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6ª aula: Navegações grande conversa

Grandes Navegações: brevíssima história

O Ocidente se expande: os europeus e as novas Europa fora da Europa. (Guia de leituras para a aula Navegações do curso Introdução à Grande Conversa.)

Impedidos de comerciar com o Oriente pelo Mediterrâneo e buscando novos caminhos pelo Atlântico, os europeus começam o caminho que os levará a fundar “novas Europa fora da Europa”, ou seja, a ampliar de maneira global o conceito de Ocidente.

Ao longo do século XV e até o começo do XVI, a principal, maior e mais longínqua viagem que europeus faziam era para a Terra Santa, num roteiro razoavelmente padronizado (comprovável em dezenas de livros de viagem) que incluía saída de Veneza, ilhas gregas, desembarque em Jaffa, Jerusalém, Mar Morto, deserto do Sinai, Cairo, Alexandria e de volta para Veneza. Nesses lugares, os europeus podiam comprar um ou outro objeto de reinos distantes e quase míticos, mas muita pouca informação confiável. Em 1517, porém, a tolerante dinastia mameluca que dominava o Egito e a Palestina foi derrubada pelos beligerantes turcos otomanos. Cinco anos depois, também conquistaram a ilha de Rodes, por muito tempo o mais avançado baluarte da cristandade. Daí em diante, essa região estará fechada para cristãos. Os turcos ameaçarão o Ocidente até serem contidos na batalha naval de Lepanto, em 1570, uma das mais decisivas da história.

Antes disso, porém, os portugueses já tinham saído na frente. Depois de reconquistar seu país palmo a palmo dos muçulmanos (Santarém em 1140, Lisboa em 1147, Algarve em 1249, etc), a primeira expedição portuguesa ao além-mar acontece em 1415, para Ceuta — considerado o marco inicial das grandes navegações lusitanas.

Ceuta, do outro lado de Gibraltar, é um ponto chave: foi dali, em 711, que os mouros partiram do Norte da África para conquistar a Península Ibérica, que manteriam por 800 anos, e foi a conquista de Ceuta, em 1415, a primeira aventura ultramarina portuguesa, o primeiro passo na cadeia de acontecimentos que levaria às Grandes Navegações. (Camões foi um de tantos soldados portugueses que serviu em Ceuta.)

A cidade é até hoje um enclave europeu no Norte da África, apenas não pertence mais à Portugal e sim à Espanha, uma de tantas posses portuguesas perdidas para a Espanha durante a União Ibérica (1580-1640). Aliás, assim como Ceuta é um enclave espanhol na África, Gibraltar é um enclave britânico na Espanha, o mais forte sempre submetendo o mais fraco.

O príncipe Henrique, então com vinte e um anos, tomou parte na batalha e voltou profundamente influenciado por tudo que viu, por seu primeiro contato com os mouros, por sua primeira experiência militar, por sua primeira visita a outra continente, e por tudo que ouviu falar, pela costa da África que se estendia para o sul, para muitos reinos desconhecidos, para as Índias remotas. Henrique percebeu que precisava flanquear a protuberância ocidental da África para chegar na rica Guiné; que precisava flanquear a Guiné para chegar na ponta da África; que precisava flanquear a própria África para chegar na Índia.

Antes de Henrique, não havia a noção de “descobertas” como um empreendimento organizado. Havia somente viagens esporádicas, mal-documentadas, misturadas com muitas lendas, sem prosseguimento, sem execução metódica. Por isso também não havia um real conhecimento geográfico do mundo, somente mapas isolados, bons aqui e ruins ali. Sob o comando do Príncipe Henrique, Portugal foi o primeiro país a ter uma política científica sistemática, um projeto organizado e direcionado de exploração geográfica. Ele fez da descoberta uma arte, uma ciência, um objetivo nacional.

Os portugueses desenvolveram novas maneiras de mapear e novas maneiras de velejar — com destaque especial para as caravelas, os primeiros barcos que, graças a um novo tipo de velame, podiam velejar contra o vento, ou seja, não dependiam mais da direção do vento para se locomover. E, assim, pouco a pouco, anos após ano, Henrique (apelidado O Navegador) mandou seus homens e seus navios navegarem pela costa da África em direção ao sul.

Em 1434, Gil Eanes ultrapassa o Cabo Bojador, na costa do atual Saara Ocidental. Mal parece perceptível no mapa, mas era uma terrível barreira psicológica: também conhecido como “cabo do Medo”, acreditava-se que a partir dali começava a zona tórrida, onde a vida humana não era possível, onde habitavam monstros sem fim. Além disso, graças ao assoreamento da areia do Saara, era uma zona traiçoeira, rasa, de recifes pontiagudos. (A 25km da costa do cabo, a profundidade é de apenas dois metros.) De certo modo, vencer o Cabo Bojador talvez tenha sido o momento mais importante, o maior obstáculo vencido, o que proporcionou a vitória contra todos os outros, o que mais abriu os horizontes dos portugueses e dos europeus.

As viagens continuaram. No ano seguinte,os portugueses foram os primeiros europeus (desde os fenícios) a cruzarem o Trópico de Câncer. Em 1436, Eanes ultrapassou novamente o Bojador e navegou mais 600km até o Cabo Branco, na atual Mauritânia. Os portugueses tinham assim finalmente ultrapassado os reinos muçulmanos da África e começaram a chegar na África que lhes era realmente desconhecida e imprevisível. Mais uma vez, parecem pequenos detalhes, mas são esses primeiros passos iniciais que permitem todos os passos posteriores.

Em 1441, Antão Gonçalves e Nuno Tristão chegam até o Rio do Ouro, na atual Guiné, onde capturam e trazem para a Europa as primeiras pessoas escravizadas negras, dando início ao triste tráfico atlântico, talvez a pior de todas as invenções portuguesas.

A viagem de Vasco da Gama, quando ele finalmente consegue chegar até a Índia, entre 1497 e 1498, é considerada um sucesso absoluto, mas vale lembrar: de quatro navios, só voltaram dois, tripulados por cerca de um terço de sobreviventes dos 150 originais. O custo humano dessas viagens era altíssimo.

Por fim, a viagem da frota de Cabral, a segunda enviada para as Índias, é a primeira viagem a unir os quatro continentes: Europa, América, África, Ásia. Estava aberto o mundo.

O efeito mais importante e mais duradouro das grandes navegações que abrem o Renascimento é justamente a unificação da terra. A conseqüência disso é que acontecimentos europeus deixaram de ser somente europeus e suas conseqüências, para bem e para mal, passaram a afetar o mundo: o Ocidente se espalhou e, por exemplo, entre tantos, as guerras européias passaram a ser guerras mundiais.

(Paulo Miceli, “A unificação da terra”, em História Moderna; Bois Penrose, Travel and Discovery in the Renaissance, 1420-1620.)

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Esse texto (que não é uma criação original, mas uma paráfrase dos textos de referência) faz parte dos guias de leitura para a quinta aula, Grandes Navegações, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Grandes Navegações: brevíssima história é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 11 de novembro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/grandes-navegacoes-brevissima-historia // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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