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A literatura contemporânea é fraca

Do nosso ponto de vista, a qualidade média das obras contemporâneas que lemos (onde as ruins estão misturadas com as ótimas) é sempre mais baixa do que das obras do passado, onde nossa tendência é ler somente aquelas que foram selecionadas pelo processo de canonização literária.

Não por defeito dela. A literatura contemporânea é fraca por definição.

Porque o presente é um grande furdunço de obras ruins e regulares, ótimas e necessárias, todas misturadas e tudo junto, sem ordem e sem critério.

Já o passado nos parece muito mais organizado: ele já foi resumido e explicado, organizado e sistematizado, pelos livros de história literária, as obras ruins e as regulares já foram convenientemente esquecidas, as ótimas e as necessárias já caíram na Fuvest ou no Enem, já viraram filme ou novela, nome de rua ou de prêmio.

Então, é natural e inevitável que, do nosso ponto de vista, a qualidade média das obras contemporâneas que lemos (onde as ruins estão misturadas com as ótimas) seja sempre mais baixa do que das obras do passado, onde nossa tendência é ler somente as ótimas e as necessárias, ou seja, aquelas que foram selecionadas pelas críticas e pelas leitoras, enfim, pelo processo de canonização literária.

Por isso, a literatura contemporânea sempre é (ou, nos parece, o que dá no mesmo, pois nossa percepção molda a arte) inferior à do passado.

* * *

Uma nota pessoal

Também por tudo isso, para mim é especificamente muito difícil ler literatura contemporânea.

A minha fila de leituras (ou seja, só a lista dos livros que efetivamente já tenho e pretendo ler) tende cada vez mais ao infinito.

Por exemplo, só aqui, na minha mesa de cabeceira, hoje, agora, na fila de leitura imediata, tenho (para ficarmos apenas na ficção): The faerie queene (1590), de Spenser, Gargantua e Pantagruel (1564), de Rabelais, Às avessas (1884), de Huysmans, Jerusalém libertada (1581), de Tasso, Paraíso Perdido (1667), de Milton, Os Lusíadas (1572), de Camões, a Ilíada, traduzida por Pope (1720), a Eneida, traduzida por Dryden (1697), a obra completa de Guimarães Rosa e de Shakespeare.

As obras completas contém um ou outro trabalho medíocre e o Às avessas, apesar de ter sido revolucionário na época, com certeza não é uma “grande obra artística imortal para todos os tempos”, blá blá blá, mas todas as outras literalmente são.

Por outro lado, tenho vários romances contemporâneos que também estão na minha fila de leitura (nenhum dentro do quarto, aliás, todos ainda nas estantes): Atonement (2001), de McEwan, El sueño del celta (2010), de Vargas Llosa, Adèle (2014), de Slimani, The hunger angel (2009), de Müller, The funeral party (1998), de Ulitskaya, The first bad man (2015), de July, O evangelho segundo Hitler (2013), de Peres, Flights (2007), de Tokarczuk, Greed (2000), de Jelinek, Sonata em Auschwitz (2017), de Valente, Herejes (2013), de Padura, Reservoir 13 (2017), de McGregor.

Todos livros que comprei, que quero muito ler, que acho que serão excelentes.

Mas a palavra-chave é acho.

Os livros da fila de leitura contemporânea eu acho que serão excelentes. Os da clássica, eu já sei que estão entre as maiores obras da literatura mundial de todos os tempos.

(Na verdade, a maior vantagem da fila contemporânea é política: das doze pessoas autoras, sete são mulheres. Na clássica, nenhuma.)

Sou budista. Vivo no presente. Meu tempo de vida é bastante limitado. Quando morrer, tenho consciência que deixarei grande parte de livros não-lidos em minha estante. Então, antes de começar cada leitura eu me pergunto: “Se morrer amanhã, qual livro gostaria de ter lido hoje?”

O resultado é que a fila contemporânea simplesmente não anda: acabo sempre escolhendo um livro que sei que é uma obra-prima em detrimento de um que pode ser uma obra-prima.

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A literatura contemporânea é fraca é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 21 de maio de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/a-literatura-contemporanea-e-fraca // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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