem teste depois. Somos só nós e nossas leituras.

Antes de eu falar as minhas regras de leitura, vamos definir o que é uma “regra”.

Qualquer coisa que eu faço naturalmente, por prazer, por vontade própria, não é nem pode ser uma “regra”. “Regras” são aquelas obrigações que eu me auto-imponho porque

  • Sei que naturalmente não as seguiria;
  • Acho que é bom segui-las.

Por exemplo, algo que sempre fiz, e por isso não é uma regra, é que sempre leio tudo no livro antes de chegar no texto em si: orelha, introdução, prefácio, postfácio, apêndices, até os agradecimentos.

Abaixo, minhas “regras de leitura”, sempre deixando claro que são regras pessoais, ou seja, que instituí somente para mim mesmo:

Nunca leio tradução se consigo ler original

Não existe substituto a estar ali, sozinha no quarto, eu e a autora, às vezes morta há milênios, mas ainda ali, falando comigo, sussurrando em meu ouvido, em sua própria língua, em suas próprias palavras. Se posso ter acesso a isso diretamente, por que eu enfiaria um tradutor entre nós duas?

Além desse texto sobre a importância de uma boa tradução, esses dois textos sobre como escolher a melhor tradução da Ilíada ou da Bíblia também falam bastante sobre essa questão.

Sempre leio pelo menos dois livros sobre cada assunto

Ler apenas um livro dá uma falsa sensação de conhecimento. Chega a ser intoxicante e tentador pensar que “agora sim entendo X!” Ler um segundo livro sobre o mesmo assunto quebra esse efeito.

Leio mais de um livro sobre o mesmo assunto não para saber mais sobre o assunto, mas para me dar conta da minha enorme ignorância sobre o assunto.

Desenvolvo mais essa regra aqui: Ler mais para saber menos, ler menos para saber mais

Não leio textos com os quais sei que vou concordar ou discordar

Se os primeiros afagam meu ego ao ver minhas opiniões tão bem desenvolvidas, os segundos me irritam ao ver minhas opiniões atacadas de maneiras tão detestáveis. Mas ambos, por isso mesmo, me acrescentam muito pouco e, pelo contrário, só me tornam mais arrogante e complacente, confirmando e solidificando as ideias e preconceitos que eu já tinha. Ou seja, tanto um quanto o outro são puro autocentramento.

Desenvolvo mais essa regra aqui: Os textos que não leio

Velocidade de leitura

Às vezes, me perguntam como faço para “ler tanto” — um dos mitos de nossa época é que “ler muito” é algo necessariamente bom e desejável — e especulam que eu devo ler muito rápido.

Eu não faço leitura dinâmica, nem leio tão rápido assim. Como leio basicamente por prazer, minha velocidade é aquela na qual consigo ler aquela obra com prazer, com calma, entendendo tudo. São elas:

  • Harry Potter (livros leves de entretenimento): 100pp/h
  • Derrida (textos densos e difíceis): 20pp/h
  • Velocidade de cruzeiro (todo o resto): 60pp/h

Escolher ler

Leio muito não porque leio rápido mas porque deixo de fazer muitas outras coisas para ler.

O tempo é limitado, as prioridades são conflitantes e toda escolha é uma des-escolha. Ler um livro é não ler todos os outros livros do mundo. As horas que passo lendo um livro são horas em que não estou jogando games, pegando frilas, brincando com filho, lavando louça.

As decisões mais importantes que tomamos em nossas vidas não são aquelas grandiloquentes que levantamos o indicador para proclamar (“a partir de hoje, nunca mais…!”), mas simplesmente as decisões cotidianas sobre o que vamos fazer ou deixar de fazer em nosso dia-a-dia.

Qualquer obra literária só foi escrita porque sua pessoa autora deixou de fazer diversas outras coisas prazerosas e importantes para que pudéssemos ter, aqui, hoje, esse livro. Dom Casmurro é a soma de todas as fodas perdidas que o Machado de Assis não deu e, hoje, nunca mais poderá dar. (Em Um teto só seu, Virginia Woolf aponta como essas escolhas sempre são mais difíceis para as mulheres.)

Por isso, sinto uma gratidão enorme, cósmica, por todo grande livro, porque sei o custo de escrever e sei o quão fácil teria sido para aquele livro não ser escrito.

Milton, idoso e completamente cego, compunha Paraíso Perdido em sua cabeça, de memória, durante as horas silenciosas da madrugada, em geral somente doze versos por noite, e os ditava para suas filhas quando o sol nascia. Assim, mal e mal, ele (com a ajuda essencial das filhas!) produziu um dos maiores monumentos literários de todos os tempos.

Como não ser imensamento grato?

Desenvolvo esse último tema aqui: As fodas perdidas de Machado de Assis

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Regras de leitura é um texto no site do Alex Castro, publicado originalmente no dia 23 de outubro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/regras-de-leitura // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: NewsletterInstagramFacebookTwitterGoodreads. // Todos os links de livros levam para a Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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