Como lidar com pessoas-na-fúria

Na medida do possível, tento nunca interagir com pessoas-que-estão-na-fúria.

* * *

Para a pessoa-na-fúria, em alerta máximo, tudo é ataque. (Para um martelo, tudo é prego.)

Por isso, falar com a pessoa-na-fúria com o objetivo de tirá-la da Fúria exige literalmente um daqueles negociadores de filme de Hollywood. É uma habilidade complexa que quase nenhuma de nós tem. (Eu, com certeza, não tenho.)

Evito interagir até mesmo para proteger a própria pessoa-na-fúria de uma escalada de sua agressividade. Se for alguém que amo, evito interagir para evitar que ela tome atitudes ou fale palavras sem volta que possam inviabilizar nosso relacionamento.

Infelizmente, nessas situações, um dos grandes inimigos é nosso Ego (sempre ele!) que insiste em nos dizer:

“Vai lá. Você consegue acalmar essa fera. Você ela vai ouvir!”

Nunca vi dar certo.

Busco somente interagir com pessoas-na-fúria quando existe o potencial de ferirem outras pessoas. Mesmo assim, entro sabendo que as chances de sucesso são baixas.

Mas, se a pessoa-na-fúria não está fazendo mal a ninguém, se está só xingando muito no Twitter, prefiro esperar passar.

Quase sempre, passa rápido.

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Descobri, a duras penas, que qualquer interação só aumenta a duração da Fúria.

Se a Fúria passaria sozinha em digamos, duas horas, e eu falo qualquer coisa (por mais fofa que seja), e a pessoa-na-fúria responde de volta (sempre mais furiosa), e retruco algo, e ela responde de novo (um pouco mais furiosa), a única coisa que consegui foi garantir que a Fúria agora vai durar, no mínimo, duas horas e meia.

Talvez mais.

* * *

Algumas vezes, quando a Fúria da pessoa-na-fúria está direcionada a nós, a tentação de fazer alguma coisa aumenta exponencialmente a cada novo xingamento. Parece que o mundo inteiro está nos xingando. Parece que vai durar pra sempre.

Mas não está, não vai.

Se respondermos qualquer coisa, só estimulamos uma escalada da Fúria:

Antes, era uma pessoa-na-fúria (ou um grupo de pessoas-na-fúria) xingando muito: sozinhas, no meio da arena, nos desafiando ao embate.

Responder qualquer coisa equivale a aceitar o desafio e entrar na arena: a situação se torna uma briga, uma discussão, um confronto.

Mesmo que nos comuniquemos com toda a paz e a placidez do mundo, no mínimo a duração e a intensidade da Fúria aumentarão.

Mas, na verdade, essa é outra ilusão que o Ego nos vende: que conseguiremos nos comunicar pacificamente com a pessoa-na-fúria, que estamos acima desse tipo de agressividade, que somos melhores.

O mais provável é que não conseguiremos nos comunicar com toda a paz e a placidez do mundo: sob a adrenalina do ataque, nossas amígdalas também tomarão controle e diremos, no mínimo, palavras duras.

No máximo, quase com certeza, também entraremos na Fúria.

* * *

Vejo acontecer muito:

A pessoa é atacada e diz para si mesma:

“Vou responder com cuidado e com carinho, só pra clarificar essa questão e para a pessoa-na-fúria não pensar que estou ignorando-a.”

Cinco minutos depois, estão ambas se afogando no mesmo mar de Fúria, uma puxando a outra pra baixo.

(Como ensinou Millôr, “às vezes, você está discutindo com um idiota… e ele também!”)

Somos macacas peladas que evoluíram em um meio-ambiente hostil: a Fúria é nosso alcool e somos todas alcoolatras.

Depois do primeiro gole de Fúria, é quase impossível não ficarmos bêbadas.

Nossa maior liberdade de escolha, nosso fundamental momento de redenção, nossa vitória sobre nossos instintos, é quando decidimos não beber o primeiro gole.

* * *

A Fúria passa rápido.

Poucas horas depois, é comum a pessoa-agora-não-mais-furiosa ter vergonha e se arrepender de suas ações. Nessa hora, dá para entabular o diálogo que antes era inviável.

Uma técnica construtiva, se for possível, é acolher a pessoa, não lhe esfregar na cara as merdas que fez e não falar mais nisso.

Uma técnica possível, às vezes necessária, é bloquear a pessoa e cortá-la de nossas vidas.

* * *

A Fúria é absorvente.

Toda e qualquer pessoa já teve e terá de novo momentos de Fúria.

Existem pessoas, entretanto, que estão sempre na Fúria. Felizmente, a capacidade de atenção dessas pessoas é diminuta, como um peixinho dourado:

Em pouco tempo, a-pessoa-sempre-na-fúria sentirá sua Fúria contra nós diminuindo e, necessitando estar sempre em estado de Fúria, vai procurar por uma maneira de se manter na Fúria.

Se estivermos colocando lenha na fogueira de sua Fúria (ou seja, respondendo e interagindo), a justificativa para uma nova escalada na fúria será a última coisa que falarmos.

Se lhe negamos esse combustivel, a-pessoa-sempre-na-fúria rapidamente encontrará um novo Alvo mais merecedor e partirá para cima dele.

A Fúria é um tipo de paixão e, como todas as paixões, ela é rápida, mas absolutamente absorvente: ela exige toda nossa concentração, de corpo e alma.

Por isso, enquanto a-pessoa-sempre-na-fúria está atacando um Alvo, ela não tem olhos para mais ninguém: durante a breve duração dessa Fúria, o Alvo lhe parece a fonte de todo o Mal no mundo.

E nós, pobres Alvos de ontem, sinceramente, em comparação ao Mal Encarnado do Alvo de hoje, somos páginas viradas em seu folhetim: nossas faltas e pecados, que ontem eram tão astronômicas e justificaram ataques tão ferozes, hoje são insignificantes, perdoáveis, esquecíveis.

Nesse momento, no calor desse embate, a pessoa-sempre-na-fúria não vai jamais nos pedir desculpas (pois ela mal lembra de ter nos atacado, uma Fúria puxa a outra) mas ela pode nos pedir outra coisa: ajuda contra o Alvo de hoje.

E, se lhe passarmos uma pedra, grande e pontuda, para atirar no Alvo de hoje, a pessoa-sempre-na-fúria pode até se tornar nossa amiga.

Até a próxima Fúria, naturalmente.

* * *

Conheço várias pessoas-sempre-na-fúria cuja Fúria é justificada. (Existe muita injustiça no mundo para nos deixar furiosas todo dia, o dia todo.)

Ainda assim, por mais que existam maneiras de canalizar essa Fúria para o bem, essas pessoas são tão tóxicas no convívio cotidiano que prefiro evitar o contato.

* * *

Naturalmente, existem Fúrias e Fúrias. E, mais importante, existem demandas políticas justas que são rotuladas como “Fúria” por quem mais tem a perder com elas.

(A Fúria também é uma questão de ponto de vista.)

Homens brancos, por exemplo, acostumados à tranquilidade do topo da pirâmide, quase sempre reagem como se qualquer demanda de grupos negros ou feministas fosse “radical” ou “histérica” ou qualquer outro sinônimo de “furiosa”.

Para o Itaú, qualquer paralisação por melhores salários é “um dia de Fúria” e, Deus me livre, uma vidraça quebrada é um verdadeiro Holocausto.

Meu texto está falando de pessoas-na-fúria em contextos interpessoais.

No contexto político, a Fúria pode ser uma estratégia válida quanto utilizada por grupos desprivilegiados.

Como saber se uma Fúria está servindo como estratégia para uma luta justa ou se uma luta justa está sendo desvirtuada por uma Fúria egoica?

Depende de quem vê.

* * *

Esse texto não é sobre um tipo específico de pessoa. Não existe “pessoa-na-fúria”.

(Existem algumas pessoas-sempre-na-fúria, mas elas são raras e duram pouco, pois tendem a sofrer combustão expontânea.)

De resto, pessoa-na-fúria é um estar, não um ser: na Fúria já estivemos todas nós, em algum momento ou outro.

Como todos os meus textos, esse aqui não é para apontarmos o dedo para a coleguinha (“olha lá a Fulana, que louca, que pessoa-na-fúria!”) mas sim para nós mesmas (“quantas vezes já fui eu essa pessoa-na-fúria?”).

* * *

Nossos desafetos e como tratá-los

Todos os nossos atos generosos,
construídos ao longo de uma vida,
podem ser demolidos e desfeitos,
por uma única fagulha de fúria.

Não há mal pior que a fúria.
Não há bem maior que a paciência.
Por isso, com esforço, com zelo,
minha paciência desenvolvo.

Não há paz, não há prazer,
não há segurança, não há sono,
enquanto o dardo da fúria
está cravado em meu coração.

Aconteça o que acontecer,
a paz mental vou manter.
Pois o abatimento me impede
de atingir objetivos virtuosos.

Se problema tem solução,
não há porque se abater.
Se problema não tem solução,
de nada adianta se abater.

A mente sábia permanece serena
diante da desgraça e da dor.
Na guerra contra o ódio e a raiva,
há reveses como em toda batalha.

Guerreiros autênticos são os que
desprezam sua desgraça e sua dor
e destroem seu ódio e sua raiva.
Os outros matam inimigos já mortos.

Se não sinto fúria contra enxaqueca
ou refluxo, férteis fontes de frustração,
por que me enfureceria contra seres
também frutos de suas circunstâncias?

Se tivéssemos o que desejamos
nenhum dos seres sencientes
jamais sentiria dor ou desgraça
pois ninguém as deseja para si.

Na busca por beleza e bens,
sem cuidado e sem consciência,
flagelamos nossos corpos e
torturamos nossas mentes.

Algumas pessoas se enforcam,
outras pessoas se envenenam,
umas se mutilam, outras se endividam,
muitos modos de destruir a si mesmas.

Em sua dor, às vezes até assassinam
o Eu amado ao qual tanto se apegam.
Como então não causariam dor
às outras pessoas a sua volta?

Se não consigo sentir compaixão
por aqueles que se autodestroem
por suas próprias faltas e falhas,
devo pelo menos não sentir raiva.

É da natureza das pessoas imaturas
causar dor e desgraça umas às outras.
De nada adianta nos enfurecer com elas:
é como odiar o fogo por ser quente.

Assim como o cassetete que me bate
está sob controle da pessoa que o ergue,
ela está sob controle do ódio que lhe toma.
Melhor odiar o ódio do que odiar a ela.

Elogios e louvores me atrapalham e me distraem:
aumentam minha segurança e minha complacência.
Ao me sentir menos insatisfeito e menos deslocado,
diminui minha urgência em percorrer o caminho.

Quem me difama e maldiz,
impedindo que receba elogios,
são aliadas que me protegem
de afundar na complacência.

Eu, que almejo paz e liberdade,
não me apego à riqueza e renome.
Como então odiar quem trabalha
para me salvar desses grilhões?

Barram meu caminho rumo à vaidade,
impedem minha queda na complacência.
Como poderia odiar os guardiões
que me salvam de mim mesmo?

Mesmo se me impedem de fazer o bem,
ainda assim me protegem no caminho,
pois me levam à aprimorar a paciência
e ela é a maior de todas as virtudes.

Sem precisar buscá-los nem chamá-los,
eles me guiam na prática do caminho:
são como um tesouro sob meu assoalho,
encontrado sem esforço e sem fadiga.

Mesmo se querem me destruir,
ainda assim lhes devo gratidão,
pois se quisessem me ajudar,
essa paciência eu jamais teria.

Graças a quem me maldiz,
cultivei minha paciência.
Sou grato a eles, pois são
a causa de minha paciência.

* * *

Trechos do capítulo 6 (“Paciência”), do Caminho do Bodisatva, de Santideva, escrito em sânscrito, no século 8. De todos os textos budistas, é o meu preferido e já se tornou um dos livros mais importantes da minha vida. Seguramente, de todos os livros que já li, é o que mais se aproxima de ser o meu guia de conduta moral. Minha tradução não é uma tradução, é uma versão livre baseada em umas 10 traduções dele que tenho aqui, abertas, na minha mesa.

Em meus textos, para chamar atenção para o sexismo de nossa língua, uso o feminino como gênero neutro e não tenho medo de repetir a palavra “pessoa”. Para saber mais, visite alexcastro.com.br/sexismo

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