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Literatura: a forma é o conteúdo

Em literatura, não existe separação entre forma e conteúdo. O meio É a mensagem. (Guia de leitura para o curso Introdução à Grande Conversa)

Em literatura, não existe separação entre forma e conteúdo. A forma não é um meio de nos transmitir o conteúdo. A forma é o conteúdo. O meio é a mensagem.

Por isso, não faz sentido ler versões simplificadas (como adapatações em prosa da Ilíada ou da Divina Comédia) porque elas são como um meio de acesso a uma parte da obra (que é o conteúdo) mas sacrificando outra parte igualmente importante da obra (que é a forma).

Quando uma autora escolhe apresentar seu conteúdo na forma de uma peça de teatro e não de um conto, ou na forma de um poema épico e não um romance, etc, essa decisão já é parte do conteúdo. Não tem como separar essas duas coisas.

(Uma versão simplificada de um texto literário é como chocolate diet sem lactose: é importante que exista — eu, diabético, intolerante à lactose, dou graças a deus todo dia — mas são só para quem precisa delas. Seria cruel recomendar chocolate diet sem lactose para alguém que tem a felicidade de conseguir digerir chocolate normal: a pessoa estará perdendo muito.)

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Dante poderia ter escolhido transmitir o “conteúdo” da Divina Comédia na “forma” de prosa (ele escreveu vários outros textos em prosa), mas o fato de ter escolhido escrever na forma de poesia é parte integrante da experiência que criou para que vivêssemos.

Igualmente, Boccaccio escreveu muita poesia, e poderia ter escolhido transmitir o conteúdo de cada um dos contos do Decameron como poesia, mas o fato de ter escolhido escrever na forma de prosa é parte integrante da experiência que ele criou para que vivêssemos.

(Na verdade, como veremos, o Decameron ser escrito na forma de prosa é a parte mais revolucionária de sua obra: ele praticamente inventa a ficção em prosa como a escrevemos e praticamos até hoje.)

Um texto de não-ficção é como uma janela de vidro transparente: o seu objetivo é nos permitir enxergar da melhor maneira possível a paisagem lá fora. Idealmente, a janela será invisível: nós não a veremos, não a perceberemos, nem pensaremos nela, pois toda a nossa atenção estará no conteúdo sendo transmitido, ou seja, na paisagem. Se a janela for percebida, provavelmente, é porque não fizemos nosso trabalho direito.

(Por isso, limpamos, polimos, esfregamos bem o vidro e o texto, pois sabemos que qualquer impureza, qualquer sujeirinha no vidro, qualquer construção estranha no texto, pode chamar atenção para si, e lembrar o público de que, na verdade, ele não está vendo a coisa em si e sim um vidro e sim um texto.)

Um texto de ficção é um vitral colorido: assim como a janela de vidro transparente, ele também serve para ver a paisagem lá fora, mas não tenta ser invisível. Apesar de (em alguma medida) feito em função do que está do outro lado, quantidade de luz, ângulo do sol, etc, ele chama atenção para si, exige ser visto, não se permite passar desapercebido.

Um texto de não-ficção tem como objetivo transmitir um conteúdo: ele busca ser invisível para não atrapalhar a leitora de chegar nesse conteúdo.

Já um texto de ficção é uma experiência em si só: ele não está tentando transmitir nada, ele está tentando fazer você vivenciar uma experiência. Então, tudo que está nele foi escolhido intencionalmente para participar dessa experiência: o enredo e a forma, as peripécias e a sintaxe, a gramática e o ritmo.

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Se tudo o que queremos é o acesso mais rápido e mais fácil ao conteúdo de uma obra de arte…

Bem, não sejam por isso: o conteúdo de quase todas as obras que vamos ler (que são a base de nossa cultura compartilhada) já está dentro de nós, já é parte integrante de nossas referências, já está por todos os lados, em outras obras, em peças, em filmes, em séries. E, se não estiver, a Wikipédia está aí pra isso.

Por isso, reparem, recomendo sempre as versões mais simples e fluentes (no caso da Ilíada, Lombardo e Lourenço), porque nem todo mundo tem prática literária, mas também recomendo as mais poéticas (Pope e Campos), para quem realmente quiser mergulhar na poesia do texto.

Eu recomendaria que todo mundo tentasse, pelo menos um pouquinho, encarar as versões mais difíceis e se deixar levar. De certo modo, a Biblia e a Ilíada são nossos textos mais café-com-leite, pois neles dispomos de muitas versões fáceis e simplificadas, Bíblia na Linguagem de Hoje, etc.

Mas, na sexta aula, leremos Os Lusíadas e, na sétima, Paraíso Perdido. Ambos os textos não estão disponíveis em versões simplificadas: a gente vai ter que enfiar a cara na poesia e tentar extrair dela sentido e significado. Se for só pelo enredo, aliás, todo o enredo de Paraíso Perdido está nos três primeiros capítulos do Gênese.

Não estamos aqui para “sabermos” o conteúdo, o enredo, a historinha da Ilíada. Estamos aqui para termos, juntas, a experiência de ler a Ilíada.

Um livro de não-ficção tem como objetivo transmitir um conteúdo. Já uma obra de ficção, toda ela, é uma experiência a ser vivida.

Se vocês não querem ter essa experiência, respeito. O curso é livre, para cada pessoa escolher quais livros quer ler e em quais versões.

Esse texto é para vocês saberem do que estão abrindo mão (basicamente, da experiência da literatura enquanto arte) quando escolhem ler uma versão simplificada.

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para o meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Literatura: a forma é o conteúdo é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 17 de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/literatura-forma-e-conteudo // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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