Não entendo a Claudinha! | alex castro

Não entendo a Claudinha!

As pessoas não entendem a Claudinha porque não enxergam a Claudinha.

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Claudinha é linda, inteligente, talentosa. Passou por vários namorados. Todos homens interessantes que a idolatravam. Um belo dia, conheceu Paulo, que nos dias bons a tratava como se fosse mais uma, nos dias ruins, como se fosse cocô. Casaram em menos de um ano, estão juntos até hoje, dois filhos. Apesar de ser uma mulher independente, forte e liberada, formada e pós-graduada nas melhores universidades (etc, etc), largou dois excelentes empregos para segui-lo daqui pra lá, no melhor estilo mulherzinha.

E eu acho graça porque os amigos entendem mas fingem que não entendem. É assim: “Ai, Alex! O João era lindo, rico, tratava a Claudinha como uma deusa. O Antonio era o homem mais interessante da cidade e beijava o chão por onde ela andava. E ela largou todos eles pra ficar com o Paulo que parece que só não dá na cara dela porque não vale a pena o trabalho!” E, depois de demonstrar que entendeu a Claudinha perfeitamente, a amiga suspira e fala: “Não entendo a Claudinha!” Ué, como não entende? Acabou de explicar tudo.

Em História, a gente tem um mantra: a história, por definição, nunca é paradoxal; você é que não entendeu alguma coisa.

A Claudinha finalmente ter caído na mão do Paulo não tem nada de paradoxal. Afinal, aconteceu, não é? Para os atores do drama, tudo faz o mais perfeito sentido. Se pra você, que está de fora, a relação parece paradoxal, é porque você não entendeu quem eles eram, quais eram seus anseios, o que estavam buscando, etc.

Eu tento sempre fazer o caminho oposto. Eu parto do princípio que, com raras e honrosas exceções, as pessoas acabam sempre vivendo a vida que escolheram viver, mesmo que (quase sempre) não saibam disso.

Por definição, a Claudinha passar pelas mãos de vários homens e só sossegar o facho nas mãos no Paulo não é paradoxal. Claramente, sua relação com o Paulo lhe dá algo que ela precisa e que os outros não davam. Isso é tão patentemente óbvio que me espanta não ser o senso-comum – mas não é.

Mais difícil é descobrir afinal ela vê no tal Paulo. O desafio aqui é julgar não do ponto de vista dos seus próprios preconceitos, mas dos anseios e expectativas do outro. Tem gente que acha levar bofetada uma coisa ruim, tem gente que não vive sem. Conheço até quem goste de lamber pé sujo. Quanto mais você aplicar suas opiniões e valores na tentativa de compreensão do outro, mais você não entenderá nada e mais achará tudo “paradoxal”.

Eu adoro a Claudinha. Já passei uns dias em sua casa e, confesso, foi constragedor o esforço dele em não dar patadas nela em minha presença e dela, em fingir que ele era o maridão perfeito e amoroso. Tentarei não me hospedar mais na casa deles. Mas, nesse caso, a maior convivência tirou minhas últimas dúvidas: não é que Claudinha seja sexualmente submissa, como tantas mulheres fortes e independentes que conheço.

De certo modo, o tesão dela está na caça. Os seus outros homens já chegavam nela pré-conquistados, babando, idolatrando-a. Já Paulo ela precisa reconquistar todo dia, mantê-lo sempre interessado, agradá-lo. E cada feedback positivo, por menor que seja, é uma grande vitória que compensa tudo.

Quase posso imaginar os dois daqui a quinze anos, ele finalmente se acalmando, ficando mais calmo e amoroso, e ela tendo uma daquelas crises da idade da loba, precisando sair e dar pra todo mundo, porque ele simplesmente não responde mais aos seus anseios, porque ele não lhe dá mais a chance de reconquistá-lo. E o pobre do homem não vai entender nada quando ela finalmente sair porta à fora nos braços de um canalha de vinte.

(Texto escrito em 2012.)

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Pós-escrito

É muito importante deixar claro:

Eu não ensino atenção.

Só pode ensinar quem sabe, quem domina.

O Federer pode ensinar tênis: eu, no máximo, posso bater uma bolinha com você.

Eu não ensino atenção porque sou uma pessoa canalha, egoísta, vaidosa, ciumenta, mesquinha, acumuladora, gananciosa, consumista.

Na verdade, criei as práticas de atenção justamente porque quero deixar de ser assim.

Nos meus encontros, o que faço não é “ensinar atenção”, como se fosse uma técnica que eu domino, mas sim compartilhar com as participantes essas práticas que criei antes de tudo para mim mesmo.

Para quem não quiser vir, as práticas estão todas detalhadas em meu livro Atenção.

Para quem quiser vir, a próxima imersão — que acontece entre 26 e 28 de julho em um hotel-fazenda na divisa RJ-SP — já está quase lotando.

Saiba mais e se inscreva:
alexcastro.com.br/encontros/imersao-prisoes

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