Os cabelos de um homem | alex castro

Os cabelos de um homem

Você já parou pra pensar na quantidade de tempo e de dinheiro e de trabalho… que gasta com seus cabelos?

* * *

Chego na dermatologista, ela olha o meu cocoruto e diz:

“Acho que já está na hora de começarmos a usar loções anticalvície, não?.”

“Por quê?”, eu pergunto.

“Porque senão você vai virar careca em alguns anos.”

Confesso que realmente não entendo a lógica:

“E isso implica em algum problema de saúde? Tenho trinta e oito anos. Não é natural o cabelo de grande parte da população masculina começar a ficar mais ralo e talvez até cair por volta dessa idade?”

“Hmmm, normal é, mas fica feio, não?”

“Hmmm, não sei. Feio pra quem?”

Deu vontade de perguntar: “você é médica ou esteticista?” Mas perguntei:

“Você não estava agora há pouco me oferecendo seis sessões de depilação laser por seiscentos reais?”

“Ah sim, claro. Mas pra barba! Agora estamos falando do cabelo!”

“Peraí. Você quer que eu gaste dinheiro pra tirar cabelo de onde tem e gaste mais ainda pra colocar onde não tem? É pegadinha?”

* * *

Imagine uma ida à farmácia.

Primeiro, você compra o Avicis (100 ml por R$130) e o Pilexil (125ml por R$135). (Esses foram os dois tônicos capilares que a dermatologista me receitou.)

Depois, uma caixinha de Gillette Fusion com quatro lâminas (R$50), um pincel de barba (R$6), uma espuma pra barbear Nívea (200ml, R$22) e um gel pós-barba da Gillette (75ml, R$16).

Ou seja, você acabou de gastar R$265 para que pelos voltem a crescer na parte da sua cabeça onde eles naturalmente tendem a cair, e então mais R$94 para tirar os pelos da parte da sua cabeça onde eles crescem continuamente. Da mesma cabeça. Dois lugares que estão a vinte centímetros um do outro. R$350! Pense nisso!

É como ficar salgando e adoçando, salgando e adoçando… o mesmo prato. É como ligar o ar condicionado por meia hora, depois o aquecedor por meia hora, depois o ar condicionado de novo… e no final do mês, ainda reclamar da conta de luz gigantesca.

Então, é isso mesmo?

Cabelo quando tem ali é másculo, mas quando tem aqui é mal ajambrado. Quando não tem aqui é sinal de velhice, mas quando não tem ali é sinal de boa higiene pessoal.

E vocês acham mesmo que o mundo é assim, que a beleza é assim, que essa é a opinião de vocês, livre e independente, que não foi ninguém que lhes enfiou esse contrassenso na cabeça?

Faz sentido? Vocês aceitam isso? São felizes assim? Gastando dinheiro e tempo e trabalho pra tirar cabelo de onde tem e colocar onde não tem? Vivendo sua vida ao bel-sabor desses critérios que caíram do céu, que vieram sabe deus de onde?

Não seria mais fácil aprender a gostar do cabelo onde ele cresce e a gostar da falta de cabelo onde ele cai?

(Texto de 2012.)

* * *

Pós-escrito

A imersão As Prisões: Práticas de Atenção é um encontro de três dias, onde encararamos nosso autocentramento e exercitamos nossa atenção.

Não é curso para aprender conteúdo. Não é terapia para curar problemas. Não é coaching para empoderar pessoas.

É uma instalação artística, uma performance polifônica, um espaço interativo.

É uma prática de escutatória, de generosidade, de cuidado, onde realizamos uma série de práticas de atenção e cada pessoa tira delas o que quiser e o que puder.

Tudo pode acontecer, nada nunca é igual. Venham por sua conta e risco.

A próxima acontece na paradisíaca pousada da Fazenda Sítio Velho, bem na divisa RJ-SP, equidistante de ambas as cidades, no fim de semana de 26 a 28 de julho de 2019.

(Não deixe de vir por falta de carro. O transporte a gente arruma.)

Para saber mais e se inscrever:

alexcastro.com.br/encontros/imersao-prisoes

As práticas de atenção estão descritas e desenvolvidas em meu novo livro Atenção.:

alexcastro.com.br/atencao

Atenção., capa em alta resolução. Clique para baixar.

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