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Auerbach sobre a Bíblia e Homero: como representar a realidade

A Bíblia é fosca e elíptica; a Ilíada, descritiva e iluminada. (Um guia de leitura para as primeiras duas aulas do curso “Introdução à Grande Conversa”.)

Durante a Segunda Guerra Mundial, preso em uma cadeia turca, o alemão Erich Auerbach escreveu uma das mais importantes obras de crítica literária do século: Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Em seu primeiro capítulo, “A cicatriz de Ulisses”, Auerbach contrasta os diferentes estilos literários da Odisséia e do Gênese, uma comparação que vai manter e desenvolver ao longo da obra, estudando a literatura ocidental até o século XX.

Um curso como o nosso, Introdução à grande conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura, poderia ter abordado todas as obras estudadas por Auerbach, assim como ele poderia igualmente ter tratado qualquer uma das que vamos ler. Seu segundo capítulo, sobre as Confissões, de Agostinho, nos servirá na quarta aula, Cristãos, e seu nono capítulo, sobre o Decameron, na quinta aula, Medievais.

Abaixo, algumas observações de Auerbach sobre a Bíblia e sobre a Odisseia, mas que podem ser úteis de ter em mente em todas as nossas outras leituras. Primeiro, uma nota específica à Bíblia, sobre sua “pretensão à verdade”:

“A pretensão de verdade da Bíblia é não só muito mais urgente que a de Homero, mas chega a ser tirânica; exclui qualquer outra pretensão. … [N]ão se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira – pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado ao domínio exclusivo. … [N]ão procura o nosso favor, como de Homero, não nos lisonjeia para nos agradar e encantar – o que quer é nos dominar, e se nos negamos a isto, então somos rebeldes. …. [O] narrador bíblico … tinha de acreditar na verdade objetiva da história da oferenda de Abraão. … Tinha de acreditar nela apaixonadamente – ou então, deveria ser, como alguns exegetas iluministas admitiram ou, talvez, ainda admitem, um mentiroso consciente, não um mentiroso inofensivo como Homero, que mentia para agradar, mas um mentiroso político consciente das suas metas, que mentia no interesse de uma pretensão à autoridade absoluta.” (12)

Nesse momento, a meu ver, Auerbach comete seu único erro. Aliás, o erro que muitas de nós cometem ao tentar ler a Bíblia como literatura e que vale a pena ser apontado.

A Bíblia enquanto livro, como chegou a nós, Antigo Testamento seguido pelo Novo, etc, de fato tem uma pretensão urgente e tirânica à verdade. Mas esse livro, na verdade, é uma antologia de outros livros, uma antologia que só começa a ser formada cerca de quinhentos anos depois da redação do Gênese, em um longo processo histórico que demora outro meio milênio pra se concluir.

Não podemos de modo algum fazer a mesma afirmação, muito menos com tanta certeza, sobre os textos que vieram a formar o Gênese, esse livro que veio formar o Pentateuco, esse grupo de livros que veio formar a Bíblia Hebraica, esse grupo de livros que veio a formar a Bíblia cristã como a conhecemos hoje.

Com base nas evidências internas, não podemos nem mesmo afirmar que os autores dos textos que compõem o Gênese eram monoteístas: por tudo que sabemos, estavam (tanto quanto Homero) tentando agradar e encantar leitores e ouvintes com histórias maravilhosas das origens de um povo e de seu deus, um deus entre tantos — um deus que, entre outras coisas, fala de si mesmo no plural e cujos filhos transam com as mulheres mortais.

Que seja o nosso mantra durante a leitura: os autores dos textos que, um dia, formariam o Gênese não sabiam que estavam escrevendo o primeiro livro da Bíblia.

Mais adiante, Auerbach compara o desenvolvimento dos personagens homéricos e bíblicos: enquanto os primeiros falam e agem mas permanecem iguais, os segundos realizam o que hoje chamaríamos de “arco narrativo”:

“[O]s próprios seres humanos dos relatos bíblicos são mais ricos em segundos planos do que os homéricos; eles têm mais profundidade quanto ao tempo, ao destino e à consciência. … [S]eus pensamentos e sentimentos têm mais camadas e são mais intrincados. O modo de agir de Abraão explica-se não só a partir daquilo que lhe acontece momentaneamente ou do seu caráter (como o de Aquiles por sua ousadia e orgulho, o de Ulisses por sua astúcia e prudente visão), mas a partir da sua história anterior. Ele se lembra, tem permanente consciência do que Deus lhe prometera e do que já cumprira … [É] impossível para as figuras homéricas, cujo destino está univocamente determinado, e que acordam todo dia como se fosse o primeiro, cair em situações internas tão problemáticas. As suas emoções são violentas, convenhamos, mas são também simples e irrompem de imediato. … Aquiles e Ulisses são descritos magnificamente, por meio de muitas e bem formadas palavras, carregam uma série de epitetos, suas emoções manifestam-se sem reservas nos seus discursos e gestos — mas eles não têm desenvolvimento algum e a história das suas vidas fica estabelecida univocamente. Os heróis homéricos estão tão pouco apresentados no seu desenvolvimento presente e passado que, na sua maioria — Nestor, Agamemnon, Aquiles — aparecem com uma idade pré-fixada. … Mas, que caminho, que destino se interpõe entre o Jacó que obteve ardilosamente a bênção do primogênito e o ancião cujo filho mais amado foi despedaçado por uma fera – entre Davi, o harpista, perseguido pelo ciúme do seu senhor, e o velho rei, circundado de intrigas apaixonadas, aquecido no seu leito por Abisai, a Sunamita, sem que ele a reconheça! … Humilhação e exaltação são muito mais profundas ou elevadas do que em Homero, e, fundamentalmente, andam sempre juntas. O pobre mendigo Ulisses não é senão um disfarce, mas Adão é real e totalmente expulso, Jacó é realmente um fugitivo e José é realmente lançado num poço e, mais tarde, realmente vendido como escravo. Mas a sua grandeza, que se eleva da própria humilhação, é próxima do sobre-humano e é, também, um reflexo da grandeza divina. … Abraão, Jacó ou Moisés, têm um efeito mais concreto próximo e histórico do que as figuras do mundo homérico, não por estarem melhor descritos plasticamente – pelo contrário – mas porque a variedade confusa, contraditória, rica em inibições dos acontecimentos internos e externos que a história autêntica mostra não está desbotada na sua representação, mas está ainda nitidamente conservada.”

Por fim, Auerbach compara o estilo de ambas as narrativas. Primeiro, sobre o homérico:

“Os poemas homéricos, cuja cultura sensorial, linguística e, sobretudo, sintática, parece ser tanto mais elaborada, são, contudo, na sua imagem do homem, relativamente simples; e também o são, em geral, na sua relação com a realidade da vida que descrevem. A alegria pela existência sensível é tudo para eles, e a sua mais alta intenção é apresentar-nos alegria. … Neste mundo “real”, existente por si mesmo, no qual somos introduzidos por encanto, não há tampouco outro conteúdo a não ser ele próprio; os poemas homéricos nada ocultam, neles não há nenhum ensinamento e nenhum segundo oculto. É possível analisar Homero, como o tentamos aqui, mas não é possível interpretá-lo. … [O] estilo homérico … só conhece o primeiro plano, só um presente uniformemente iluminado, uniformemente objetivo. … Homero … não conhece segundos planos. O que ele nos narra é sempre somente presente, e preenche completamente a cena e a consciência do leitor. … [O] impulso fundamental do estilo homérico [é] representar os fenômenos acabadamente, palpáveis e visíveis em todas as partes, claramente definidos em suas relações espaciais e temporais. O mesmo ocorre com os processos psicológicos: também deles nada deve ficar oculto ou inexpressivo. Sem reservas, bem dispostos até nos momentos de paixão, as personagens de Homero dão a conhecer o seu interior no seu discurso; o que não dizem aos outros, falam para si, de modo a que o leitor o saiba.”

Depois, aborda o estilo bíblico, comentando o quase sacrifício de Isaac no capítulo 22 do Gênese:

“[S]em interpolação alguma, em poucas orações principais, cuja ligação sintática é extremamente pobre, desenvolve-se a narração. Aqui seria impensável descrever um apetrecho que é utilizado, … são servos, burro, lenha e faca, e nada mais, sem epítetos; têm de cumprir a finalidade que Deus lhes indicara; o que mais eles são, foram ou serão permanece no escuro. Uma viagem é feita, pois Deus indicara o local onde se consumaria o sacrifício; mas nada é dito acerca dessa viagem, a não ser que durara três dias, e mesmo isso é expresso de forma enigmática. … [A] viagem é como um silencioso andar através do indeterminado e do provisório, uma contenção do fôlego, um acontecimento que não tem presente e que está alojado entre o que passou e o que vai acontecer, como uma duração não preenchida. … [Isaac] pode ser belo ou feio, inteligente ou tolo, alto ou baixo, atraente ou repulsivo – nada disto é dito. Só aquilo que deve ser conhecido … para salientar quão terrível é a tentação de Abraão, e quão consciente é Deus desse fato. … No relato bíblico também se fala; mas o discurso não tem, como em Homero, a função de manifestar ou exteriorizar pensamentos. Antes pelo contrário: tem a intenção de aludir a algo implícito, que permanece inexpressão. Deus dá a sua ordem e discurso direto, mas cala seus motivos e intenções. … A conversa entre Abraão e Isaac no caminho ao local do sacrifício não é senão uma interrupção do pesado silêncio, e serve apenas para torná-lo mais opressivo.”

Por fim, Auerbach fecha o primeiro capítulo comparando ambos:

“Não é fácil, portanto, imaginar contrastes de estilo mais marcantes do que estes, que pertencem a textos igualmente antigos e épicos. De um lado, fenômenos acabados, uniformemente iluminados, definidos temporal e espacialmente, ligados entre si, sem interstícios, num primeiro plano; pensamentos e sentimentos expressos; acontecimentos que se desenvolvem com muito vagar e pouca tensão. Do outro lado, só é acabado formalmente aquilo que nas manifestações interessa à meta da ação; o restante fica na escuridão. Os pontos culminantes e decisivos para a ação são os únicos a serem salientados; o que há entre eles é inconsistente; tempo e espaço são indefinidos e precisam de interpretação; os pensamentos e os sentimentos permanecem inexpressos: só são sugeridos pelo silêncio e por discursos fragmentários. O todo, dirigido com máxima e ininterrupta tensão para um destino e, por isso mesmo, muito mais unitário, permanece enigmático e carregado de segundos planos. … Comparamos os dois textos e, ao mesmo tempo, os dois estilos que encarnam, para obter um ponto de partida para os nossos ensaios sobre a representação literária da realidade na cultura europeia. Os dois estilos representam, na sua oposição, tipos básicos: por um lado, descrição modeladora, iluminação uniforme, ligação sem interstícios, locução livre, predominância do primeiro plano, univocidade, limitação quanto ao desenvolvimento histórico e quanto ao humanamente problemático; por outro lado, realce de certas partes e escurecimento de outras, falta de conexão, efeito sugestivo do tácito, multiplicidade de planos, multivocidade e necessidade de interpretação do devir histórico e aprofundamento do problemático.”

Li o primeiro capítulo de Mímesis e, por causa dele, logo na sequência, li a Bíblia de cabo a rabo, e, depois, reli a Ilíada, com novos olhos. Hoje, são dois dos meus três livros preferidos — o outro é o Declínio e Queda do Império Romano, que leremos na terceira aula. Minha dívida com Auerbach é impagável. Sem Mímesis, não haveria nem esse curso. Obrigado, Erich.

(Referência: Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a primeira aula, Antigo Testamento, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Auerbach sobre a Bíblia e Homero: como representar a realidade é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 26 de junho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/auerbach-biblia-e-homero // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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