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Jó: a resposta da não-resposta

Aceitar que não existem respostas é fazer as pazes com o universo. (Um guia de leitura para a primeira aula do curso “Introdução à Grande Conversa”.)

O Livro de Jó talvez seja o ponto alto literário da Bíblia. Ele é dialógico e poético, trágico e racional, místico e rebelde. Infinitamente complexo, estranhamente consolador. Um mistério que já dura milênios e não parece perto de ser solucionado.

Como jovem ateu, o Livro de Jó me foi imensamente importante. Demorei muito para entender porque teriam decidido colocar na Bíblia um livro que, para mim, provava ou que Deus não existia ou que, se existisse, era um canalha caprichoso que não valia a pena adorar, seguir, obedecer; e, em ambos os casos, que nada nada fazia nenhum sentido.

quadro "jó e seus amigos", de ilya yefimovich repin, 1869.
quadro “jó e seus amigos”, de ilya yefimovich repin, 1869.

Rebeldia não-satânica

Jó é de uma arrogância não antipática, mas heróica: perdeu tudo, está nu, coberto de chagas, fustigado pelos amigos, mas ainda se lembra de quando sentava na porta da cidade e era ouvido e respeitado: tem autoestima e respeito próprio o suficiente para clamar contra o Deus que ainda adora, para confiar no valor de sua fé, de sua virtude, de sua piedade.

Em alguns momentos, Jó parece um quase Prometeu, vontade férrea e inconquistável, vítima transformada em juiz, celebrando sua própria agonia com petulância e impertinência.

Mas, por outro lado, se Jó parece estar sempre a um passo de uma rebeldia satânica, desafiadora, ele nunca dá esse passo. Jó se rebela, mas também aceita. Reclama, mas não desconstrói. É rebelde, mas com limites.

Só essa ambivalência pode explicar que um personagem tão inconformado, tão rebelde, tão contestador, tenha virado o proverbial paciente.

Só essa ambivalência pode explicar que um livro que documente tanto inconformismo, tanta rebeldia, tanta contestação, tenha sido canonizado no uberlivro que continuamente denuncia a rebeldia como o maior de todos os pecados.

O Satã de Paraíso Perdido (nossa leitura da sétima aula) provavelmente é o maior rebelde da literatura mas, na Bíblia hebraica, Jó é muito mais rebelde e contestador do que Satã.

Um livro antiantropocêntrico

Em praticamente toda a Bíblia, o homem é sempre o centro de tudo, a Criação foi feita para ele, os animais criados para ele, etc. No Livro de Jó, acontece o oposto: Deus esfrega na cara de Jó, pela única vez em toda a Bíblia, o quão pequeno, minúsculo e desimportante é o homem comparado a todo o resto da Criação:

“Olha quanta coisa incrível, inominável, maravilhosa está acontecendo no cosmos enquanto vocês estão aí preocupados com dinheiro e camelos.”

Deus enfatiza que o reino animal é por definição amoral: cuidar carinhosamente dos seus filhotes pode significar lhes dar o sangue de outro animal que você acabou de matar, um paradoxo que só sublinha a limitação patética dos cálculos morais antropomórficos de Jó e seus amigos. O verdadeiro princípio que rege o mundo animal (e, por extensão, o cosmos) é maior, mais cruel, mais violento, do que nossa moralidade humana pode imaginar.

Ao celebrar cada elemento da Criação por si próprio, de modo independente, sem ser em relação ao homem, Deus afirma que não pode ser julgado apenas por suas manifestações na esfera humana, ou de acordo com a moral humana. Deus é literalmente sobrehumano e não pode ser responsável por tragédias que só são tragédias a partir do limitado ponto de vista dos humanos.

As respostas dos quatro amigos a Jó não estão nem erradas, mas são apenas lugares-comuns de consolo religioso. O discurso de Deus revela não apenas verdades duras e cósmicas, amorais e incompreensíveis, mas também a distância abissal entre essas verdades divinas e os clichês humanos autoconsoladores.

A resposta é que não existe resposta

O Livro de Jó vira ao avesso o diálogo comum entre Deus e homem na Bíblia hebraica: em geral, como nos livros proféticos e em Jeremias, Deus acusa o homem de quebrar a aliança; aqui é o homem que interpela Deus.

A resposta, entretanto, não responde nada porque não poderia haver resposta possível aos questionamentos existenciais de Jó. Ao contrário, Deus desconversa e direciona Jó para além de suas pequenas preocupações individuais e em direção a um vasto universo de poder e beleza, contradição e variedade, forças antagônicas e energias infindáveis, tudo muito além de sua compreensão humana.

Deus parece querer ganhar de Jó em seu próprio jogo:

“Ah, você tem perguntas? Pois eu tenho perguntas melhores! Perguntas que ninguém nunca fez! Perguntas que ninguém pode responder”

Em uma Bíblia hebraica praticamente sem diálogos diretos, o Livro de Jó é quase que como um diálogo socrático, mas ao avesso: sua proximidade aparente com o diálogo filosófico praticado por Platão só faz sublinhar as enormes diferenças entre o pensamento grego e o hebraico. Em um diálogo que, a primeira vista, parece cético e racional, Deus é o mais cético e o mais racional de todos: ele vira a racionalidade contra os racionalizadores, vira o ceticismo contra os céticos, e acaba solapando ambos.

Ao enfatizar a inescrutabilidade da justiça divina, Deus liberta Jó da falsa esperança de que coisas boas lhe acontecerão se for bom — ilusões às quais seus amigos ainda estão apegados, ilusões às quais a maioria das pessoas religiosas ainda está presa.

Até hoje, fico espantado com a quantidade de pessoas cristãs que disparam umas contra às outras os mesmíssimos clichês dos amigos de Jó, clichês que o próprio livro sagrado de sua religião já explicitamente detona.

Para que serve então o Livro de Jó? Por que um livro tão estranho, tão diferente, tão polêmico foi escolhido para canonização na Bíblia hebraica? Qual é sua função? Qual é sua mensagem? O que esperava-se que ele comunicasse aos fieis?

A mensagem do livro parece ser: devemos fazer o bem e evitar o mal não para recebermos recompensas, mas porque sim. E, ao mesmo tempo, que não devemos julgar as pessoas que sofrem nem como pecadoras (como fazem os amigos de Jó) nem como abandonadas por Deus (como faz Jó). O fato de alguém estar sofrendo não significa necessariamente nada: Deus esmaga otimistas e pessimistas, pecadores e justos, com o mesmo martelo.

Por mais que essa mensagem divina pareça dura e insensível, Jó antes estava atormentado e, depois, consolado. A recusa de Deus em se justificar já é, em si mesma, uma justificação. Uma não-explicação vinda de Deus explica mais do que todas as explicações dos homens. Jó não obtém a resposta que queria (na verdade, que exigia), mas o fato de o Deus criador de tudo se rebaixar a lhe dar uma carteirada dessas já é, por si só, uma consideração, um respeito, enfim, uma resposta.

Para Jó, rebelde quase satânico, aceitar a inescrutabilidade da justiça divina acaba se revelando não um ato de submissão, não um ato de aceitação, mas também um ato de comunhão, um salto kirkegaardiano no vazio absurdo da fé. Ao rejeitar o ceticismo e a racionalidade, Jó alcança um certo êxtase sereno, um estado contemplativo e místico. O mundo continua não fazendo sentido, talvez até faça menos sentido que antes, mas Jó está finalmente em paz.

(Referências: Moshe Greenberg, “Jó”, em Guia Literário da Bíblia; Robert Alter, Arte da Poesia Bíblica, cap.4; G. K. Chesterton e Kenneth Rexroth, em The Hebrew Bible in Literary Criticism, 450, 460)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a primeira aula, Antigo Testamento, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Jó: a resposta da não-resposta é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 30 de junho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/jo // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

3 respostas em “Jó: a resposta da não-resposta”

Prezado Castro,

Parabéns por enfrentar uma das equações literárias mais desafiadoras da história da literatura. Sua leitura realiza uma análise precisa dos discursos dos amigos de Jó e evidencia que o fato de Deus se dignar a dialogar com Jó já revela uma dimensão de alteridade. Além disso, destaca, com acerto, o quanto a presença do livro no cânon judaico permanece um mistério, sobretudo porque sua força crítica impulsionou, ao longo da história, não poucas rupturas religiosas.

Permita-nos, no entanto, aquecer o debate novamente. Em certos momentos, ao abordar o diálogo entre a divindade e Jó, parece retomar-se uma compreensão antiga: a de que, diante do mistério da natureza, da força do caos e da dinâmica própria do mundo, o sofrimento de Jó se tornaria, de algum modo, pueril.

Quando a divindade aparentemente sugere que há acontecimentos mais relevantes do que a dor de Jó, pode ser importante lembrar que o texto é elaborado por um escriba, por um ser humano, que atribui à divindade esse comportamento. Tal ousadia narrativa não conduz, necessariamente, à aquiescência; antes, pode produzir uma fissura reversa em uma cosmovisão dominante, como uma represa que se rompe lentamente ao longo do tempo.

A ideia de uma divindade que “tem mais o que fazer do que consolar um homem vitimado por tragédias incomensuráveis” tende a funcionar menos como consolo e pode ser percebida como favorecendo leituras que conduzem ao cinismo, à descrença ou à indiferença, dificilmente sendo capaz de reconduzi-lo a uma existência centrada.

Mais ainda, a legitimidade dos questionamentos de Jó reside no fato de que a expectativa que lhe foi frustrada havia sido nele implantada pela própria tradição revelada. Foi a própria divindade, mediada pela perspectiva deuteronomista, que estruturou tal horizonte de sentido. O mesmo se aplica aos seus amigos, que ainda não haviam passado por uma experiência que colocasse em crise essa visão de mundo.

Mesmo diante do assombroso universo apresentado pela divindade, as dores de Jó não são miudezas. Sua preocupação não se reduz à perda de bens ou camelos. Trata-se de chagas corporais, da morte de seus filhos, de profunda humilhação social, de acusações injustas e do silêncio divino. O sofrimento, em Jó, é uma experiência encarnada, irreversível e moralmente escandalosa.
Nesse sentido, a ideia de que a simples aproximação da divindade funcione como consolo — ao conscientizá-lo da grandeza do universo e de sua suposta insignificância — pode aproximar-se de um gesto que tende a deslocar o intelectual do problema concreto da dor.

Afirmar que não há respostas para o sofrimento, que não existe sentido necessário e que resta apenas aceitar, pode implicar um esvaziamento da dimensão ética do sofrimento. A busca por justiça perde densidade, e a aceitação da realidade como ela se apresenta passa a ser incentivada. Surge, aqui, a possibilidade de um quietismo existencial.

Jó, ao longo da narrativa, não parece aquiescer de forma passiva. Ele não aceita a dor como decorrência de algo que tenha cometido. Ao contrário, protesta diretamente contra a lógica retributiva até então difundida.

Há, portanto, uma dimensão ética no protesto de Jó, reconhecida pela própria divindade como sendo “integridade”, fidelidade aos fatos e em eventual ausência de lógica. É esse protesto que continua a sensibilizar leitores, especialmente aqueles que vivenciaram situações extremas, em alguma medida análogas: sobreviventes de campos de concentração, vítimas de genocídios, mães enlutadas. Trata-se de um estranhamento que rompe com a indiferença — outrora sustentada pela teologia da retribuição e, hoje, por outras formas de explicação, como determinismos, autonomias absolutas do cosmos ou meritocracias simplificadoras.

Alguns pensadores que atravessaram experiências-limite não se renderam ao silêncio ou à ausência de respostas. Viktor Frankl, Elie Wiesel e Primo Levi, por exemplo, sustentaram, em comum, que negar o sentido — seja causal, teleológico ou mesmo caótico — pode ser tão violento quanto impor um sentido falso.

Jó, por sua vez, não se submete. Ele acusa a divindade de injustiça e reivindica uma audiência para expor sua causa. Como sugerido por sua esposa, amaldiçoa o dia de seu nascimento (uma reprovação à iniciativa da divindade em tê-lo trazido ao mundo). Ele ultrapassa, sim, limites éticos e teológicos tradicionais.

Por fim, a célebre afirmação de Jó — “antes eu te conhecia de ouvir, agora meus olhos te veem” — não implica necessariamente resignação ou consolo. Pode ser altamente irônica, ser compreendida como um silêncio ou cinismo imposto pela assimetria de poder. Resta a pergunta: trata-se de consolo ou de aparente rendição?

Ora, os leitores de Jó percebem que a divindade desloca o debate, não respondendo diretamente à questão proposta. À pergunta: “por que sofro injustamente?”, a resposta divina — “você conhece a estrutura do cosmos?” — pode ser lida como um deslocamento argumentativo (um possível non sequitur). Há um deslocamento do plano moral para um plano ontológico, que não enfrenta diretamente o sofrimento de Jó nem o de seus leitores.

Lida dessa forma, a resposta divina pode ser compreendida mais como uma demonstração de poder do que como uma justificação. E, nesse sentido, dificilmente seria percebida como consolo por alguém em situação de luto extremo. Poder-se-ia imaginar outras formas de expressar uma presença consoladora.

É verdade que a teologia dos amigos de Jó está repleta de simplificações. Contudo, é precisamente aí que reside a força polêmica da narrativa: eles não falam a partir do nada, mas ecoam a tradição teológica secularmente construída e ratificada. São porta-vozes de uma compreensão legitimada até então.

Quando o autor de Jó problematiza a teologia retributiva — tanto a de Jó quanto a de seus amigos — promove uma ruptura epistemológica dentro da própria tradição. Inicia-se, ou ao menos se legitima, um novo processo de interpretação e enfrentamento do problema do mal. O drama de Jó, assim, revela também o colapso de um sistema de sentido anteriormente sustentado pela própria tradição teológica.

Talvez, então, a proposta mais escandalosa da narrativa não seja a aceitação do sofrimento como mistério insondável, mas a legitimidade e necessidade de rebeldia frente às perspectivas retributivas — antigas e modernas — que buscam enquadrá-lo, distorcê-lo, dissimulá-lo. Nesse sentido, o texto de Jó não resolve o problema do sofrimento na estética do mistério, mas o mantém aberto, como uma ferida que resiste a qualquer tentativa de fechamento simplificador. Exatamente esta abertura é a que permite hoje a busca por superação de males equacionáveis, e ao mesmo tempo reconhecer o grau de contingências presentes na realidade.

Ao renunciar os sentidos fatalistas até então atribuídos ao sofrimento, Jó, talvez, tenha desvelado as engrenagens do mundo e, assim, aberto a porta para a identificação de sentidos outros. Talvez os canonistas tenham enxergado aqui o convite a uma releitura de Deus. Deus, compreende Wiesel, não pode ser explicado da mesma forma após Auschwitz. Já não poderia, depois de Jó.

Forte abraço!

“As respostas dos quatro amigos a Jó não estão nem erradas, mas são apenas lugares-comuns de consolo religioso. O discurso de Deus revela não apenas verdades duras e cósmicas, amorais e incompreensíveis, mas também a distância abissal entre essas verdades divinas e os clichês humanos autoconsoladores.”
Eu amei essa análise do livro de Jó, principalmente pq eu to nesse ponto no meu relacionamento com Deus, fazendo perguntas que nao tem respostas. Esse ano aprendi que não dá pra colocar Deus numa caixinha com todas as caracteristicas que achamos q ele é. Ele é infinitamente muito mais do que pensamos. Eu aprendi isso… E que Bom q ele é muito mais do que achamos.

Fantástico texto. Parabéns pela análise. Havia muito tempo que eu não ouvia uma análise sensata do livro de Jó. É o meu preferido da Bíblia e sem dúvida deveria receber mais atenção.

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