Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala: historiografia & recepção | alex castro

Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala: historiografia & recepção

Quase oitenta anos após sua publicação, Casa Grande & Senzala continua sendo, ao mesmo tempo, um livro fácil e um livro dificílimo: fácil pelo estilo leve e coloquial de Freyre, que o coloca ao alcance de qualquer leitor médio em busca do prazer da leitura; difícil, dificílimo, pois a própria oralidade da linguagem, e a tendência freyreana de pensar em termos de “antagonismos em equilíbrio”, tornam Casa Grande & Senzala uma obra repleta de ambiguidades que, a todo momento, traem e enganam um leitor acadêmico que tente “isolar” os pensamentos e opiniões de Freyre. Em Casa Grande & Senzala, muitas vezes a afirmação vem seguida da sua negação, e vice-versa, e assim sucessivamente, “fazendo com que a cada avaliação positiva possa se suceder uma crítica … que acaba por dar um caráter antinômico à sua argumentação.” (Benzaquen)

No momento do seu lançamento, diz Antonio Candido, é difícil de se avaliar a enormidade do impacto da obra: “sacudiu uma geração inteira, provocando nela um deslumbramento como deve ter havido poucos na história mental do Brasil.” Monteiro Lobato compara sua publicação à chegada do cometa Halley – que foi muito mais impressionante em 1910 do que em 1986, cabe dizer, ou não se entenderá a comparação. Freyre oferece uma versão totalmente nova da História do Brasil, varre do pensamento brasileiro a noção de racismo científico e interpreta positivamente tanto a contribuição negra quanto a mestiçagem.

Em breve, porém, acadêmicos marxistas ligados à USP, como Florestan Fernandes, Caio Prado Jr, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Antonio Candido, começam uma crítica sistemática às idéias de Freyre. Nas palavras de Gabriel Cohn, em oposição à visão patriarcal, “de cima”, mais culturalista e antropológica, de Freyre, propõem uma perspectiva plebéia, “de baixo”, mais sociológica e econômica. À leitura de Freyre, focada na singularidade cultural e racial do Brasil, Florestan Fernandes contrapõe uma leitura que enfatiza a participação do país nas grandes correntes históricas ligadas à expansão do capitalismo mundial. Ainda segundo Cohn, apesar da rivalidade entre elas, essas visões seriam mais complementares do que propriamente excludentes.

Entretanto, para debater ou refutar Freyre, primeiro era necessário defini-lo e enquadrá-lo, uma tarefa dificílima em se tratando de um autor tão ambíguo e escorregadio, sem afiliações acadêmicas, e capaz de chamar para si quase todos os rótulos sem jamais colar-se a eles. Carlos Guilherme Mota, por exemplo, em quase desabafo, nota que Freyre desenvolveu uma série de “mecanismos e artifícios” para não ser facilmente localizável: se colocar como sociológo ao mesmo tempo em que diz fazer anti-ciência; se definir como liberal, mas criticar os liberais; se afirmar um revolucionário, mas um revolucionário conservador; e por fim, se classificar simplesmente como “escritor”, o que, de acordo com Antonio Candido, é uma “teima” que serve apenas para indefinir suas verdadeiras coordenadas. Já pode-se ver o enorme incômodo que Freyre causava em uma parcela da academia: Mota, ao usar a palavra “desenvolver”, e Cândido, “teima”, praticamente sugerem que o estilo sincrético, paradoxal e iconoclasta de Gilberto Freyre seria não um reflexo legítimo de sua personalidade, mas somente “mecanismos e artifícios”, nas palavras de Mota, propositalmente criados para ludibriar seus adversários. Começa aqui a história das desleituras da obra de Freyre.

Com o passar dos anos, Freyre realmente sofre uma guinada conservadora: na década de sessenta, manifesta seu apoio às ditaduras do Brasil e de Portugal e começa, enfim, a utilizar o termo “democracia racial” – originalmente criado por Roger Bastide e que jamais aparece em Casa Grande & Senzala ou Sobrados & Mucambos. Entretanto, as posições conservadoras posteriores de Freyre são progressivamente projetadas em seus trabalhos anteriores, até o ponto de ser praticamente um truísmo (falso) que “Casa Grande & Senzala é o livro que defende/começa/define/promove/apresenta/etc a tese da democracia racial”.

Entre as décadas de sessenta e oitenta, quanto mais conservador Freyre se afirma, mais a crítica marxista a ele torna-se compreensivelmente feroz. Pode-se dizer que, durante esses anos, seu prestígio acadêmico esteve no nível mais baixo: quando Stuart Schwartz escreve seu seminal Segredos Internos: Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial, seu objetivo original era simplesmente provar que “visão doce” que Freyre tinha da escravidão estava equivocada. Dante Moreira Leite parece fazer o epitáfio intelectual de Freyre quando afirma que sua posição parecia então [1969] inevitavelmente datada e anacrônica, identificando-o com os grupos mais conservadores e afastando-o dos intelectuais mais criadores. E conclui: Casa Grande & Senzala entretém mas não explica e, na verdade, por sua fórmula ensaística e universalista, encobre o problema real das relações de dominação no Brasil. Antonio Candido, como que curado do impacto que sofreu com a obra, desdenha: Casa Grande & Senzala não é uma interpretação do Brasil, mas uma autobiografia. Com a morte de Freyre em 1987 e a queda do muro de Berlim em 1989, entretanto, os ânimos começam a esfriar e Freyre pôde ser lentamente apropriado pela academia.

Em 1995, estudando História do Brasil, na PUC-RJ, recordo-me perfeitamente do professor que nos apresentou a Casa Grande & Senzala como um livro que há algum tempo não era ensinado e que “agora estava voltando”, pois era importante para a evolução do pensamento brasileiro, embora reacionário, conservador, ultrapassado, etc. É possível que a súbita popularidade de Freyre nessa universidade tenha se dado graças ao lançamento, no ano anterior, de Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, por um professor da casa, Ricardo Benzaquen de Araújo, provavelmente o melhor livro acadêmico sobre Freyre. Voltaremos ao livro de Ricardo ao final desse ensaio; basta dizer que a década de noventa marca a “retomada freyreana”, na feliz colocação de Christopher Dunn.

Uma vasta gama de pensadores, personalidades e pesquisadores tem redescoberto e reutilizado Gilberto Freyre, desde o ex-ministro da cultura Gilberto Gil, tentando aumentar a mestiça auto-estima nacional, até a antropóloga Yvonne Maggie, uma das faces mais visíveis da luta contra a adoção de cotas raciais no Brasil. Apesar disso, a produção brasileira mais recente, em livro, não parece estar à altura do tema. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil (2000) e Gilberto Freyre e o Idéario Brasileiro (2005), de Roberto Cavalcanti de Albuquerque e Odilon Ribeiro Coutinho, são somente panegíricos freirianos, listagens dos elogios que ele recebeu e respostas aos seus críticos. Pelo menos, não escondem suas lealdades: no primeiro, o autor já afirma na orelha que foi amigo de Freyre por 30 anos e o segundo apresenta uma foto de Freyre com o autor na contracapa. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração (2001), pelo respeitado historiador Vamireh Chacon, fala pouco sobre “a construção da brasilidade” mencionada no título, e contém pouca ou nenhuma análise sobre a obra freyriana: trata-se de um estudo documental sobre o impacto e as leituras de Casa Grande & Senzala, antologizando resenhas, correspondência e controvérsias: decepciona como trabalho acadêmico, mas pode tornar-se uma boa fonte primária. Gilberto Freyre, Um Vitoriano nos Trópicos (2005), de Maria Lúcia Pallares-Burke, é um trabalho acadêmico de peso mas talvez com um recorte excessivamente estreito: a influência de autores ingleses na formação intelectual de Gilberto Freyre até Casa Grande & Senzala. Por fim, mais interessantes, três coleções de artigos trazem contribuições inovadoras à pesquisa freyriana no século XXI: Gilberto Freyre e os Estudos Latino-Americanos (2006), organizado por Joshua Lund e Malcolm McNee, O Imperador das Idéias. Gilberto Freyre em Questão (2001), organizado por Joaquim Falcão e Rosa Maria Barbosa de Araújo, e a edição crítica de Casa Grande & Senzala da Coleção Archivos (2002), organizada por Guillermo Giucci, Enrique Rodriguez Larreta e Edson Nery da Fonseca.

Também no exterior, acadêmicos têm se debruçado sobre Gilberto Freyre, em novos livros como Colonialism and Race in Luso-Hispanic Literature (2006), de Jerome Branche, White Negritude. Race, Writing and Brazilian Cultural Identity (2008), de Alessandra Isfahani-Hammond e a coletânea de artigos The Masters and the Slaves. Plantation Relations and Mestizaje in American Imaginaries (2005), editado pela mesma autora. Essa mais recente produção norte-americana tem feito fortíssimas críticas a Freyre, partindo não mais de bases marxistas ou materialistas históricas, mas dos estudos culturais, pós-coloniais e afro-americanos.

O livro de Branche exemplifica bem essa nova variação de uma antiga maneira de desler a obra de Freyre: é uma análise de raça enquanto narrativa no cânone luso-hispânico, desde o século XV até o presente, buscando por instâncias de traços racistas, mesmo que atenuados e suavizados, no discurso dominante. Naturalmente, Branche também se debruçou sobre Freyre: ele aponta que o próprio título Casa Grande & Senzala, com sugestões de inerentes hierarquias sociais, raciais e sexuais, desmente as teorias freyrianas de relações sociais e raciais harmoniosas. Continua Branche: as referências à casa-grande e à senzala já remeteriam a um espaço de dominação econômica e política, com potencial inerente de coerção e brutalidade; além disso, a referência ao patriarcado no subtítulo (“Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”) também evocaria toda a dominação patriarcal masculina branca do senhor de engenho sobre suas escravas, filhas e esposas.

Naturalmente, a explicação verdadeira pode ser rigorosamente oposta: dado que o próprio título Casa Grande & Senzala enfatiza as hierarquias sociais, raciais e sexuais do Brasil Colônia, então talvez seja Branche quem fez uma leitura equivocada do livro, ao atribuir a ele idéias que o próprio Branche reconhece que são desmentidas pelo título! Talvez, ao contrário do que Branche parece apressadamente concluir, colocar a palavra “patriarcado” no subtítulo de um trabalho de História não signifique necessariamente celebrar esse patriarcado, mas denunciá-lo, entendê-lo, estudá-lo. A precariedade da leitura de Branche, que ao mesmo tempo registra em Freyre a presença das ausências que aponta, é explicitada no seguinte trecho, sintomático de uma des-leitura bem comum de Casa Grande & Senzala. Vale a pena a citação longa, pois é flagrante como uma frase desmente rigorosamente a frase anterior:

“Freyre’s authorial ambivalence emerges again as he identifies slave children as indispensable playmates of the off-spring of the slave-owning class, while they are also seen as a source of moral and physical corruption for them. Slave boys teach their young masters obscene language, and the slave girls introduce them to sex and often to syphilis. The repeated image of interracial childhood interaction in Masters and the Slaves, as putative metaphor for racial democracy among the young by way of the effect of affect, is by no means watertight. Its purported sincerity is exploded by the sadism that often characterizes the relationship between the young slave owner’s son and his black slave companion and in his ininhibited sexual access to black and mulatto girls at the onset of puberty. In fact, the unenvenness of such relationships is vividly depicted by Freyre’s nonchalant reference to the belief among diseased young males of the slave-holding class that having sex with a twelve- or thirteen-year-old virgin would cure their syphilis.”

O trecho é tão contraditório que quase poderia ter sido escrito por Freyre e ser um exemplo do seu estilo de “antagonismos em oposição”. Nas primeiras duas frases, Branche chama a atenção para as várias descrições de exploração sexual de crianças brancas sobre negras e mulatas em Casa Grande & Senzala, algo que não se esperaria em um livro que, como ele parece acreditar, promove a “democracia racial”, mas Branche não vê a contradição em seu próprio argumento. Na terceira frase, o autor comenta que essa interação sexual infantil forçada “não funciona como metáfora da democracia racial” – mas não se sabe de onde ele tira que essas relações de estupro e dominação poderiam jamais ser consideradas metáforas de qualquer tipo de democracia racial. Aparentemente, ele acredita que Freyre diz isso, mas não cita onde. Por fim, na quarta e quinta frases, Branche se contradiz de novo e lista várias ocasiões em que Freyre, mais uma vez, descreve os crimes sádicos das relações sexuais entre senhores e escravos, sem jamais parecer compreender que são essas descrições, entre outras coisas, que comprovam que Casa Grande & Senzala não defende que o Brasil Colônia fosse um paraíso racial.

Poderíamos nos perguntar: se o livro descreve tantos horrores da relação entre senhores e escravos, como pode promover a democracia racial? Se promove a democracia racial, por que incluir tantos e longos trechos sobre sadismos, torturas, estupros? A leitura de Branche, que já escreve buscando o racismo disfarçado do discurso oficial, é sintomática da forma mais comum de desleitura freyreana: é impressionante a quantidade de atrocidades, torturas e estupros que um leitor precisa relevar ou esquecer para fechar Casa Grande & Senzala e tachá-lo de livro “promotor da democracia racial”.

Também não está se tentando aqui glorificar ou defender Gilberto Freyre – pecado de parte da bibliografia atual. Naturalmente, se Branche buscava pelo racismo subjacente ao discurso oficial, mesmo se atenuado ou suavizado, ele poderia encontrar muitos exemplos em Casa Grande & Senzala – somente não os que ele cita – e não apenas aí, mas em toda a produção literária brasileira até então. Por exemplo, quando Gilberto Freyre escreve que todo brasileiro,

“mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo … a sombra … principalmente do negro. … Em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer…”,

não há dúvida de que se trata de uma operação de exclusão, ainda que presumivelmente bem-intencionada. O negro, apesar de tão valorizado no texto, é claramente excluído da categoria “todo brasileiro” ou mesmo do “nós”. Ele é quem está fora, ele é a “sombra”. Ele “nos” dá de mamar, justamente por não ser parte desse “nós”: é externo a ele, está fora de nós. Aliás, a primeira pessoa do plural é sempre complexa na prosa freyriana, mais um exemplo da ambiguidade que dificulta sua assimilação pela academia: para Gilberto Freyre, “nós” pode ser desde “brasileiros brancos descendentes de senhores de engenho nordestinos” até “brasileiros brancos, mas sem incluir negros e índios”, passando inclusive por “todos os cidadãos brasileiros”. É a proliferação do primeiro “nós” que permite que Antonio Cândido, não sem alguma razão, classifique Casa Grande & Senzala como autobiografia.

O que muitas vezes falta aos autores que embarcam em críticas semelhantes contra Freyre é a contextualização de quão pouco racista o seu discurso era, em comparação ao discurso contemporâneo e anterior. Aos nossos ouvidos politicamente corretos de começos do século XXI, um autor dizer que todo brasileiro mamou em tetas negras pode parecer somente uma operação de exclusão. Em 1933, “sacudiu uma geração inteira”, nas palavras de Cândido. Pinçar racismos aqui e ali na prosa ambígua de Gilberto Freyre é muito fácil; fazê-lo sem contextualizar o impacto de sua obra na atmosfera racista de então é má-fé acadêmica.

Recentemente, alguns intelectuais brasileiros têm revalorizado a contribuição de Freyre, especialmente no sentido de superar o racismo científico e estabelecer a democracia de raças como um ideal a ser atingido. Hermano Vianna ataca o “mito do mito da democracia racial”, muito em voga entre brazilianistas, segundo ele, e que teria se originado de “uma leitura apressada, tendenciosa e burra” de Casa Grande & Senzala:

“como dizer que CG&S criou uma imagem idílica da sociedade colonial se, logo no prefácio de sua primeira edição, aprendemos que os senhores mandavam ‘queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das chamas’…?”

Vianna também considera que o melhor do Brasil seja nossa valorização da mestiçagem, que não seria sinônimo de defender a idéia de vivermos em uma democracia racial.

Já em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (2007), de Antonio Risério, a presença de Gilberto Freyre é sentida em cada página, mesmo quando não mencionado. Em muitos trechos, Risério parece literalmente incorporar Freyre:

“Quando falo de sociedade urbana convivial, não estou me referindo a uma sociedade harmônica, sossegada, entregue à sua própria placidez. Não me refiro sequer a um espaço social onde os conflitos se apresentassem de forma atenuada. Em outras circunstâncias, estes esclarecimentos seriam dispensáveis, mas o ambiente brasileiro não se encontra hoje, mentalmente, em condições normais de temperatura e pressão. Parece até que as pessoas estão fazendo questão de parecer burras. Daí o didatismo e a redundância a que somos obrigados.”

Neste livro, Risério busca entender dois fenômenos fundamentais do Brasil: a mestiçagem e o sincretismo, resgatando-os e valorizando-os. Sobre a democracia racial, ele aponta que o próprio impacto e recepção de Casa Grande & Senzala provaram não ser o Brasil uma democracia racial, mas essa tornou-se uma das grandes aspirações nacionais. De certo modo, à sua maneira, mesmo sem inventar a expressão “democracia racial” ou usá-la em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre deu ao país o seu “Brazilian Dream”. E, desde que não seja usada conservadora e reacionariamente, como uma desculpa para alienação política, como uma realidade que o Brasil já alcançou, qual é o problema da “democracia racial” como projeto, como sonho, como aspiração? Será algo tão ruim assim? Não será essa, talvez, a maior contribuição do Brasil à cultura mundial? E fecha o livro com a frase: “Cumpre, portanto, fazer com que o mito se encarne na história.”

Por fim, como já foi dito, talvez o melhor livro acadêmico sobre Freyre nas últimas décadas tenha sido Guerra e Paz: Casa-Grande e Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, de Benzaquen. Fugindo de interpretações fáceis de Gilberto Freyre, sem nem pinçar seus trechos mais felizes para endeusá-lo, nem seus piores deslizes, para pintá-lo como um ideológo reacionário, Benzaquen foi direto ao cerne do estilo freyriano, à sua característica talvez mais difícil: seus “antagonismos em conflito”, “sua heterogeneidade”, “sua imprecisão”, que seria “um dos componentes mais importantes de Casa Grande & Senzala”, “fornecendo valiosas pistas para a compreensão de alguns dos seus mais importantes propósitos”.

Em suma: a parte constitutiva do pensamento freyriano seria justamente a imprecisão que Mota havia desdenhado como “mecanismo e artifício”. Para Benzaquen, o pano de fundo de Casa Grande & Senzala é o realce dado por Gilberto Freyre ao caráter despótico e mesmo brutal de nossa tradição patriarcal, capaz de permitir uma certa dose de intimidade entre grupos sociais divergentes sem que isso cancelasse ou sequer diminuísse a desigualdade e a opressão embutidas em seu relacionamento. Depois de listar alternadamente alguns trechos sobre sadismo e sobre confraternização entre brancos e negros, dando a impressão de uma certa esquizofrenia autoral por parte de Freyre, Benzaquen dá o passo que Branche, e outros críticos, não deram:

“CGS dá a impressão de ter sido escrito justamente para acentuar a extrema heterogeneidade que caracterizaria a colonização portuguesa, ressaltando basicamente a ativa contribuição de diversos e antagônicos grupos sociais na montagem da sociedade brasileira.”

Assim como, na sociedade, diversos opostos conseguem conviver de lado a lado, em amálgama tenso mas equilibrado, Gilberto Freyre, ao vencer a desconfiança fundamental que o pensamento ocidental nos ensinou a manter quanto à contradição, também consegue reunir elementos antagônicos sem se preocupar com sua síntese ou com o estabelecimento de mediação entre eles, fazendo assim desse relativo louvor da ambiguidade o ponto central e decisivo de sua reflexão. O estilo de Freyre era um modo concreto de trazer para a escrita parte da instabilidade, ambiguidade e excesso que caracterizavam a sociabilidade da casa grande.

§ 4 respostas para Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala: historiografia & recepção

  • daniel disse:

    “Assim como, na sociedade, diversos opostos conseguem conviver de lado a lado, em amálgama tenso mas equilibrado, Gilberto Freyre, ao vencer a desconfiança fundamental que o pensamento ocidental nos ensinou a manter quanto à contradição, também consegue reunir elementos antagônicos sem se preocupar com sua síntese ou com o estabelecimento de mediação entre eles, fazendo assim desse relativo louvor da ambiguidade o ponto central e decisivo de sua reflexão.”

    Pois é, Alex. Eu acho que o “conviver lado a lado”, o tenso “mas equilibrado”, esse tom de “relativo louvor a ambiguidade” é justamente a matéria prima que, sim, permitiu que mais tarde essa obra fosse ligada ao mito da democracia racial. É fato que se trata de uma leitura errada: mas uma leitura errada bastante facilitada pela escrita sofisticada de Freyre. A escrita, quando muito boa, é perigosa. Basta lembrar que Nietzsche, justo ele, teve suas obras editadas pela irmã de forma bastante proveitosa, e de um jeito totalmente errado, pela ideologia nazista. Nenhum fim poderia ter sido mais irônico, para alguém que detestava tanto, como ele, o “espírito alemão”… Gilberto Freyre é um exemplo bem menos emblemático: eu tento ser um leitor cuidadoso, e lendo Casa Grande & Senzala, senti em vários momentos esse cheiro, sim, de uma prosa que amacia a violência… Um tom que permite que o leitor pense, com o apoio de nossa cultura, aliás, que essa violência toda não chega a desequilibrar nosso “convívio”… Essa recorrente banalização da violência é a força motriz do mito da democracia racial; e é muito, muito anterior a ele — e posterior, pois sinto seu cheiro fresco agora mesmo, enquanto lhe escrevo esse comentário.

    grande abraço.

  • […] Uma das maiores ilusões propagadas no Brasil, é sobre a nossa mistura de cores, vendida internamente como uma espécie de espetáculo onde a miscigenação é a principal protagonista. Isso é o mito da democracia racial, sendo um pouco mais técnico, que se espalhou e se fortaleceu pelas teorias do ambíguo Gilberto Freyre. […]

  • Gabriel Simões disse:

    grande alex, como sempre me instigando a cair dentro de novas leituras…

  • marcos nunes disse:

    Texto bem interessante.

    Não li CG&S; como a grande maioria dos “clássicos”, este também me chegou por inúmeras vias que construíram uma visão inexata do volume, principalmente no contexto em que vivi, em meio à ditadura militar apoioada por Freyre.

    Entendo que a construção da “brasilidade” é uma tarefa inócua, fora do devir histórico de confusão globalizante. E que a própria nação pode ser dada como perdida, bem como as esperanças de uma “democracia racial” em uma estirpe miscigenada. O mundo, que supostamente deixara de ser preto e branco, está mais preto e branco do que nunca.

    Penso que por isso é sempre possível que as releituras deem dimensões insuspeitadas antes de determinadas obras, como CG&S: novos tempos se refrescam com velhas referências.

    Mas não sei qual contribuição CG&S pode dar no atual contexto, de muita polarização e passionalidade superdimensionada por uma conjuntura política onde os mais diretamente conectados à exploração colonial e patriarcalismo lutam hoje por uma recondução ao poder do Estado objetivando recrudescer às velhas formas de pensamento que professam por verdadeiras e eternas.

    Sobretudo, vejo CG&S como um volume grande demais, em todos os sentidos, para conseguir desanuviar meu olhar atravancado por inúmeros labirintos. A idade cobra um preço caro à ambição, reduzindo-a a extremos próximos ao nada.

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