Um retiro em um hospital espanhol | alex castro

Um retiro em um hospital espanhol

Passei a última semana em um quarto de hospital em Madri, cuidando do meu pai. Com exceção de uma breve ida ao Museu del Prado para ver as Pinturas Negras de Goya, fiquei todo o tempo no hospital.

Minha maior surpresa foi constatar a expectativa das minhas pessoas queridas de que eu estivesse cansado, estressado, frustrado: “Ai, Alex, você deve estar subindo pelas paredes sem poder sair aí de dentro!”, etc.

Mas, para todos os fins e efeitos, estou em um retiro zen:

Acordo, medito, me alimento, medito, me alimento novamente, me asseio, durmo.

Nos intervalos entre essas atividades, trabalho com atenção plena e faço o que precisa ser feito: limpo e lavo, trago comida e arrumo cama, etc.

Na verdade, foi muito mais leve do que um retiro zen: tomei café no desjejum e vinho no almoço e no jantar, substâncias que não seriam permitidas em um sesshin, pois alteram a consciência.

Além disso, tive tempo livre o suficiente para tarefas pessoais como ler três livros do Perez-Reverte, maior autor espanhol de histórias de capa-e-espada, e ainda um livro de espionagem soviético, e também trabalhar muito no meu próprio livro, “Atenção.”, que será lançado pela Rocco em março e está nos últimos estágios do processo de edição.

Hoje é Dia de Todos os Santos, quando todos os espíritos ruins estão à solta no mundo. Amanhã, se tudo der certo, é Dia de Finados: os espíritos ruins voltam para lá de onde nunca deveriam ter saído e eu, volto para o Rio de Janeiro, idem idem.

* * *

Outro dia, uma amiga me ofereceu:

“Alex, quer um chocolate?”

Agradeci a gentileza e disse que não.

Mas era mentira.

Eu queria o chocolate. Eu sempre quero o chocolate.

Se, em qualquer momento do futuro, alguma de vocês se perguntar:

“Será que Alex, agora, nesse momento, quer chocolate?”

A resposta, a não ser que eu tenha acabado de comer um quilo de chocolate na meia hora anterior, é sim, sim, eu quero o chocolate, sempre sim.

Mas sou obeso, diabético, hipertenso. Não posso comer chocolate. Me faz mal. Me mata.

Então, a verdadeira questão não é se quero ou não chocolate — quero, sempre — mas se vou ceder à tentação de comer algo que me faz tão mal.

(Meu IMC é testemunha de que cedi muito mais vezes do deveria.)

Como sempre na vida, o que importa não é o que a gente quer ou deixa de querer, mas o que a gente FAZ.

* * *

Quando surgiu essa emergência aqui na Espanha e eu estava refletindo se vinha ou não, a mesma amiga do chocolate, tentando me ajudar na escolha, fez uma pergunta perfeitamente razoável:

“Alex, você QUER ir?”

E eu ri.

Pois já estava refletindo há algumas horas sobre a possibilidade da viagem, e a questão do que eu “queria” nunca me passara pela cabeça.

Tive que responder, com toda a sinceridade, que não. Não, não quero ir pra Espanha cuidar de uma pessoa enferma.

Porque, fundamentalmente, não quero quase nada da minha vida:

Quero ficar no Rio de Janeiro, na minha casa, na minha rede, com a minha cachorra e a minha namorada, lendo literatura, comendo pizza e chocolate, recebendo as pessoas amigas, e saindo de casa somente para banhos de mar ocasionais de manhã e peças de teatro ocasionais à noite.

Se você me perguntar se quero fazer qualquer coisa fora dessa curta lista, a resposta sincera será “não”. (Se você não tiver intimidade comigo, receberá uma resposta mentirosa e polida.)

E, cada vez mais, especialmente odeio viajar, me deslocar, sair do Rio de Janeiro. Vocês nunca vão me ver saindo do Rio por vontade própria. Não tem nada que eu queira fazer fora do Rio além de voltar pro Rio.

Mas a grande verdade, a verdade que realmente importa, é que nada pode ser mais irrelevante nesse universo do que aquilo que EU quero.

Foda-se o que eu quero, né?

Porque esses meus quereres seriam minimamente importantes?

Que sociedade mimada e egocêntrica é essa onde a primeira questão que sempre surge parece ser “O que eu quero?”, “O que me faz feliz?”, ou variações?

A pergunta importante, a pergunta que sempre tento me fazer, é:

Como posso ser mais útil?

E vim.

* * *

Pós-escrito

Se meus textos te ajudam ou te inspiram, saiba que eles também são uma maneira que encontrei de ser útil às pessoas.

Todos os meus textos são oferecidos de graça na internet, como um presente, e nem você nem ninguém me deve nada por eles.

Mas escrevê-los dá trabalho e toma tempo, um trabalho e um tempo que eu poderia ter dedicado a outras atividades remuneradas.

Então, se os textos adicionaram valor à sua vida e se você tem disponibilidade financeira, considere fazer uma contribuição em dinheiro proporcional a esse valor.

É assim que eu sobrevivo.

É assim que você me ajudará a ter condições materiais para produzir novos textos.

E eu lhe serei sempre grato:

alexcastro.com.br/mecenato

* * *

Abaixo, um trechinho do meu próximo livro “Atenção.“:

* * *

A pergunta salvadora

Diz a lenda que o Santo Graal era o cálice usado por Jesus na Última Ceia e, depois, para recolher seu sangue na cruz.

Na Idade Média, o nobre cavaleiro Percival da Távola Redonda percorreu todo o mundo conhecido em busca dessa relíquia sagrada, travando muitas batalhas e vivendo muitas desventuras.

No começo de sua peregrinação, um dos primeiros personagens que Percival encontra é o Rei Ferido, um velho soberano paralisado e impotente, passando dor e sofrimento.

Percival interage com ele brevemente e prossegue viagem, completamente absorto em sua busca.

Décadas depois, já perto do fim, desiludido e desenganado por seu fracasso, Percival descobre que o Rei Ferido era secretamente o último em uma linhagem de guardiães do Graal.

Naquele dia, ainda no começo de suas andanças, sua busca teria se encerrado, o Rei teria magicamente se curado e o Santo Graal teria sido encontrado, se o jovem cavalheiro somente tivesse feito a pergunta correta, a pergunta salvadora, a pergunta atenciosa:

— Por que você está sofrendo? Qual é a fonte do seu sofrimento? Como posso ajudar?

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