o texto é de quem lê | alex castro

o texto é de quem lê

quando me perguntam qual era a intenção de algum texto meu, eu nunca respondo.

às vezes, me acusam de não querer dialogar, mas é o oposto.

cada texto será sempre lido por um pessoa leitora que trará à leitura suas vivências, suas experiências, seu preconceitos, seus traumas.

a mágica da leitura acontece nesse efêmero espaço virtual, fora do texto, onde se encontram as intenções da pessoa autora e as percepções da leitora.

naturalmente, as intenções da autora são baseadas no que imagina que serão as percepções da leitora, e as percepções da leitora são baseadas no que imagina que foram as intenções da autora.

mais naturalmente ainda, a beleza do processo é a precariedade da comunicação: nem a pessoa autora consegue prever quais vão ser as percepções da leitora, nem a leitora consegue saber quais são as intenções da autora.

por isso, o espaço virtual da leitura é tão efêmero, pois ele nunca é o mesmo: “Dom Casmurro” era o mesmo livro em 1992 e em 2009, mas as percepções, projeções, presunções que eu trouxe ao texto nessas duas datas eram tão radicalmente diferentes que ocasionaram duas experiências de leitura também radicalmente diferentes.

a partir do momento em que a pessoa leitora recebe o texto, ele pertence a ela, para lê-lo através de SUAS definições, para projetar nele os SEUS significados, para interpretar ele de acordo com as SUAS vivências.

então, quando uma pessoa autora se recusa a revelar suas intenções, não é que ela não quer dialogar: pelo contrário, ela quer possibilitar o diálogo.

porque, se a autora revelar suas “verdadeiras intenções”, além de elas não serem importantes, ela estará matando o diálogo, pois sua resposta será vista como a “resposta certa”.

por outro lado, enquanto a pessoa autora se mantiver calada e respeitar que o texto agora pertence às leitoras, mais elas vão poder dialogar, interpretar, interpelar o texto livremente.

o texto é de quem lê.

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