Faltiel, filho de Laís, marido de Micol

A Bíblia é meu livro preferido. A história de Faltiel é um dos motivos.

* * *

O contexto

Davi era casado com a princesa Micol, filha do rei Saul. Quando Davi entra em conflito com o rei e foge do país, Saul anula o casamento e dá sua filha a outro. Agora, com o rei Saul morto, Davi volta ao reino e reclama não apenas o trono como sua antiga esposa, a princesa. O rei Isbaal, filho de Saul, e o general Abner, ex-comandante em chefe das tropas de Saul, como gesto de boa-fé à Davi, aceitam essa condição.

Mas tinha um probleminha.

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A história

“Então Isbaal mandou tirar Micol de seu marido Faltiel, filho de Laís. Faltiel a seguiu até a cidade de Baurim, chorando atrás dela. Abner lhe disse:

— Vamos, volta!

Ele voltou.”

(2sm 3, 15-16, tradução da Bíblia do Peregrino.)

* * *

Faltiel, nunca antes mencionado, nunca depois mencionado, só existe para nós nesse brevíssimo momento de intensa dor, tendo sua vida doméstica e pessoal destroçada por complexas negociações geopolíticas tão maiores que ele.

Enquanto sua esposa vai se afastando pelo caminho, certamente escoltada pelas tropas do velho rei Saul e do novo rei Davi, Faltiel, impotente, sem saber o que mais fazer, vai atrás dela pela estrada, chorando.

Para o rei Davi, para o rei Isbaal, para o general Abner, grandes homens, reis e generais, Micol não era uma pessoa: ela era apenas uma peça em um complexo tabuleiro geopolítico.

Para Faltiel (o que fazia? qual era sua profissão? não sabemos), sua esposa claramente não era apenas um objeto, uma posse, uma negociação.

Por fim, só quando ordenado pelo comandante-em-chefe do exército, com toda a ameaça mortal implícita em uma ordem como essa, Faltiel desiste, volta, some.

A Bíblia, sempre maravilhosamente elíptica (sua maior qualidade literária) nos dá apenas esse breve relance e mais nada: em um piscar de olhos, deixamos Faltiel ali na estrada, sozinho, chorando, e retornamos à grande narrativa cósmica da aliança de um Deus onipotente com seu povo escolhido.

E Faltiel que se foda, coitado.

* * *

É um momento tão forte, tão aleatório, tão bonito, tão humano, tão patético, que rompe todas as definições de gênero literário. Afinal, o texto que estamos lendo é história ou ficção? Parábola ou crônica? Por que incluir essa anedota? O que ela acrescenta ao objetivo teológico ou mesmo literário do livro?

Será que é tão, mas tão aleatória que só pode ser verdade? Ou será, pelo contrário, que indica a mão de uma ficcionista magistral?

A Bíblia é o meu livro preferido, entre outras coisas, por ter centenas desses pequenos momentos ó-tão-humanos, ó-tão-reais, salpicados em suas tramas ó-tão-cósmicas de reis poderosos e deuses onipotentes.

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