“e pelos coxinhas, ninguém tem empatia?”

um leitor pergunta, em tom de desafio:

“e pelos coxinhas, ninguém tem empatia?”

mas toda nossa sociedade já foi construída e é mantida como um imenso mecanismo para “ter empatia”, ou seja, para passar a mão na cabeça das pessoas privilegiadas.

o policial que “tem empatia” e quer ajudar a pobre loira branca que sofreu uma violência… ignora a cidadã negra favelada que tentou dar queixa da mesma violência.

o médico que “tem empatia” pela dor das pessoas brancas… dá menos anestesia para as pessoas negras.

nos escritórios, há muita “empatia” pelos pobres homens calorentos vestindo terno e nenhuma pelas mulheres friorentas de perna de fora. etc etc.

os exemplos poderiam continuar ao infinito.

então, não.

não são as pessoas privilegiadas que devem levantar os braços e pedir:

“poxa, e pra mim, não tem empatia?”

pelo contrário, são os homens que têm que ter empatia pelos problemas das mulheres, são as pessoas brancas que têm que ter empatia pelos problemas das pessoas negras, são as pessoas que moram em apartamentos de três quartos no eixo morumbi-leblon que têm que ter empatia pelas pessoas que precisam de bolsa-família para sobreviver.

meu trabalho é ensinar as pessoas privilegiadas a terem mais empatia pelas menos privilegiadas, e não a dominarem um novo vocabulário para exigir ainda mais privilégios:

“poxa, pelos empresários ninguém têm empatia, né?”

* * *

esse é o tema principal do meu livro outrofobia: textos militantes. se o assunto te interessa, experimente ler.

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