O tempo existe?

Temos duas maneiras de falar de localização espacial: uma objetiva (o Leblon, Curitiba, China, Júpiter) e outra subjetiva, que depende da localização da pessoa que está falando (aqui, perto, longe, ao norte, acima, abaixo).

Se uma pessoa diz que Patópolis fica ao norte, isso não nos comunica praticamente nada se não soubermos onde a pessoa está espacialmente ao falar isso.

Igualmente, existem duas maneiras de falar sobre o tempo: a objetiva (3 da tarde de 5 de junho de 1987, 9 da manhã de 30 de dezembro de 34 aC) e a subjetiva (ontem, faz cinco minutos, amanhã, daqui a cinco séculos, um milênio atrás).

Na subjetiva, tudo é contingente: só hoje eu posso falar que “ontem, conheci o Zé” pois amanhã essa frase já se tornará mentira. Igualmente, só posso dizer que “Curitiba está ao sul” enquanto estou no Rio de Janeiro, mas não se estiver em Buenos Aires.

Por outro lado, sempre posso dizer que “Getúlio Vargas se matou depois da Segunda Guerra Mundial” ou que “Buenos Aires fica no do Rio da Prata”.

Nossa tendência é pensar subjetivamente. Nosso aqui e agora é o centro do universo, o nexo focal da História, o ponto de referência para tudo: o que está ao norte de mim e o que está perto de mim, o que aconteceu antes desse momento que estou vivendo agora e qual será o futuro desse momento que estou vivendo agora.

Talvez devéssemos pensar o tempo da mesma maneira que pensamos o espaço, usando a palavra “agora” como usamos a palavra “aqui”: algo que tem significado em relação à pessoa que está falando, mas que não tem significado concreto, real.

Quando começamos a pensar dessa maneira, o “agora” continua sendo tão subjetivo quando o “aqui”, mas “20h de 5 de junho de 2002” ganha um pouco da concretude objetiva de “Curitiba”. Um momento do tempo passa a ser um lugar.

E, se o tempo objetivo torna-se concreto, o tempo subjetivo se revela tão ilusório e contigente quando o espaço subjetivo.

Afinal, o que é o passado, o presente, o futuro? Existe realmente essa distinção ou ela é apenas uma miragem causada por nossas mentes de macacos pelados?

O suicídio de Getúlio hoje é passado. Mas um dia ele foi presente. E, antes disso, por incontáveis milênios, foi futuro.

Faz sentido então falar que o suicídio do Getúlio está no passado? Ele não está igualmente no futuro? E esse momento onde ele é presente também não está igualmente “lá”, tão concreto quanto Curitiba?

Cada “agora” seria um universo completo e autocontido, um quadro onde o tempo não existiria.

A história do universo seria formada por esses quadros, cada um igualmente real, igualmente concreto.

Assim como em um filme, nossa percepção do tempo passando, fluindo, se movendo, seria uma ilusão causada pela “exposição” em sequência desses quadros.

Dessa maneira, cada instante presente seria fundamentalmente eterno. O instante presente não envelhece, não passa, não “está acontecendo”: ele simplesmente é.

Estou eternamente aqui, às 11h48 de 30 de março de 2018, escrevendo esse texto, assim como estou eternamente vendo Seinfeld às 22h20 de 11 de maio de 1996, assim como estou eternamente dando aquela topada com o dedão às 8h39 de 23 de agosto de 2002.

O Alex-de-48-anos é tão real quanto o Alex-de-23 ou o Alex-de-8.

Tudo está acontecendo agora, ao mesmo tempo, para sempre.

Se os eventos passados são tão reais quanto os eventos presentes e futuros, nada realmente termina, nada realmente deixa de existir.

Nesse sentido, uma vida “termina” ou “acaba” assim como o Rio de Janeiro “termina” ou “acaba” quando chegamos na divisa com São Paulo: na prática, o Rio de Janeiro continua lá, no mesmo lugar, não foi a lugar algum.

Portanto, uma pessoa que não está viva agora, mas que já esteve viva no passado ou vai estar viva no futuro, é tão real quanto uma pessoa que não vive AQUI mas que está viva em algum outro lugar.

A morte de uma pessoa não apaga, anula, termina com sua existência: ela apenas delimita um dos extremos da extensão daquela pessoa no tempo, assim como sua pele delimita a extensão do seu corpo no espaço, assim como os rios Chuí e o Oiapoque delimitam os limites do Brasil no espaço.

Nessa perspectiva, as pessoas ditas-mortas estão tão vivas quanto as pessoas que vivem em um país distante com o qual não temos como nos comunicar: elas apenas estão habitando pontos diferentes do contínuo temporal.

Logo, podem ser visitadas.

Daí, viagens no tempo.

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Anotações rascunhadas para um futuro romance de viagens no tempo. Baseadas no livro “In Search of Time”, de Dan Falk, e nas ideias de Michael Lockwood, Julian Barbour e John McTaggart.

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