zen

alguns pensamentos esparsos sobre a prática zen.

Aqui existe o vazio

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viver sem esperança

um belo texto de charlotte joko beck. um trecho:

Uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. Enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. Esperamos ter sucesso. Esperamos ter saúde. Esperamos alcançar a iluminação. Há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. A pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. Não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente.

leiam o texto inteiro: sem esperança.

simplicidade voluntária

no programa capital natural, da bandnews, falando sobre simplicidade voluntária.

zazen

assim que assumo a posição de meia-lótus, cruzo as pernas e pouso as mãos em frente ao umbigo, é nessa hora que meu nariz coça.

primeiro, vem a negação, imediatamente seguida pela revolta. caralho, não acredito que meu nariz escolheu coçar justo agora. putaqueopariu.

quanto mais tento esvaziar a mente, mais a coceira aumenta. em breve, a coceira está do tamanho do mundo. a coceira é maior do que eu, do que a vida, do que kafka, do que o sol, do que a vacuidade, dp que a morte.

a coceira é o universo. ali. na ponta do meu nariz.

mas não posso me mexer.

aí, vem a barganha.

que besteira!, penso. ninguém vai me ver. estão todos sentados, voltados pra parede, concentrados na prática. e, afinal, o que tem de mais coçar o nariz? o nariz não está coçando mesmo? não sou livre? não estou no templo praticando zen por vontade própria? não posso me levantar e ir embora a qualquer momento? por que não poderia coçar o nariz?

mas não. vai fazer barulho. o cotovelo vai estalar. o tecido da minha roupa vai farfalhar. naquele silêncio absoluto, esses sons seriam quase ensurdecedores.

então, a coceira some.

como tudo no universo, como nossas vidas, como as árvores, como o próprio sol, a coceira também passa.

porque se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam.

uma caneca

de repente, minha caneca térmica de tomar café começou a sumir. fui procurar e descobri que um dos colegas de casa, o nate, estava usando.

me irrita bastante não ter acesso a minha caneca. afinal, não foi pra isso que eu a comprei? para beber café?

toda vez que procuro minha caneca e não encontro, fico puto. fico puto de verdade. ensaio diálogos mentais de marchar quarto adentro do nate e dizer coisas como:

olha só, vamos fazer um trato? sim, todo mundo pode usar tudo de todo mundo, mas vamos combinar que cada um tenta usar prioritariamente as suas coisas e, se não estiverem disponíveis, as dos outros, ok?

talvez muitas pessoas concordassem com essa minha irritação.

pena que ela está errada. é babaca, pequena, mesquinha, egoísta.

o colega de casa não sabe que a caneca é minha, que me irrito que ele a use, que só bebo café nela: ele sabe apenas que não foi ele que comprou mas que ela está no armário junto com outras dez canecas que ele também não comprou. como ela só some de vez em quando, ele não a usa sempre: deve simplesmente pegar a primeira que aparece e pronto.

não, não uso nada dele. teoricamente, os objetos de cozinha são de uso comum (facas, panelas, potes, canecas, etc), mas eu já tenho as minhas próprias coisas, não preciso usar as de ninguém.

o nate é uma pessoa ótima, linda, aberta, carinhosa, generosa. um cara realmente desapegado. trabalhava em uma financeira, num emprego pacato e seguro, largou tudo pra fazer escola de culinária, e depois, veio pra nova orleans trabalhar no melhor restaurante da cidade, trazendo apenas a bagagem que cabia no seu carro. ele usa minha caneca porque nem tem a dele.

imagino que não haveria nenhum problema em falar sobre isso. tenho certeza absoluta de que ele não teria nenhuma reclamação. ele é norte-americano, respeita a propriedade privada!

olha, sabe como é, eu gosto dessa caneca, só tomo café nela, de vez em quando eu procuro e não encontro, você poderia tentar usar as outras antes de usar essa? na boa?

mas não vou falar nada. porque o problema sou eu.

o problema não é o nate (uma pessoa generosa que outro dia quase deu cinquenta dólares pra uma velha trambiqueira numa cadeira de rodas) abrir o armário e pegar a primeira caneca que vê pela frente. o problema sou eu ter qualquer tipo de apego a um objeto de plástico vagabundo, que custou 6,99 dólares mais impostos, sem qualquer valor intrínseco ou sentimental.

não quero ser a pessoa que regula uma caneca. não quero chegar pro meu colega de casa, com a mão das cadeiras e a voz irritada, e pedir pra ele por favor não usar a minha caneca! eu não quero escrever bilhetinhos “vamos cada um usar nossas próprias canecas?”

eu não quero ser essa pessoa. eu não sou essa pessoa. eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu posso até ser uma pessoa que se incomoda do colega de casa usar sua caneca preferida, mas eu decido não ser a pessoa que reclama com o colega de casa de ele estar usando sua caneca preferida.

poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. a maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio.

mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. é uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

se quero ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta, então, basta ser.

ser quem eu quero ser é o mínimo que devo a mim mesmo. se não sou nem isso, então não sou nada.

a solidão é um egoísmo

narciso.

ninguém reclama “estar sozinho”, sente “vazio existencial”, ou quaisquer outros desses caprichos bem-alimentados, quando está ouvindo, acolhendo, se doando para outra pessoa.

narciso não estava só: ele tinha seu reflexo.

um pouco sobre bashô

cinco haicais

escritos na juventude de bashô, entre 1666 e 1672.

na festa junina
corações desencontram
chuvorgasmo

* * *

botões de flor
pena que primavera não abre
uma bolsa de poemas

* * *

dentro da igreja
fiéis não têm como saber
cerejeiras em flor

* * *

casal de veados
pêlo no pêlo em consenso
pêlo tão duro

* * *

broto de bambu
gerações também escorrem
pelo orvalho

* * *

algumas notas

no original do primeiro haicai, bashô faz referência a um festival de verão, frequentemente interrompido por chuvas, onde havia o equivalente das nossas simpatias românticas de santo antonio nas festas juninas. a última palavra é um neologismo entre chuva e orgasmo.

no original do terceiro haicai, ao invés de “igreja”, bashô cita o nome de um templo budista. esse haicai é geralmente considerado uma crítica ao egocentrismo das pessoas religiosas que “rezam” muito mas não enxergam o mundo a sua volta.

em suas cartas, bashô revelou desejos homoeróticos que não se sabe se realizou. o quarto haicai é geralmente lido sob essa luz. é interessante a repetição da palavra “pêlo” três vezes. o animal “veado” tem uma conotação homossexual em nossa cultura, mas não, que eu saiba, na japonesa.

* * *

bashô é um dos grandes nomes da literatura mundial e mestre reconhecido em haicai. as versões acima, libérrimas, são minhas, baseadas na tradução inglesa muito bem anotada por jane reichhold, publicada pela kodansha.

* * *

basho

a bananeira

em 1680, um estudante deu a bashô uma muda de bananeira para seu jardim, uma árvore muito rara e exótica no japão. sobre ela, o poeta escreveu:

“suas flores, ao contrário de outras, não têm alegria alguma. seu tronco é intocado pelo machado, pois sua madeira não serve para nada. porém, amo essa árvore por sua própria inutilidade. … sento sob suas folhas e aprecio ver o vento e a chuva soprando contra ela.”

pouco depois, o poeta mudou pela última vez de pseudônimo e passou a assinar “bashô”, nome pelo qual está eternizado.

em japonês, “bashô” quer dizer “bananeira”.

* * *

a libélula

um dos alunos de poesia de bashô veio mostrar a ele, empolgado, um haicai sobre arrancar as asas de uma libélula para deixá-la parecida a uma pimenta vermelha.

bashô, que não tolerava crueldade nem no faz-de-conta, sugeriu trocar a ordem dos fatores: acrescentar asas a uma pimenta vermelha para deixá-la parecida a uma libélula.

compromisso público

não sou guru, coach, terapeuta. não escrevo auto-ajuda.

não quero te convencer, não quero que você mude, não te digo o que fazer, não aponto dedos na sua cara, não te acuso, não te peço para concordar comigo.

não sou melhor que você, não levo uma vida melhor que a sua, não vendo meu estilo de vida.

não debato, não respondo provocações, não me irrito.

agradeço a atenção de quem me lê e, para quem acompanha e gosta, se não for fazer falta, peço uma doação correspondente ao valor que adicionei à sua vida:

www.alexcastro.com.br/mecenato

o zen não enriquece ninguém

“where there is carrion lying, meat-eating birds circle and descend. life and death are two. the living attack the dead, to their own profit. the dead lose nothing by it. they gain too, by being disposed of. or they seem to, if you must think in terms of gain and loss. do you then approach the study of zen with the idea that there is something to be gained by it? this question is not intended as an implicit accusation. but it is, nevertheless, a serious question. where there is a lot of fuss about ‘spirituality,’ ‘enlightenment’ or just ‘turning on,’ it is often because there are buzzards hovering around a corpse. this hovering, this circling, this descending, this celebration of victory, are not what is meant by the study of zen — even though they may be a highly useful exercise in other contexts. and they enrich the birds of appetite.

zen enriches no one. there is no body to be found. the birds may come and circle for a while in the place where it is thought to be. but they soon go elsewhere. when they are gone, the ‘nothing,’ the ‘no-body’ that was there, suddenly appears. that is zen. it was there all the time but the scavengers missed it, because it was not their kind of prey.”

primeiras palavras do livro “zen and the birds of appetite”, do monge trapista chamado thomas merton, com comparações muito fecundas entre o zen e as tradições místicas e monásticas do cristianismo.

neodarwinismo

um dia alguém vai ter que me explicar porque é tão importante que a espécie humana não se extingua.

koan

se você tiver arte, vou te dar arte. se você não tiver arte, vou tomar sua arte.

vai-e-volta

às vezes, acho que ninguém me respeita. então, lembro que não respeito ninguém, e acho super justo.

a velha ganância aquisitiva

algumas pessoas morrem de orgulho de ter trocado o discurso do

“faça isso e aquilo para ficar mais rico e ter mais coisas e ser mais bonito e estar mais na moda, etc etc!”

por o novo discurso auto-ajuda-zen-pós-moderno do

“faça isso e aquilo para ser mais feliz e mais minimalista e ser mais autêntico, etc etc!”

mas o foco é sempre uma competição por mais! maIS!! MAIS!!!

a ganância aquisitiva continua a mesma, só muda o objeto.

poesia zen

Alguns poemas que fui encontrando em minhas leituras. A versão para o português é minha, a não ser quando assinalado. Naturalmente, não é uma tradução, pois não falo nem chinês nem japonês. Conheci esses poemas em inglês e espanhol, em diferentes versões, às vezes muito distintas umas das outras, e, do alto da minha ignorância, meu instinto de escritor me levou a ficar futucando, melhorando, brincando, ouvindo seu ritmo interno. Minhas versões, abaixo, com certeza já não tem mais nada a ver com os originais, mas significam muito pra mim. E me ajudam.

* * *

Debaixo dos pés, o céu; por cima da cabeça, o chão.
Não existe nem dentro, nem fora, nem meio.
Uma pessoa sem pernas caminha.
Uma pessoa sem olhos enxerga.
A montanha do norte se mantem em silêncio,
Voltada para a montanha do sul.

Hanshan // China, século IX // verbete na Wikipédia

* * *

Não há necessidade de atacar os erros dos outros
Não há necessidade de ostentar suas próprias virtudes
Aja quando for reconhecido
Retire-se quando for ignorado
Grandes recompensas querem dizer grandes provas
Palavras profundas se encontram com mentes superficiais
Pense no que ouviu
As crianças devem ver por si mesmas

Hanshan // China, século IX // tradução de Marcos Beltrão

* * *

Comemos, cagamos, dormimos, acordamos.
Esse é nosso mundo.
Só o que temos que fazer depois
É morrer.

Ikkyu // Japão, 1394-1491 // verbete na Wikipédia

* * *

A sombra do bambu varre as escadas,
Mas o pó não se levanta.
O luar penetra as profundezas do lago,
Mas não deixa traços na água.

autor desconhecido

* * *

Eles se revoltam, eu fico imóvel.
Desejos me atiçam, eu fico imóvel.
Ensinam os sábios, eu fico imóvel.
Só me movo por conta própria.

Lu Yu // China, 1131-1162 // verbete na Wikipédia

* * *

Budas despedaçados.
Espada sempre afiada.
Onde a roda gira,
O vazio range os dentes.

Shûhõ Myõchõ, mestre Daitõ Kokushi // Japão, 1282-1337 // Segundo a lenda, esse mestre passou seus últimos anos meditando na posição de lótus por ter uma das pernas aleijadas. Sentindo a morte chegar, ele quebrou a perna com as próprias mãos, assumiu a posição de lótus, escreveu as linhas acima e morreu ao desenhar o último pictograma. // fonte: Manual de Zen Budismo, de D.T.Suzuki

* * *

velha lagoa
o sapo salta
o som da água

Bashô // Japão, 1644-1694 // verbete na Wikipédia // tradução de Paulo Leminski

* * *

A cigarra. Ouve.
Nada em seu canto revela
Que está pra morrer.

Bashô // Japão, 1644-1694 // verbete na Wikipédia

* * *

De mãos vazias, seguro a pá.
Ando a pé, montado no touro.
Cruzo a ponte, e ela flui,
Mas a água não.

Bodisatva Fudaishi // também conhecido por Jinie, Fu Ta-shih, Shan-hui // fonte: Introdução ao Zen Budismo, de D.T.Suzuki

* * *

A morte existe,
Mas não há quem morra.

O sofrimento existe,
Mas não há quem sofra.

O feito existe,
Mas não há quem faça.

O nirvana existe,
Mas não há quem busque.

O caminho existe,
Mas não há quem siga.

Visuddhimagga, ou Caminho da Purificação, cap.16 // na Wikipédia

* * *

Se você tiver um cajado,
Eu lhe darei um cajado.
Se você não tiver um cajado,
Eu lhe tomarei seu cajado.

Mumonkan, ou A Porta sem Porta, koan 44 // na Wikipédia // O Mumonkan (não sei qual é ou se existe um nome consagrado em português) já entrou na seleta lista dos três livros mais importantes da minha vida. Os outros dois são A Bíblia e Declínio e Queda do Império Romano. Todos os outros estão muito abaixo.

* * *

Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.

Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está.

Tao Te Ching, capítulo 11 // escrito por Lao Zi // China, século VI AEC // naWikipédia // tradução de Waldéa Barcelos

* * *

Para atingir um determinado objetivo,
você precisa tornar-se um tipo de pessoa.

Uma vez que se torne essa pessoa,
O objetivo não vai mais parecer importante.

Dogen // Japão, 1200-1253 // verbete na Wikipédia

Para aprender a morrer,
observe as cerejeiras,
observe os crisântemos.

Anônimo // Japão, c.1700

* * *

Sem começo,
Sem fim,
A mente nasce,
Para lutas e dores,
e então morre.
O vazio é isso.

* * *

Como o orvalho efêmero,
a aparição súbita,
ou o lampejo fugaz do raio
– mal aparece, já sumiu –
assim somos todos nós.

* * *

A lua é uma casa
onde a mente é mestra.
Observe:
Só a impermanência dura.
Esse mundo também vai passar.

* * *

Ir só.
Vir só.
Tudo ilusão.
Lhe ensinarei
A não ir nem vir.

* * *

Queria oferecer
Algo pra você.
Mas no zen
Não temos.

Ikkyu // Japão, 1394-1491 // verbete na Wikipédia

* * *

Abandone toda fala.
Nossas palavras expressam
mas não seguram.
Letras não deixam rastros,
mas revelam o ensinamento.

Dogen // Japão, 1200-1253 // verbete na Wikipédia

* * *

Na estrada para Tien-tai

Cercado por dez mil montanhas,
Bloqueado, sem ter para onde ir…

Até chegar aqui,
não há como chegar aqui.
Uma vez aqui,
não há para onde ir.

Yuan Mei // China, 1716-1798

* * *

No portão de pedra, há neve, e nenhum traço da jornada.
A neblina do vale dos pinheiros é cheia de fragrâncias.
Pássaros frios caem sobre as migalhas de nossa refeição no pátio.
Um robe rasgado balança nos galhos da árvore. O velho monge está morto.

Wei Ying-Wu // China, 736-830

* * *

Os pássaros sumiram do céu.
Agora a última nuvem se escoa.
Sentamos juntos, a montanha e eu,
Até que resta apenas a montanha.

Li Po // China, 701-762

Aqui existe o vazio

nem todos vão te amar

existem poucas atitudes mais vaidosas do que autorizar sua própria biografia.

são sempre pessoas públicas que já enfrentaram escândalos, ataques e polêmicas. e parecem pensar: ah, fulano me odiava porque não me conhecia; fulana fez campanha pra me destruir porque não entendeu minha mensagem. pois, acreditam, ninguém que realmente as conheça, ninguém que realmente as entenda poderia odiá-las, confrontá-las, atacá-las.

só essa certeza tão vaidosa justifica autorizar uma biografia e entregar todos seus arquivos ao escrutínio de um terceiro.

a vaidade está em acreditar que se o biógrafo ler todas as cartas, consultar todos os documentos, falar com todos os amigos, então, será impossível não amar o biografado.

a vaidade está em não perceber que ninguém está ou esteve ou estará a altura dessa presunção. que ninguém é ou foi ou será amado por todos.

que as pessoas não nos entendem e talvez nos odeiem não porque não nos conhecem direito ou porque não ouviram com cuidado nossa mensagem, e nem mesmo porque são escrotas, cretinas ou mal-intencionadas, mas sim porque são outras pessoas, que fizeram outras escolhas, que tem outras prioridades, que viveram outras vidas.

ao léu

estou na casa de uma amiga faz uma semana e estou há uma semana sem sair de casa.

acordamos, ela sai pra trabalhar, fico escrevendo, ela volta, ficamos juntos, dormimos. no dia seguinte, bis.

quase tudo que gosto realmente de fazer, faço em casa: ler, escrever, cozinhar, transar, fumar, tomar vinho, meditar, ver os amigos, usar a internet.

na prática, só saio de casa pra fazer três coisas: ir ao teatro, remar, levar o oliver no banheiro.

aqui, não tem teatro, não tem onde remar e estou sem o oliver – que ficou na casa de uma amiga.

resultado: sem nem perceber, passei uma semana inteira dentro de casa. completamente feliz.

minha inércia é cósmica.

quando estou fora, minha tendência é ficar fora pra sempre. preciso de muito pouco, tenho excelentes amigos, vou pulando de casa em casa, lavando a louça alheia, dormindo onde caio, trabalhando do meu laptop. então, vou ficando fora… (não visito meu próprio apartamento há mais de um mês.)

quando estou dentro, minha tendência é ficar dentro pra sempre. preciso de muito pouco, tenho tudo em casa, os amigos sempre aparecem pra visitar. então, vou ficando dentro….

percebo que a função do oliver em minha vida é justamente quebrar esse círculo.

quando estou fora, nunca posso ficar fora por muito tempo, porque o oliver está lá dentro sozinho, coitado, tem que sair pra passear, etc.

quando estou dentro, nunca posso ficar dentro por muito tempo, porque o oliver tem que sair pra ir no banheiro, tem que passear, etc.

sem o oliver, sou um ser que se movimenta completamente de acordo com as marés. ao léu.

antizen

amiga: “ah, alex, se você soubesse o quanto sou antizen, nem falaria mais comigo.”

eu: “mas o zen também é antizen.”

de mãos vazias, seguro a pá

De mãos vazias, seguro a pá.
Ando a pé, montado no touro.
Cruzo a ponte e ela flui,
Mas a água não.

tradução livre do poema de Bodisatva Fudaishi, também conhecido como Jinie, Fu Ta-shih, Shan-hui (China, 497–569)

(outras versões: “Observai a pá nas minhas mãos vazias. / Enquanto montado num touro vou andando a pé. / Quando passo sobre a ponte não é a água que corre, e sim a ponte.” // “Empty-handed, I hold a hoe. / Walking on foot, I ride a buffalo. / Passing over a bridge, I see / The bridge flow, but not the water.” // “Empty-handed I go and yet the spade is in my hands; / I walk on foot, and yet on the back of an ox I am riding: / When I pass over the bridge,/ Lo, the water floweth not, but the bridge doth flow.” // “Ando con las manos vacías y con todo la espada está en mis manos; // marcho a pie, y con todo a grupas de un buey voy cabalgando; // cuando paso por sobre el puente, // el agua no fluye, pero el puente si.”)

paradoxo de narciso

quando eu era mais jovem, eu me achava especial. que tinha um destino. que realizaria grandes feitos.

os anos passaram, a vida aconteceu, e me dei conta que eu era apenas mais um bichinho sem alma, nessa pedra girando pelo espaço, sem nada que me distinguisse.

narciso.

entretanto, em nossa época narcisista, cercado de pessoas que se acham a última coca-cola do deserto, cada um protagonista do filme da sua vida, todos brigando por mais amigos no facebook, me dei conta que nada pode ser mais especial do que alguém que sabe sinceramente que é apenas mais um.

* * *

a coisa mais difícil de exercer a arte em público é não deixar os elogios subirem à cabeça. é preciso encarar com naturalidade o fato de as pessoas gostarem da sua arte e, ocasionalmente, terem suas vidas mudadas por ela, sem que isso queira dizer que o artista é mais importante do que o bombeiro hidráulico que lhes possibilita uma boa descarga na privada. elogios são como o meu cachimbo: só fazem mal se você tragar.

se você está em busca da felicidade, já está fazendo errado.