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aula 08: revoluções miseráveis

Os miseráveis, de Victor Hugo

Os Miseráveis, de Victor Hugo: um livro capaz de nos insuflar uma paixão pelo impossível.

A religião, a sociedade, a natureza seriam, segundo Hugo, as três lutas, as três guerras, as três soluções, as três necessidades, as três fatalidades do homem. Para denunciar a religião, escreveu O corcunda de Notre-Dame; a sociedade, Os Miseráveis, e a natureza, Os trabalhadores do mar.

O texto acima é uma paráfrase da nota introdutória a esse último romance. Em outra nota introdutória, dessa vez a Os Miseráveis, Hugo afirma:

“Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século — a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância — não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”

E um outro trechinho de Os Miseráveis:

“Respeitamos o passado aqui e ali e, se ele concordar em permanecer morto, podemos até preservá-lo, mas se insistir em continuar vivo, vamos atacá-lo e matá-lo.”

Diante de notas programáticas tão brilhantes, tão concisas, tão contundentes, como não querer mergulhar na obra desse homem?

Mas, afinal, é um livro de direita ou de esquerda? Não pode ser um livro de esquerda, pois cuidadosamente evita todas as oportunidades de enfatizar a luta de classes, ou mesmo de condenar o empreendedorismo, a indústria, os ricos, a riqueza. Apesar disso, foi um best-seller durante toda a existência da União Soviética, rivalizando somente com Puchkin. O livro parece ter sido criado para ser igualmente irritante para ambos os lados. De que outra maneira poderia construir a conciliação que tanto busca?

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O livro Os Miseráveis

Muito do que consideramos lugar-comum para o lançamento de livros foi de fato inventado por Victor Hugo e sua equipe para Os Miseráveis.

O livro recebeu o maior adiantamento jamais pago por uma obra literária, por um jovem editor belga que não tinha nem um centavo daquele dinheiro, mas que levantou a quantia com investidores capitalistas que sabiam o valor do negócio. Ou seja, foi pioneiro não só em termos de mercado editorial mas também de venture capital.

Foi o primeiro livro promovido através de uma campanha de outdoors.

Foi o primeiro livro lançado com uma estratégia de embargo: os jornais só puderam publicar suas resenhas no dia do lançamento.

Foi o primeiro livro a ser lançado simultaneamente em várias capitais européias, através de uma complicadíssima estrutura que utilizou as ultimas tecnologias, do navio a vapor ao telégrafo. Os primeiros dois volumes esgotaram em dois dias.

Quando saiu o livro, Hugo ainda estava exilado e o governo teria podido impedir a venda. Mas Napoleão III e seus ministros perceberam que estariam comprando uma briga que não podiam ganhar: o público estava louco pelo livro. (Na década de 1960, quando Sartre quebrou a lei ao exortar os soldados franceses a desobedecerem suas ordens na Argélia, ele poderia, e deveria, ter sido preso, mas o presidente Charles de Gaulle afirmou: “Não se prende Voltaire”.) Assim como não se proíbe Os Miseráveis.

As vendas do último volume começariam as 6h30 da manhã de 15 de maio de 1862, e já havia uma fila dando a volta no quarteirão antes do dia nascer. Nada parecido nunca tinha acontecido.

O primeiro filme de ficção, de 1897, de cerca de um minuto, um ator-mímico interpreta, em rápida sucessão, Valjean, Javert, Thenardier, e Marius.

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A palavra “miserável”

A palavra francesa miserável, assim como a portuguesa, vem do latim miserabilis, que vem do verbo misere, que significa “sentir pena, dó, compaixão”. “Miserável”, portanto, seria alguém digno de compaixão.

Mas a palavra é dúbia, pois, dependendo do contexto, pode ter uma conotação positiva ou negativa. Pode ser uma pessoa digna de pena ou compaixão por causa de tudo o que sofreu na vida, mas também pode ser alguém digna de pena por ser tão baixa e tão desprezível.

Assim, um romance chamado Os Miseráveis pode ser sobre pessoas pobres, mas também sobre pessoas que merecem nossa pena por terem sofrido muitas tragédias, ou sobre as pessoas mais pecadoras, ou sobre as pessoas mais desprezíveis, desonestas. Talvez hoje disséssemos as “desprivilegiadas”? Enfim, o livro é tão sobre Valjean quanto Thenardier e Javert.

Javert, por exemplo, não representa só a polícia: ele é o próprio “mal estar da civilização”. Ele simboliza tudo o que temos que reprimir para que a civilização funcione. Todas as leis, todos os costumes, todas as ordens. Se o romantismo era o movimento cultural que, em oposição ao classicismo do XVIII, reivindicava para si a parte maldita, obscura do ser humano, Javert era o oposto de tudo isso. E quando se mata, talvez o gesto mais importante da sua vida, ninguém o compreende. Talvez seja o mais miserável de todos. O que não conseguiu nem mesmo encarar sua própria condição de miserável. A mensagem do romance parece ser: quem recusa a conciliação com o Outro será varrido (ou melhor, lavado) da História.

Já ao descrever os Thenardier, Hugo escreve:

“Pareciam decerto, muito depravados, muito corrompidos e aviltados, mesmo muito odiosos; mas são muito raros os que  caíram sem se enlamear; e depois há um ponto em que os desventurados e os infames se amalgamam e confundem numa só palavra, na palavra fatal  miseráveis; de quem é a culpa?” (III, 8, 5)

A pergunta final nunca é respondida. Hugo provavelmente nem mesmo tinha uma resposta. Mas a resposta que o livro oferece é que eles são tão dignos de compaixão quanto qualquer outra pessoa.

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Um livro antiépico, antiviolência

O capítulo de Waterloo (que é o ponto cronológico mais antigo do romance, mas foi o último a ser escrito) não é uma digressão, pois é fundamental para o livro. Tudo gira em torno de Waterloo.

Quando Wellington volta ao campo de batalha de Waterloo e não reconhece nada, pois tudo mudou, ele está afirmando um dos princípios do romance: tudo muda, tudo está sempre em constante fluxo. A própria batalha, em todo o seu caos, é como se fosse a realização dessa verdade de que tudo é mudança.

Não é coincidência que Jean Valjean é preso em 1796 (ano em que Napoleão vence sua primeira grande batalha, seu primeiro passo em direção a seu destino) e é libertado em 1815, poucos meses depois da derrota final do Imperador.

Não só isso: a prisão de Valjean acontece no mesmo dia, 22 de maio, em que a notícia da vitória de Montenotte chega em Paris. É como se a vitória de Napoleão fosse contaminada, corrompida, por associação, pela prisão injusta de Jean Valjean. Assim como a queda de Valjean simboliza a ascensão de Napoleão, a queda de Napoleão permite, antecipa a ascensão, libertação de Valjean. O final da aventura militar de Napoleão permite o começo da aventura espiritual de Valjean. É um lugar comum que o século XIX somente começa com a derrota de Napoleão: então, é como se Valjean ficasse preso até o século XIX poder começar.

A primeira data é dita só uma vez, mas a segunda é reiterada várias vezes: Jean Valjean inclusive sai de Toulon e chega a Digne pela mesma estrada que Napoleão usou, poucos meses antes. Na Aliás, um dos poucos gestos políticos do Bispo é não saudar a passagem de Napoleão.

A repetição da data serve para nos lembrar de uma tremenda especificidade de Jean Valjean: ao contrário da quase totalidade de seus contemporâneos, ele não está nem morto, nem é herói de guerra, nem é emigrado retornado, nem um traidor, nem mesmo um dos que acompanham os exércitos, como Thenardier. Ele é uma anomalia histórica: um homem limpo, sem rabo preso, sem peso nos ombros, tabula rasa, não tocado pelos gloriosos e tumultuados vinte anos que o país acabara de viver. (E que passara esses anos praticamente no único lugar onde um homem de corpo são estaria a salvo de ser recrutado para, digamos, morrer na Rússia.)

Assim como Paraíso Perdido, Os Miseráveis também parece estar sempre minando, subvertendo a lógica do heroísmo guerreiro: o heroísmo é muitas vezes chamado de “heroísmo monstro” (V.1.22) O heroísmo de Jean Valjean é o heroísmo do pacifista, do objetor de consciência, do homem que luta pela vida, do homem que luta se recusando a lutar. Por isso, ele vai aos subterrâneos, carregando Marius e, finalmente, ascende. Em Os Miseráveis, sempre q aparece uma certa nostalgia pelas virtudes épicas ela é compensada por uma denúncia dos valores militares.

O livro é marcado por uma desconstrução do discurso épico e de seus valores. A atitude do livro, e de Hugo, em relação a Napoleão é sempre ambígua. Por um lado, existe uma certa nostalgia pelos tempos de Napoleão, pelas conquistas, pela esperança, por suas origens revolucionárias. Mas, por outro, qualquer nostalgia por Napoleão não podia ser separada de uma certa glorificação da guerra. E a guerra era carnificina, como o livro não cansa de nos lembrar. Até o episódio das barricadas, apesar de visto com simpatia, enfatiza esse fato: foi um grande massacre que não levou a nada. Toda batalha terminaria em lama, morte, sangue, excremento, putrefação. (Esse tema é repetido e enfatizado em todas as cenas de violência do livro. Quando, por exemplo, Jean Valjean estaria justificado em executar Javert, mas se recusa a fazê-lo. O massacre das barricadas leva, quase que naturalmente, a um mergulho no esgoto, na merda, nas fezes — uma imersão que acaba sendo regenerativa.)

Nesse sentido, a digressão de Waterloo é fundamental, pois seu tom irônico marca uma mudança de perspectiva: no livro, para Hugo, na historia da França. Não é mais o tempo dos guerreiros, mas dos pensadores. Não há mais espaço para o herói tradicional dos épicos. Ainda existe espaço para atos de bravura e de coragem (Valjean realiza vários) mas sempre no contexto de uma causa humana, sempre por compaixão. Em oposição à bravura do campo de batalha, Hugo canta a bravura dos visionários da humanidade.

Marius é apresentado em um capítulo chamado “O avô e o neto”, levantando a pergunta natural: “E o pai?” É como se esse cancelamento da figura paterna refletisse simbolicamente um desejo de apagar, de pular, todo o período de 1789-1815 como um interlúdio criminoso, desnecessário, esquecível — certamente o desejo do avô de Marius, mas, talvez, de certa maneira, também de Hugo.

A tomada de autoridade paterna pelo avô equivale à reação conservadora a partir de 1815. Então, essa ligação problemática com o pai não é apenas uma questão de tradição, de ligação com o passado, mas um compromisso com o progresso da história, em direção ao futuro. É uma ponte, mas que aponta para ambos os lados. Para franceses do século XIX, depois de viver várias revoltas, vários golpes, vários governos, a Revolução Francesa simbolizava o passado (voltar à ela e às suas práticas era literalmente adotar práticas de décadas atrás) mas também o futuro (pois seriam práticas mais liberais, mais progressivas do que as práticas dos governos conservadores atuais). Para Marius, ler os documentos do pai é “desvelar o véu que escondia Napoleão de seus olhos” mas, mais importante, ou igualmente importante, é revelar a importância da Revolução Francesa, cuja mera existência seu avô gostaria de negar.

Por isso é importante nos lembrarmos que Marius é, para todos os efeitos, Victor Hugo: tem mais ou menos a mesma idade, teve uma vida muito parecida. Quando Hugo detalha o processo mental e intelectual através do qual Marius toma consciência da enormidade da Revolução Francesa, ele também está falando de seu próprio processo, de seu próprio afastamento de suas antigas posições realistas e conservadoras.

(Marius, cuja vida é inspirada na de Victor Hugo, nos parece o personagem mais chatinho, mais apagado do romance. Mas, se pensarmos bem, ele na verdade é o único personagem realista: ele hesita, ele tem medo, ele fica indeciso, ele é generoso e egoísta, passivo e resignado, etc. Mas comparado a seres maiores que a vida, e irreais, como Jean Valjean, o bispo, Javert, ele aparece anão. É uma curiosa operação: o personagem mais estritamente realista do livro parece o menos real, em comparação com personagens que não são nem jamais poderiam ser reais. É por isso que falamos que os grandes romances não tentam imitar a vida, mas criar uma outra vida, mais intensa, mais real. Os Miseráveis faz isso: e, por isso, o personagem mais “real” acaba parecendo o mais “irreal”.)

Na época, Os Miseráveis foi especialmente criticado por seu palavreado de baixo calão, em especial pelo “Merda” atribuído ao General Cambronne. Muitas pessoas, na época, a consideravam a palavra mais baixa da língua francesa. Para muitos, foi realmente chocante vê-la impressa em uma obra que se propunha literária. Mas os cadernos de Hugo já revelavam uma relação entre essa palavra e o título do livro: merda seria a mais “miserable” das palavras. Não é por acaso que o autor da frase, Cambronne, seja a única figura humana que saia não chamuscada e vitoriosa da descrição que Hugo faz da Batalha de Waterloo.

O século XIX, na França, é de muitas idas e vindas políticas e democráticas, a maior delas que os dez anos de experimentos democráticos e republicanos da Revolução Francesa são seguidos por décadas de governos conservadores que negam suas conquistas. Os Miseráveis (assim como Guerra e Paz, outro grande romance napoleônico escrito na mesma década) tem uma relação complexa, ambígua e problemática com a própria noção de História. Afinal, ela é linear? Ela anda pra frente? Ela caminha sempre em direção ao progresso? Se isso é verdade, como explicar tantas voltas-atrás, tantas reações conservadoras, tantas restaurações, tantos golpes? De certo modo, a batalha de Waterloo acaba sendo o momento histórico que simboliza esse dilema.

A derrota de Napoleão em Waterloo (1815) marca, objetivamente, uma interrupção na marcha da história rumo ao progresso, ou a onde quer que estivéssemos indo. A primeira conseqüência dessa derrota é uma volta combinada e opressiva às formas políticas do passado. O relógio voltou. É uma vitoria da contra-revolução. É a vitória das monarquias conservadoras européias contra o espírito republicano da revolução francesa.

Mas, para Hugo, a Revolução não podia ser derrotada, porque a marcha da história caminhava sempre em direção a ela, não importa quantas idas e vindas.

Na verdade, Victor Hugo interpretava da seguinte maneira: uma vez espalhadas pela Europa as idéias da Revolução Francesa através das tropas de Napoleão, ele não era mais necessário e podia sair de cena. De certo modo, a derrota de Napoleão seria, para Hugo, uma vitória do plano de Deus para a Europa. Os Miseráveis pede para ser lido como um documento da história divina da humanidade. O texto afirma claramente: o vencedor de Waterloo foi Deus.

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O bispo perfeito

O bispo Bienvenu foi fonte de brigas de Victor Hugo com seu filho, que era contra um retrato tão generoso e positivo como um padre, que eram todos, segundo o filho, inimigos da democracia. E sugeria que o modelo de bondade do começo do livro fosse um médico. Resposta de Victor Hugo:

“Não posso colocar o futuro no passado. A história se passa em 1815. Além disso, esse padre é a sátira mais feroz dos padres verdadeiros. O homem precisa da religião. O homem precisa de Deus. Eu rezo todas as noites.”

O bispo, assim, era o exemplo do que, para Hugo, deveria ser um perfeito homem de Deus. E, nesse romance religioso, apesar de logo sair de cena, ele continua como presença invisível que acompanha Jean Valjean em todo seu caminho de redenção. Como em um pacto inverso de Fausto com Mefistófeles, o bispo compra a alma de Valjean com um presente não-solicitado.

(Aliás, na mesma linha, a longa digressão sobre o convento também sofreu longos ataques da parte do editor do livro. Em sua opinião de homem de esquerda, socialista, humanista, era inconcebível dedicar tanta atenção e tão respeitosa a um grupo de fanáticas encarceradas por vontade própria.)

Dois dos capítulos estrelados pelo bispo, sobre seus encontros com o senador ateu (I, 1, 8) e com o convencionalista (I, 1, 10) foram alguns dos últimos capítulos adicionados por Hugo. É interessante imaginar que, perto de finalizar o livro, ele achou necessário voltar ao começo, já pronto há mais de década, e acrescentar esses dois breves capítulos que, aparentemente, não acrescentam nada ao enredo, à ação. Mas deveriam parecer fundamentais a Hugo, ou não teriam valido esse trabalho.

Por que são tão importantes? Porque são o resumo filosófico de suas teorias políticas, filosóficas e religiosas: materialismo e ateísmo exacerbam a oposição entre ricos e pobres, mas uma religião natural pode conectar até mesmo um homem da Igreja e um radical anticlerical.

O grande movimento do romance é justamente do conflito à harmonia, exemplificado através da vida de Jean Valjean.

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Religião e política em Os Miseráveis

“Este livro é um drama cujo primeiro personagem é o infinito. O segundo é o homem.” (II, 7, 1)

A perspectiva do narrador é de um deus. A partir dessa perspectiva, tudo é importante, nada é supérfluo. Não existe digressão possível. O drama sendo contado é o drama da redenção do homem. (O narrador é onisciente quando lhe convém: quando quer, lembra de tudo; quando não quer, esquece isso, não sabe aquilo. Mas, se num romance contemporâneo, detalhes suprimidos buscam dinamizar a história, em Os Miseráveis servem para nos aproximar do narrador.)

Victor Hugo escreveu um longo prefácio metafísico a Os Miseráveis, que acabou nunca usando. Nele, Hugo afirma q a intenção do romance era fazer com que Deus penetrasse na sociedade humana.

Hugo era anticlerical mas não era ateu. Os Miseráveis é um livro profundamente religioso. Seu grande inimigo, nesse livro, não eram nem mesmo os conservadores, que nem o leriam, mas os socialistas e humanistas ateus, que se preocupavam com a situação social dos “miseráveis”, mas não com sua espiritualidade.

Talvez essa seja a pergunta mais interessante do livro: o quão compatíveis são essas preocupações sociais e coletivas com Os Miseráveis da sociedade como o drama da salvação humana, que é sempre pessoal e único?

Na religião pessoal de Hugo, Deus não é mais a figura autoritária que fala de cima para baixo, mas, pelo contrário, uma força compassiva que emerge dos subterrâneos para nos salvar. É isso que Javert, que serve o Deus castrador autoritário da lei e da ordem, descobre através da compaixão de Jean Valjean: que o miserável podia ser sublime, que um malfeitor podia ser benfeitor, que poderia existir uma ordem moral invertida onde o bandido fosse herói e herói, bandido, que Deus está tanto abaixo quanto acima. Tudo isso é intolerável demais para mente intolerante de Javert e ele se mata.

Para Hugo, orar era algo importantíssimo — “mas tampouco pode haver excesso em orar como em amar” (I, 1, 14) Em seu livro de poesia “Contemplations”, ele dizia que “contemplação leva à ação”. Um dos objetivos da vida e da obra de Hugo era reconciliar a prece e a revolução, ou mostrar como a contemplação religiosa e a atividade poética não eram incompatíveis com o engajamento político. Mas esse engajamento exige separação, distância, abnegação. Assim, o exílio, político ou espiritual, pode acabar tornando-se símbolo dessa união. Em (II, 7, 8), ele diz que exílio é como um protesto e tem incontestavelmente certa majestade. (Hugo está falando do claustro das freiras, um exílio do mundo, mas também talvez estivesse falando sobre si mesmo, e seu exílio nas Ilhas do Canal, onde escreve Os Miseráveis.) Essa associação, aliás, reforça ainda mais o caráter religioso do livro para seu autor. (Na verdade, podemos dizer que o exílio salva Victor Hugo, que, antes dele, estava acomodado e conservador, recipiente de mil honras, e, depois dele, se radicaliza e fica mais produtivo.)

A ligação entre espiritualidade e os subterrâneos da vida, da história,d a fé, é um dos grandes temas de Os Miseráveis. Para Hugo, era um livro eminentemente religioso. Todo o destino da humanidade estaria resumido nessa dicotomia: se perder ou se salvar. No episódio das barricadas, ele descreve o assunto do livro como sendo um movimento inexorável do mal para o bem, da noite para o dia, do nada para Deus. De fato, Os Miseráveis do título são vítimas de um inferno social, aqui na terra, mas para Hugo não existe danação eterna. Valjean simboliza que a redenção sempre é possível, mesmo se através do sofrimento. (Jean Valjean é uma figura claramente cristológica, de uma bondade opressiva, masoquista. Ele agride a si mesmo para fazer o bem o tempo todo. Temos referências ao monte das oliveiras, ao seu calvário, a carregar a cruz.)

O episódio dos subterrâneos, longe de ser o ponto mais baixo da trama, é, na verdade, o momento de purificação, regeneração. Serem enterrados vivos debaixo da terra prefigura a salvação de ambos, os horrores apocalípticos antecipam a redenção, etc. “Jean Valjean caíra de um dos círculos do inferno para outro.” (V, 3, 1) A escuridão dos esgotos subterrâneos é simbólica do insight que Jean Valjean adquiriu depois de toda uma vida de sofrimento. Depois de carregar Marius pelos esgotos profundos do seu Calvário subterrâneo, Valjean descobre que sua alma está iluminada por estranha luz. (V, 3, 6) Toda a lógica interna do romance caminha em direção a essa apoteose.

Existe porém uma ironia paradoxal no final do romance: já não se fala mais nada dos horrores sociais que, em teoria, motivaram e justificam o romance e, pelo contrário, a propriedade privada é confirmada e santificada. (Não só no final, como em várias partes do romance, como na meteórica ascensão empresarial de M. Madeleine.) Como pode ter um final tão apolítico um livro que se diz, ou que ao menos parece ser, tão político?

Mas não foi à toa que Victor Hugo passou por tantas posições políticas. No fundo, ele era um homem da lei e da ordem. Tinha simpatia por rebeldias e revoluções, mas acreditava, pelo contrário, que medidas administrativas voltadas para os mais pobres poderiam servir de antídoto, de vacina para futuras revoluções e rebeliões. (Ele afirma isso em seu discurso de aceitação para a Academia Francesa, em 1841.) Ou, como está em IV, 1, 5:

“Nem despotismo nem terrorismo. Queremos o progresso em ritmo suave.”

Em um mundo onde já se articulavam comunismo e socialismo de maneira bem desenvolvidos (o Manifesto Comunista é de 1848) e poucos anos antes da Comuna de 1870, o Victor Hugo de 1862 parece não conseguir encaixar o conceito de luta de classes em seu livro sobre Os Miseráveis da sociedade.

Os Miseráveis continua, até hoje, um monumento às dificuldades e incongruências de misturar política engajada com religião de salvação, ou, dito de outra maneira, de pensar Os Miseráveis sem uma boa dose de marxismo.

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O que incomodava os críticos

Resta uma pergunta: Como pode o vago reformismo idealista de Os Miseráveis ter parecido tão incendiário e subversivo aos seus contemporâneos? O livro não era nem socialista, nem anarquista, quando muito vagamente social democrata.

A primeira crítica que recebeu foi de inverosimilhança. Entre as principais reclamações, que Jean Valjean não teria sido tratado tão severamente pela justiça (cinco anos por roubar um pão) e que Fantine não teria sido demitida por ser mãe solteira. (Pode bem ser, mas as pessoas bem alimentadas de qualquer época sempre gostam de projetar que o bom tratamento que recebem das instituições é o mesmo recebido por todas as pessoas — o que é flagrantemente falso.)

O romance foi considerado dissolvente, imoral, perigoso à ordem pública. Um crítico afirmou que o romance pretendia dinamitar todas as instituições sociais, com algo mais mortífero que pólvora: lagrimas!

Baudelaire, Flaubert, Dumas, Merimeé, todos odiaram. Um dos principais autores da época, Lamartine, também foi um dos principais críticos do romance. Como conservador, ele considerava o romance capaz de estimular a desordem e a revolta social. Como realista, ficava indignado com as inexatidões do romance em relação à realidade que dizia retratar.

O romance faria uma critica excessiva, radical e muitas vezes injusta da sociedade, o que poderia induzir o ser humano a odiar justo aquilo que o salvava, ou seja, a ordem pública. O romance seria “a epopéia da canalha”, “uma obra-prima da impossibilidade”.

O livro defende um ideal utópico que é ainda mais perigoso por ser indefinido. (Afinal, o que o romance concretamente defende? Impossível saber. Aliás, romances concretamente defendem qualquer coisa?)

Era normal, dizia ele, o autor se atrair pela miséria humana. Esse era um tema comum, desde. Mas por que acusar a sociedade de todas essas misérias?

Sua parte preferida era a descrição dos amores de Cosette e Marius, “quadro delicioso de amores”, e a pior, a cena das barricadas, “uma fantasia heróica de estudantes desocupados, que não tem uma ideia definida, nem meios viáveis, nem um objetivo confesso e confessável”.

O livro seria perigoso para o povo por seu excesso de ideal:

“Se o excesso seduz o ideal, ele o perverte. Apaixona o homem pouco inteligente pelo impossível. A mais terrível e mais homicida das paixões que se pode infundir nas massas é a paixão pelo impossível. Porque tudo é impossível nas aspirações de Os Miseráveis, a começar pelo desaparecimento da miséria.”

Lamartine não sabia, mas prestou o maior elogio de todos a Os Miseráveis: um livro capaz de insuflar em seu público uma paixão pelo impossível.

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Thenardier: o problema sem solução

Apesar de terem se transformado em “alívio cômico” no musical e em muitas obras derivadas, o livro Os Miseráveis leva os Thenardier muito a sério, porque eles complicam e subvertem muitos dos valores nos quais o livro se baseia.

Pra começar, eles são a única família no livro que é minimamente funcional, permanece junta e cuida (mais ou menos) dos seus.

Thenardier, de certa maneira, é tão impressionante, tenaz, insistente, engenhoso quanto Jean Valjean e Javert.

Quando Thenardier finalmente fala livremente, é um dos discursos de ódio mais impressionantes de todo o livro:

“Ladrão! Sim, bem sei que é como nos chamam vocês, os ricos! Vejam lá! É verdade que fali e agora escondo-me, não tenho pão nem dinheiro, sou um ladrão! Sou ladrão e não como há três dias! Os senhores têm os pés quentes, porque possuem chinelos de Sakaski, casacos enchumaçados, como os arcebispos, moram nos primeiros andares de casas com porteiros, comem trufas e espargos a quarenta francos o molho, no mês de Janeiro, e magníficas ervilhas; gabam-se de tudo isto, e quando querem saber se faz frio, vêem no periódico até onde desceu o termômetro do engenheiro Chevalier. Nós! Nós é que somos os termômetros! Nós não precisamos ir ao cais para ver na esquina da torre do Relógio quantos são os graus de frio, sentimos o sangue coalhar-se-nos nas veias, gelar-se-nos o coração,  e dizemos então que não há Deus! E no fim vêm às nossas cavernas para nos chamarem  ladrões! Mas calem-se, que os havemos de comer! Devorá-los-emos, pobres pequenos!” (III, 8, 20)

A impressão que fica é que um ódio nesse nível, tão sincero e tão profunda, não tem cura, não tem redenção. O vago reformismo idealista de Hugo e de Os Miseráveis não tem resposta possível, não tem solução possível para isso.

É o grande problema nunca resolvido de Os Miseráveis.

No final, Thenardier vai para as Américas traficar escravos. Talvez tenha acabado aqui no Brasil. Não seria surpreendente.

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Fontes

The novel of the century, the extraordinary adventure of Les Miserables, de David Bellos, 2017.

A tentação do impossível, Victor Hugo e Os Miseráveis, de Mário Vargas Llosa, 2004.

Victor Hugo and the visionary novel, de Victor Brombert, 1984.

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a oitava aula, Revoluções, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso aconteceu entre julho de 2020 e março de 2021 — quem se inscrever depois dessa data tem acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Os Miseráveis, de Victor Hugo é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 19 de março de 2021, disponível na URL: alexcastro.com.br/os-miseraveis-de-victor-hugo // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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