paradoxo de narciso

quando eu era mais jovem, eu me achava especial. que tinha um destino. que realizaria grandes feitos.

os anos passaram, a vida aconteceu, e me dei conta que eu era apenas mais um bichinho sem alma, nessa pedra girando pelo espaço, sem nada que me distinguisse.

narciso.

entretanto, em nossa época narcisista, cercado de pessoas que se acham a última coca-cola do deserto, cada um protagonista do filme da sua vida, todos brigando por mais amigos no facebook, me dei conta que nada pode ser mais especial do que alguém que sabe sinceramente que é apenas mais um.

* * *

a coisa mais difícil de exercer a arte em público é não deixar os elogios subirem à cabeça. é preciso encarar com naturalidade o fato de as pessoas gostarem da sua arte e, ocasionalmente, terem suas vidas mudadas por ela, sem que isso queira dizer que o artista é mais importante do que o bombeiro hidráulico que lhes possibilita uma boa descarga na privada. elogios são como o meu cachimbo: só fazem mal se você tragar.

§ 19 respostas para paradoxo de narciso

  • […] não sei o que está acontecendo na líbia // zazen // uma caneca // somos todos fingidores // paradoxo de narciso // cajuína // o mal é a falta de atenção // a solidão de […]

  • tamara disse:

    nem melhor
    nem pior
    apenas diferente
    q:)

  • Maria de Fatima Rozadas disse:

    Sinceramente, acho que está todo mundo blefando. A gente se acha sim melhor (não que todos, seria muita pretensão) que alguns ou muitos. A teoria é muito, muito diferente da realidade.

  • […] vaidade do artista Quando começa a carreira de um artista? Vida de artista Paradoxo de narciso O sonho dos meus doze […]

  • […] paradoxo de narciso – do Alex Castro (a minha maior treta de inveja textual é com esse caboclo em específico, aliás) […]

  • priscila disse:

    gosto do teu texto porque, como narcisista que sou, me sinto refletida. pois mesmo no momento em que me percebi só mais uma na multidão, e tive consciência de minha mediocridade, passei a sentir-me num patamar superior àqueles que se entendem especialmente inteligentes. bobos. daí a conclusão de que não se cura o narcisismo, apenas controla-se, ou esconde-se.

  • Erly disse:

    Muito boa pontuação. Aliás, excelente. Ser um a mais, entretanto, não é o mesmo que ser mais um. ;)

  • Júlia disse:

    Até que percebemos que somos só mais um “saco de células”

  • s. disse:

    Putz, a Fernanda disse tudo. Ler seus textos, o CMS e correlatos é uma forma de sentir que o sentimento às vezes frustrado e frustrante de ser somente mais uma não é só nosso – e subvertê-lo em orgulho compartilhado! Até nisso somos egoístas, rs – por que só eu é que não sou a última coca-cola do deserto?

    “nada pode ser mais especial do que alguém que sabe sinceramente que é apenas mais um” – genial.

    Aceite todos os elogios, porque você merece.

  • Alexander Avlis disse:

    No making off do DVD de comemoração dos 25 anos de carreira de Oswaldo Montenegro ele diz que o artista deve ter em mente que ele não é tão ruim quanto diz a critica e muito menos tão bom quantos seus fãs falam. Você é um entre muitos.

  • Adrienne Nascimento disse:

    A disposição em melhorar, em lutar contra essas coisas ruins inerentes ao ser humano já é um grande sucesso. Sinal que, pelo menos, se admite o prejuízo que isso traz. Como diz o meu professor, Sérgio Freire, “a vaidade é tão corrosiva… pro vaidoso.”

    Beijo, Alex!

  • Marina disse:

    Pois é. Quando eu era mais jovem, achava que teria um futuro brilhante e que conseguiria tudo que eu sonhasse. Culpa daqueles filmes americanos que eu assistia, em que a mocinha, no final, estava muito longe da decepção, da amargura e da mediocridade. Que saudade da adolescência, quando tudo parecia ser possível!

  • Fernanda disse:

    Pois é, Alex, é importante “não deixar subir a cabeça”. O que não significa que ser apenas mais um não tenha também sua magia, dentro das microengrenagens que pulsam nessa pedra gigante.
    Digo isso porque consumi ferozmente todo o seu ensaio sobre o privilégio assim que voltei de Cuba, o que foi essencial para amenizar o baque. Isso, aliado a seus textos no blog, ao CMS e à sua obra, enfim, me proporciona uma alegria profunda: a sensação de não estar sozinha. Ser apenas mais uma, mas ser também mais que uma. Somos formiguinhas, sim, e axé por isso, mas eu sempre pensei que o “organismo” formiga é o formigueiro.
    Então trague, engula e digira (qual é o imperativo de digerir?) os meus elogios, que são permanentes.

    PS. Não ignoro o narcisismo inerente a eu estar elogiando quem supostamente vê o mundo como eu. A diferença é que eu não consigo expressar isso como você. Dá uma puta inveja.

  • Timidez inconstante disse:

    Estou tentando aprender isso. Difícil pacas D:

  • Marcelo disse:

    Ou seja, todos têm valor, cada um com o seu, sem se achar melhor que o outro. Niguém é melhor que ninguém!

  • alex castro disse:

    mariana, mas é dificil, viu? é uma luta diária.

  • Mariana disse:

    Pois eu sempre digo isso. Um músico não é mais importante que um padeiro. Mas assim eles se acham. Fico pensando que muitos do que se dizem artistas não perceberam que na arte se destrói o ego. Eles a usam para serem deuses, e alimenta-lo…

  • marcos nunes disse:

    Normalmente o elogio é uma arma apontada para aquele de quem se espera o retorno do elogio ou a vida; um tipo de narciscismo baseado no livre comércio de congratulações.

  • Karina disse:

    Todo ofício é uma forma de arte, se assim entende o artista.

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