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elogio aos cães

nossa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, atemporal e transcultural: o cão.

os cães foram criados pela humanidade, à nossa imagem e semelhança, tão variados entre si como são variadas as pessoas humanas e suas sociedades.

e são talvez nossa melhor, mais nobre criação.

se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.

se sumíssemos todas as pessoas, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.

só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.

trilhos do trem em nova orleans

oliver nos trilhos do trem, em nova orleans.

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“eu sou a lenda“, com will smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.

sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos – como tem de ser, em perfeita sintonia.

é a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?

resgata pós-katrina (2)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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algumas pessoas gostam de se perguntar: “o que jesus faria numa hora dessas?”

eu sempre me pergunto: “o que meu cachorro faria numa hora dessas?”

meu cão, oliver, foi encontrado na favela de rio das pedras em março de 2003. estamos juntos há quase doze anos. enfrentamos o furacão katrina. atravessamos os eua fugindo do furacão gustav. Viajamos o mundo, de carro e barco, trem e avião. vivemos aventuras mais inacreditáveis que tintim e milu. ao longo desses doze anos de vida pública na internet, esse cachorro sem-vergonha amealhou uma legião de fãs.

tantos cachorros se traumatizaram com o katrina, mas oliver continuou tranquilo. adora crianças e tem infinita paciência com tapas na cara e puxadas de bigode. anda pela rua olhando pra cima, fazendo contato visual com todas as pessoas. Éé amigo de todos os cachorros que encontra. não possui objetos que defende com rosnados possessivos. recebe bem todas os muitos invasores em potencial que aparecem na minha casa.

é um cachorro do bem.

oliver & alex na rede

ler na rede com o oliver, minha coisa preferida da  vida.

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sempre que a vida fica pesada, confusa, complicada, eu tento me colocar no lugar do oliver. ver o mundo através das suas prioridades.

o oliver não liga pra dinheiro, prestígio, fama, respeito, vaidade. não tem medo da morte. não fica se admirando no espelho. não deixa seus fãs lhe subirem à cabeça. não tem apego a nenhum objeto. não faz ego search no twitter.

o oliver gosta de comer e de beber. de transar e de lamber pé. de correr e de brincar. de ficar imóvel ao sol por horas a fio. de entrar pulando no mar. de deitar juntinho de quem ele gosta. de seduzir as pessoas com seu olhar doce e sacana.

não é um cachorro perfeito, claro. tem medo de fogos de artifício, não gosta de motoqueiros e, mais do que tudo, não suporta não ser o centro das atenções.

na televisão

estrela da televisão.

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pratico zen.

todo dia, no templo ou em casa, sento em uma almofada redonda e fico voltado para a parede, imóvel, por muitos minutos.

em nova orleans, em uma casa de vários quartos, eu me fechava em um dos aposentos vazios. agora, em copacabana, moro em um quitinete de um só ambiente.

medito junto com o oliver. e ele não tolera. como assim eu não vou dar atenção para ele? nada disso.

oliver rosna. oliver grita. oliver puxa a minha camisa. oliver lambe a minha cara.

e fico lá, imóvel, não coçando a coceira, lembrando as últimas palavras do mestre hakuin:

“meditar no meio da ação é milhões de vezes superior a meditar em meio à placidez.”

obrigado, oliver.

aturando crianças

aturando uma criancinha com toda a paciência do mundo. :)

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perdi minhas maiores batalhas. tentei ser empresário e quebrei. tentei salvar meu casamento e falhei. ainda tento ter uma carreira literária e nada.

e, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de detroit, véspera do katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.

nada nunca chegou perto do que senti essa noite.

na neve em nova orleans

na neve, em nova orleans.

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oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. está comigo há 12 anos e já era adulto quando nos conhecemos.

na semana passada, ele chegou na veterinária com uma leve anemia e uma pequena infecção, mas foi tratado por uma semana inteira… para dor nas costas. e sempre piorando! resultado: uma semana depois, a anemia e a infecção estavam descontroladas!

quarta de manhã, quando o levei em outro veterinário, não conseguia nem ficar de pé.

estava com uma infecção, forte anemia, plaquetas baixíssimas, um terço do volume de sangue.

na quinta, teve quase todo o seu sangue trocado pelo de uma rotweiler fêmea de três anos chamada bones.

depois da dose maciça de sangue de rotweiler, ele já está querendo enfrentar um novo furacão.

agora, vai se recuperando mas ainda está internado.

internado (2)

internado, dezembro de 2014.

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não quero que o oliver viva pra sempre, nem vou tentar estender a existência dele além da sua qualidade de vida. só o que quero mesmo é poder passar 2015 grudado nele, me despedindo, curtindo, e compensando as muitas viagens que fiz em 2013 e 2014.

e ainda existem outras questões. em um mundo tão desigual, com tantas crianças passando fome, o quão ético é gastar fortunas para salvar a vida de um cachorro idoso, especialmente um que já viveu mais aventuras e já viu mais do mundo do que a maioria dos cachorros?

não tenho uma resposta para essa questão, mas estou com ela sempre em mente.

a conta das últimas duas semanas está em quatro mil reais e, se não fossem as pessoas que estão me ajudando financeiramente, não sei onde eu estaria.

mas… qual é o limite?

(aliás, muito, muito obrigado mesmo a todo mundo que ajudou. para ajudar também, clique aqui.)

internado (1)

internado, dezembro de 2014.

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ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.

ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.

e ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.

nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: dolly, 1977-1989, júnior, 1990-1992, átila, 1993-2002. oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o lll, o blog que mudou minha vida. simbólico?

átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. não o deixamos sozinho nem por um instante. quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. no dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: “canto do átila”.

nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.

quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.

quem me dera ter uma pessoa querida para cuidar dele com amor e carinho depois disso.

internado (3)

internado, dezembro de 2014

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odeio textos piegas. escrevo muitos. quase sempre, tenho a sabedoria de não mostrá-los a ninguém. com uma exceção: textos piegas sobre cachorros. quando falo de cachorros, eu viro uma manteiga derretida sem vergonha alguma.

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mais fotos

resgata pós-katrina (4)

resgata pós-katrina (3)

resgata pós-katrina (1)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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rapper

rapper.

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pronto para a viagem

embarcando.

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por do sol

pôr-do-sol.

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papo reto

papo reto.

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oliver & co em são francisco

oliver & co, em são francisco.

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observando as ruas de nova orleans

observando as ruas de nova orleans.

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no seu puff

no seu puff preferido, na casa da sônia.

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no metrô do rio de janeiro

no metrô do rio de janeiro.

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natalino

ho-ho-ho!

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lendo mulher de um homem só

no lançamento de mulher de um homem só.

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lagoas da barra da tijuca

lagoas da barra da tijuca.

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grafitti pós-katrina em nova orleans

grafitti pós-katrina em nova orleans.

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enxerido

enxerido.

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em ubatuba

em ubatuba.

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em paraty

em paraty.

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close up

tímido.

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chegando em nova iorque durante furacão gustav

em newark, new jersey, chegando em nova iorque, fugindo do furacão gustav.

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caminha bang & olufsen

ninguém acredita quando digo que o oliver já teve uma cama bang & olufsen.

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remando com o oliver na baía de guanabara

remando na baía de guanabara.

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oliver faleceu no dia 17 de dezembro de 2014.

8 respostas em “elogio aos cães”

Nunca li texto mais lindo sobre cachorros, esses filhos que nos trazem tanta alegria rs. Amei e parabéns :) <3

Que texto lindo!! Sou extremamente apaixonada por cachorros e assim como voce, ja perdi alguns amigos. Hoje tenho dois, sao jovens, mas so de imaginar em perde-los, fico sem saber o que fazer. Linda historia do Oliver. Foi um grande heroi.

Lindo demais o texto…chorando horrores pensando no meu pequeno…ahhhh que dias difíceis nunca cheguem para essas fofuras!

Lindo Alex, me animou de novo a ter outro cachorro, depois de algumas histórias de perda de alguns que foram muito sofridas, esses bichinhos são puro amor e afeto.

alex,

achei simplesmente maravilhoso esse texto. tive diversas reações enquanto lia: risada, angústia, choro…

obrigada por compartilhar!
lindo demais

Emocionada ao ler esta sua homenagem ao Oliver.
Tenho uma Juju com mais de 15 anos que nos tem ensinado muita coisa.
Concordo com você:
“se sumíssemos todas as pessoas, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.”

abs

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