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6ª aula: Navegações grande conversa

A descoberta da Humanidade

A revolução que dá origem ao Renascimento foi a descoberta da humanidade através das grandes navegações. (Guia de Leituras para o curso Introdução à Grande Conversa.)

A revolução que dá origem às mudanças mentais e culturais que chamamos de Renascimento foi a descoberta da humanidade através das grandes navegações.

O que os europeus descobrem em suas navegações pelo mundo, começadas pelos portugueses, é justamente o conceito de um mundo e de uma humanidade, concretos e reais, como antes nunca havia existido. É literalmente a origem da noção de mundo que temos hoje: etnográfica e não mais mitológica. Como descrever hoje o choque e a maravilha que foi a descoberta de que o mundo era povoado de um sem-número de sociedades, com cores, religiões, línguas, costumes, todos diferentes entre si?

Naturalmente, não se está negando os muitos crimes e violências cometidos pelos europeus contra os povos que eles “descobriram”. Mas é importante recuperar a enormidade desse processo, que foi global: pois não foram só os europeus que descobriram povos que antes não conheciam, mas esses povos também “descobriram” os europeus e descobriram, através dos europeus, os outros povos que também tinham sido “descobertos”. A palavra “descoberta” caiu em desuso ultimamente: afinal, como podemos falar que Cabral descobriu uma terra que já era habitada e colonizada por milhões de pessoas? Mas, visto por outro lado, foi sim um grande, enorme, radical, revolucionário processo de descoberta, onde todos esses povos, opressores e oprimidos, colonizadores e colonizados, que antes viviam existências insulares, em contato somente com seus vizinhos mais próximos, descobriram que faziam parte de uma vasta humanidade, de povos vastamente diferentes, habitando uma enormidade de terras, continentes, países, vegetações.

Não só isso: essas descobertas também ocasionaram descobertas geográficas, antropológicas, científicas. Sobre a religião, sobre a biologia, sobre a astronomia. Se haviam tantos outros povos, como isso se encaixava na teoria da criação bíblica? Como haviam sido criados? Eram homens ou bestas? Todas essas questões fizeram com que novas questões científicas, nunca antes formuladas, pudessem começar a surgir.

(Os espanhóis passaram boa parte do século XVI travando frutíferas debates filosóficos sobre a natureza dos habitantes do Novo Mundo, simbolizados na disputa entre Las Casas e Sepúlveda. Por outro lado, Las Casas, que dedicou grande parte de sua vida a defender os povos originários americanos da morte e da escravidão nunca se manifestou contra os mortos pela Inquisição — na época, controlada por sua ordem, os Franciscanos.)

Nesse contexto, a descoberta das Américas, e do mundo em geral, não pode ser resumida a uma única data, mas foi um longo e gradual processo mental. (Columbo morreu convicto de que tinha chegado à Ásia.)

Nenhum processo histórico é, por definição, bom ou ruim. Não estamos aqui celebrando nem lamentando as grandes navegações, mas apenas reconhecendo que mudaram tudo: as Américas, a Europa, a África, nunca mais foram iguais, e a Ásia também foi muito impactada, mas não imediatamente. Impérios caíram nas Américas, guerras eclodiram na África para suprir o insaciável mercado de escravos, a Europa criou impérios que se espalharam pelo globo. Ao mesmo tempo, se percebeu que cristãos, judeus e muçulmanos eram somente uma pequena parte da criação. Quem eram essas outras pessoas? Como se encaixavam nos planos de Deus? Aliás, havia Deus?

Essa revolução mental só pode existir a partir das grandes navegações portuguesas.

(Referência: David Abulafia, The Discovery of mankind: Atlantic encounters in the age of Columbus.)

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Esse texto (que não é uma criação original, mas uma paráfrase dos textos de referência) faz parte dos guias de leitura para a quinta aula, Grandes Navegações, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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A descoberta da humanidade é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 11 de novembro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/a-descoberta-da-humanidade // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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