Não é uma foto, é um espelho

Alemanha nazista, verão de 1939 ou 1940. Um casal apaixonado, nas areias de uma praia, completamente absortos um no outro, concentrados em seu amor, entregues ao seu futuro cheio de possibilidades.

Já eu, que não sou nazista (Deus me livre!), que sou muito melhor do que essas pessoas alemãs alienadas ou cúmplices, estou aqui, vivendo minha vida e trabalhando meu trabalho, tomando vinho e consumindo séries, assinando petições online e compartilhando textos no Facebook, abraçando minha linda namorada nas areias de Ipanema e fazendo planos para o futuro…

… enquanto o Brasil queima; enquanto a juventude negra é massacrada; enquanto mulheres não conseguem andar com segurança no espaço público; enquanto homossexuais são perseguidos e pessoas trans invisibilizadas.

Eu me pergunto:

“De que maneira sou melhor que esse casal?”

Para o moço favelado, morto por portar um guarda-chuva a duas quadras da minha casa, de que maneira eu sou melhor, mais útil, mais benéfico, do que esse casal para seus vizinhos judeus enviados para Auschwitz?

Na ponta da minha língua, tenho dezenas de justificativas perfeitamente razoáveis que me absolvem até o fim dos tempos.

Mas a foto continua me acusando.

Não é uma foto: é um espelho.

* * *

A foto, uma foto oficial de propaganda do governo nazista, está em exposição no Museu Topografia do Terror, em Berlim, no prédio onde funcionou a sede da Gestapo.

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