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Israel, Grécia, Roma

O contexto histórico das leituras de nossas três primeiras aulas. (Guia de leitura para o curso Introdução à Grande Conversa)

Um pouco sobre o contexto histórico das leituras de nossas três primeiras aulas.

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Um livro recente especula que, por volta do ano 1177 aEC, uma série de catástrofes em série teria derrubado as maiores civilizações da Idade de Bronze mesopotâmica e mediterrânea, como egípcios, hititas, cananeus, cipriotas, assírios, babilônios, cretenses, micênicos.

Para a segunda aula de nosso curso Introdução à Grande Conversa, nos interessam as duas últimas: com a queda de Cnossos e de Micenas, civilizações sofisticadas com uma escrita que só há pouco foi decifrada, a Grécia entra em uma pequena Era das Trevas, que se convencionou chamar de Período Arcaico. Não havia escrita e várias tecnologias se perderam.

Enquanto a Grécia vivia sua Era das Trevas, reinaram em Israel Saul e Davi e começaram a ser compostas as narrativas do Gênese.

Por volta do século VIII aEC, os habitantes da área que hoje conhecemos como Grécia começam a se reorganizar: com caracteres emprestados dos fenícios, colocam por escrito a língua que falavam. Por volta da mesma época, estima-se que a Ilíada e a Odisséia começavam a circular como poemas orais. Dois séculos depois, na Atenas do tirano Pisístrato, estima-se que tenham sido colocados por escrito pela primeira vez. Tudo conjeturado, claro.

Enquanto as polis se desenvolviam em toda a Grécia, outros impérios iam surgindo e crescendo. Os babilônicos, por exemplo, conquistam a Palestina (Jeremias profetizava em Jerusalém) e exilam os israelitas na Babilonia: é o Exílio Babilônico, onde estima-se que tenham recebido a redação final os livros do Gênese e de Samuel.

Em 490, a Pérsia, maior potência militar da época, invade a Grécia. Heródoto, considerado o pai da História, narra essa guerra. Deveria ter sido fácil: a região era composta por cidades-estado independentes sempre em guerra entre si. Na verdade, historiadores militares especulam que foi justamente a freqüência e ferocidade das guerras entre os gregos, que lhes possibilitou desenvolver as técnicas militares que lhes permitiram resistir.

Em 480, os gregos derrotam decisivamente os persas: começa o Período Clássico. Ésquilo lutou na batalha decisiva e foi só isso que escolheu colocar em seu túmulo. Os próximos 50 anos serão uma pequena Era de Ouro em Atenas: estão em atividade quase todos aqueles gregos que mais associamos com a Grécia Antiga: Heródoto, Tucídides, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Péricles, Sócrates, Platão.

A proeminência de Atenas (e a agressividade de seu imperialismo) acaba gerando conflitos com outras polis, em especial, Esparta, e começa a Guerra do Peloponeso, que dura quase trinta anos e deixa a região exausta e exaurida. Essa é a guerra narrada em Tucídides, a primeira História jamais escrita a não depender de deuses ou deusas, 100% humana. Finalmente, Esparta conquista Atenas, acabando com a democracia ateniense. Mas os espartanos também não tinham força para dominar a Grécia, somente para quebrar o poder de Atenas.

Pouco depois, em 338, Felipe da Macedônia conquista e incorpora a Grécia ao seu império, dando começo ao período chamado de Helênico. Fascinado pela cultura grega, Felipe coloca Aristóteles como tutor de seu filho Alexandre. Quando o filho se torna maior que o pai, um dos maiores conquistadores de todos os tempos, ele espalha a cultura e a influência gregas por uma área muito maior do que as polis independentes jamais poderiam ter feito. Alexandre nunca conquista a Itália, mas conquista a Palestina. Obras bíblicas como o Eclesiastes teriam sido compostas nesse período Helênico.

Enquanto Alexandre conquista o leste do Mediterrâneo, Roma está crescendo, conquistando sua península e, depois, se jogando ao mar. Seu primeiro grande inimigo é Cartago, um império naval e comercial de origem fenícia. Quando os romanos finalmente destroem Cartago, depois de três guerras que envolvem toda a bacia mediterrânea, eles já são o maior poder regional. Pouco a pouco, os romanos vão conquistando todos os reinos helênicos originários das conquistas de Alexandre. Quando Jesus nasce, a Palestina, a Grécia, grande parte das margens do Mediterrâneo é romana.

Assim como os macedônios, os romanos respeitavam a cultura grega acima de tudo, e tomam para si seus deuses e sua literatura. O maior épico romano, a Eneida, é uma sequencia ou spinoff da Ilíada, onde Enéias, guerreiro troiano, abandona Tróia com os ídolos da cidade (que simbolizavam sua essência) e, depois de muitas aventuras, funda um povoado que será a precursora de Roma. A Eneida, portanto, sacramenta e confirma o mito maior dos romanos: ser parte integrante da cultura grega. Ao fazer isso, estão também construindo a Ilíada como o texto fundacional da sua nacionalidade.

Linha do tempo

(todas as datas em aEC)

cerca de 1750 Rei Hamurábi, Babilônia

c.1500-1200 Apogeu das civilizações micênica e cretense

c. 1200 Destruição de Micenas e de Creta. Fim da Era de Bronze (Começa o Período Arcaico na Grécia.)

c.1030-1050 Reinado de Saul em Israel

c.1010-970 Reinado de David em Israel

c.770 Primeira evidência do alfabeto grego. Estima-se que Ilíada e Odisséia começam a circular como poemas orais

c.753 Fundação de Roma

650 Hesíodo escreve a Teogonia

627 Jeremias começa a profetizar em Jerusalém

c.622 Provável redação dos livros do Gênese e de Samuel

c.600 Invenção da moeda

594 Reformas de Sólon em Atenas

586 Nabucodonosor, Rei da Babilônia, toma Jerusalém. Jeremias exilado para Egito. (Começa Exílio Babilônico)

561-528 Tirania de Pisístrato, em Atenas. Provável data do primeiro texto escrito da Ilíada e da Odisséia

538 Começa o retorno dos judeus do Exílio Babilônico

525 Nasce Ésquilo

510 Fim da tirania em Atenas

509 Último Rei Romano derrubado. (Começa a República Romana.)

499 Nasce Sófocles

480 Gregos derrotam invasão persa; nasce Eurípides (Começa o Período Clássico na Grécia)

470 Nasce Sócrates

458 Orestéia encenada

c.450 Provável redação do Livro de Jó

442 Antígona encenada

431 Começa a Guerra do Peloponeso

427 Nasce Platão

404 Queda de Atenas, final da Guerra do Peloponeso

399 Morre Sócrates

387 Platão funda a Academia

360 Felipe sobe ao trono da Macedônia

347 Morre Platão

342 Aristóteles, tutor de Alexandre

338 Felipe conquista Grécia (Começa o Período Helenístico na Grécia)

334 Alexandre sobe ao trono da Macedônia

326 Construção do Circo Máximo, em Roma

323 Morrem Alexandre e Aristóteles

306 Epicuro abre sua escola

275 Roma conquista toda a península itálica

264 Primeira guerra entre Roma e Cartago

c.250 Provável redação do Eclesiastes

218 Aníbal, de Cartago, atravessa os Alpes de elefante e invade a Itália

202 Aníbal derrotado

200 Primeira guerra entre Roma e Macedônia

148 Macedônia se torna província romana

146 Roma arrasa Cartago

139 Primeiro herói português, Viriato, é morto à traição pelos romanos. Lusitânia se torna província romana.

73 Revolta de escravos liderada por Espártaco

63 Palestina se torna província romana

44 Júlio César assassinado

27 Augusto coroado. (Começa o Império Romano.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a primeira, segunda e terceira aulas do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Israel, Grécia, Roma é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 17 de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/israel-grecia-roma // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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