A escolha de ser artista

Fez diferença? Valeu a pena? Alguém percebeu?

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Hoje, completo 44 anos.

A maioria das pessoas artistas que admiro começou nessa idade a fazer o seu melhor trabalho, o trabalho que passaram suas vidas inteiras se preparando para fazer, o trabalho que legaram para nós como sua maior dádiva.

Os dois artistas que mais admiro no mundo morreram aos 44, no auge de seus poderes, e sabe-se lá o que teriam nos presenteado se tivessem tido mais alguns anos.

Meu compromisso: terminar O livro das prisões ainda aos 44, antes de completar 45.

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Em 2016, celebrei meu aniversário de 42 na Feira Internacional do Livro de Matanzas, Cuba, divulgando meu livro Autobiografia do Poeta-Escravo. Passei um mês cercado de artistas fecundas e talentosas, que produzem arte vibrante e política, subversiva e chocante, com limitações materiais que nós, pessoas brasileiras de classe média, mal podemos conceber.

Compartilhei um quarto com Armando Morales, 76 anos, uma vida inteira dedicada aos fantoches e aos marionetes; uma pessoa que viajou o mundo exercendo e ensinado sua arte; que todo ano sobe a Sierra Maestra e se apresenta para as populações mais pobres, afastadas e sem acesso ao teatro de Cuba; um homem que você percebe que é um grande artista só pelo jeito como fala, anda, observa.

Conviver com Armando e seus bonecos, em Matanzas, teve o mesmo efeito em mim que conviver com Zé Celso Martínez Correa, em Nova Orleans: me senti pequeno e grande; pequeno, pelo tão pouco que produzi e criei em comparação a eles; grande, por tudo o que me inspiraram para criar e produzir.

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Um amigo uma vez comentou:

“Alex, é impressionante o quanto você trabalha pra não ter que trabalhar! Não era mais fácil simplesmente arrumar um emprego?”

Provavelmente, sim.

Mas quem disse que tenho escolha?

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Um estudo norte-americano mediu a felicidade de pessoas universitárias durante a faculdade e dez anos depois. Uma das conclusões é algo que não surpreenderia nenhum ator de teatro alternativo: as pessoas mais infelizes eram as que tinham como objetivo ser artistas e não tinham conseguido. (Está aqui, busquem por “receita da tristeza”.)

Uma pessoa que quer ser médica ou economista, contadora ou engenheira, e estuda e pratica, trabalha duro e faz tudo certinho, talvez não se torne a melhor ou a mais bem-sucedida, mas conseguirá ganhar seu sustento, a vida inteira, como médica ou economista, contadora ou engenheira.

(Nenhuma crítica a essas profissões: eu não quero ser engenheiro ou médico, mas fico feliz que muita gente queira. Se todas as pessoas fossem como eu, estaríamos vivendo em cavernas, contando histórias umas para as outras e morrendo de velhice aos 35.)

Mas… uma pessoa que quer ser escritora ou escultora, poetisa ou pintora, e estuda e pratica, trabalha duro e faz tudo certinho, pode bem ser que simplesmente nunca consiga ganhar seu sustento como escritora ou escultora, poetisa ou pintora.

Como disse Nelson Rodrigues:

“Sem o sorte, o camarada não consegue nem chupar um Chicabon”.

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Quando me pedem para dar conselhos a jovens artistas, minha única sugestão é:

Se puder escolher não ser artista, não seja.

Porque se é concebível para você não ser artista, se lhe é igualmente desejável ser violinista ou veterinária, então, talvez até você escolha ser violinista hoje, mas aí, a medida em que as desilusões e os fracassos forem se acumulando, vai acabar des-escolhendo ser violinista e escolhendo ser veterinária.

Aí, de fato, terá jogado fora os anos em que passou dando murro em ponta de faca até, enfim, desistir. Era melhor ter sido logo veterinária desde o começo: muitos gatinhos teriam sido salvos e você estaria melhor alimentada.

A artista é aquela pessoa que sofre todas essas desilusões e fracassos, mas não vai embora porque é uma infeliz que não tem para onde ir, porque sua vida só é concebível se for assim.

Então, ela ou enlouquece e se mata, ou transforma essas desilusões e fracassos em arte.

Ou ambos.

Uma vida como essa só é viável para quem não tem escolha.

Então, volto ao meu conselho inicial:

Se você puder escolher não ser artista, não seja.

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É fácil admirar as grandes artistas, como Armando Morales.

As grandes artistas recebem feedback positivo do mundo, seja em um conforto material um pouquinho maior, seja apenas naquelas massagens de ego que toda artista precisa para não achar que jogou a sua vida fora.

Mas toda cidade deveria ter um monumento à “artista medíocre desconhecida”.

Como não admirar a atriz de teatro alternativo que consegue continuar perseverando nos palcos… apesar de nunca ter sido protagonista? De nunca ter recebido uma resenha elogiosa? De mal ganhar o suficiente para a subsistência?

Uma andorinha só não faz verão e um Machado de Assis só não faz sistema literário.

Um Dom Casmurro não surge por geração espontânea: sem um número mínimo de autores, poetas, dramaturgos, mesmo se forem medíocres, talvez especialmente se forem medíocres, ninguém poderia escrever a história de Bentinho e Capitu.

Então, talvez as verdadeiras heroínas da arte sejam justamente as artistas medíocres que sacrificam tudo, suas vidas e seu conforto, sem ganhar nem dinheiro nem reconhecimento, somente para criar as condições materiais para que grandes obras artísticas possam surgir.

Quem sabe, toda a minha produção se justifique não por si mesma, não por sua pretensa qualidade, mas talvez porque, irritada com alguma besteira que escrevi, uma grande artista, dotada de um talento que nunca terei, escreva a grande obra da literatura brasileira do século XXI.

Afinal, como sabe nossa atriz medíocre, “segundo soldado” é um papel pequeno mas necessário.

Nem todo mundo pode ser Hamlet.

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Na noite escura da alma, quando são sempre três da manhã, toda artista já questionou o valor daquilo que produziu:

Valeu a pena passar necessidade, não formar família, viver na corda bamba… só para ter atuado nessas peças, escrito esses livros, esculpido essas figuras?

Fez diferença? Alguém percebeu?

Ou será que joguei minha vida fora por nada?

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Aos meus santos protetores, São Kafka e São Tchecov, só tenho esse pedido:

Dentre tantas e tantas maneiras tentadoras de se vender, algumas mais sutis e outras mais radicais, algumas mais políticas e outras mais comerciais, que eu consiga chegar à idade de Armando Morales sem ter me vendido.

Evoé.

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Se alguma vez te toquei…

Se abri seus olhos para ver o que antes não via…

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É disso que eu vivo. e preciso de você.

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