O que merecem as pessoas mentirosas?

Se só as pessoas que não mentem merecessem ajuda… quem sobraria?

* * *

Saída do metrô. A velhinha me aborda, conta uma história longa, triste e complexa, e pede ajuda. Eu lhe dou cinco reais.

Quando se afasta, outra velhinha se aproxima:

“Ih, essa aí não precisa de ajuda, não, moço. Todo dia tá aqui inventando uma história diferente: hoje, matou o avó, ontem, internou o filho, amanhã, perdeu a passagem. É mó cambalacheira!”

A nossa volta, vários dos ambulantes concordam com a cabeça, fazendo cara de indignação:

“É isso mesmo. A gente tenta avisar as pessoas mas ninguém nos escuta!”

Agradeço o carinho do aviso e vou embora. Não explico nada por sentir que não me entenderiam.

Para mim, o desespero de ter falecido o avó, internado o filho ou perdido a passagem e o desespero que leva uma pessoa idosa a ficar na rua inventando tragédias para receber esmola são ambos igualmente merecedores de carinho e generosidade.

Qualquer pessoa que passe o dia inteiro pedindo esmola precisa de ajuda.

Diante da grandeza desse fato, a veracidade ou não da história que ela escolhe me contar é um detalhe completamente irrelevante: mesmo se calhar de ser mentira, com certeza existe uma história triste verdadeira que lhe fez estar ali, no fim da vida, contando mentiras e pedindo esmolas na porta do metrô.

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Devemos dar dinheiro às pessoas pedintes?

Antigamente, eu não dava. Coberto de razão, dono da verdade, eu tinha uma série de racionalizações na ponta da língua para justificar meu egoísmo:

“Vocês não entendem que não estão ajudando essas pessoas? Dar dinheiro é um paliativo que não interfere nas estruturas causando esse fenômeno!” Blá, blá, blá.

Hoje em dia, sigo o conselho do Papa e já saio na rua com o bolso cheio de trocados, para dar para quem pedir e para quem não pedir.

Sim, dar esmola não vai resolver nada. Mas alguma coisa individual que eu possa fazer vai resolver qualquer coisa? Tenho eu, aqui, o pequenino eu, o poder de resolver qualquer uma dessas gigantescas macroquestões?

Mas sei que tenho o poder de ajudar essa pessoa, concreta e inescapável, aqui, na minha frente, nem que seja apenas, vá lá, uma ajuda mínima, pequena, paliativa, que não resolve nada.

Não só dinheiro: posso tentar ajudá-la a recuperar, confirmar, praticar sua humanidade. Posso olhar em seus olhos e encostar em sua mão, perguntar seu nome e querer saber de sua vida.

E assim recupero, confirmo, pratico também a minha própria humanidade, que, coitadinha!, andava tão enferrujada.

* * *

Mentirosos merecem nossa ajuda?

Se só pessoas que não mentem sobre si mesmas merecessem ser ouvidas e acolhidas, abraçadas e ajudadas, então, não sobraria ninguém.

Às vezes, nos encontros As Prisões: Exercícios de Atenção, uma pessoa participante vem me questionar a veracidade da história de outra:

— Alex, você acreditou nisso que Fulana contou?

— Não.

— Arrá! Pois é, duvido que isso tenha acontecido desse jeito!

— Bem, não duvidei da história dela em momento algum.

— Ué, não foi isso que você disse?

— Eu não acreditei na história dela, mas também não duvidei. Não reconheci como verdade, nem rejeitei como mentira. Não imponho a mim mesmo o ônus de me posicionar criticamente em relação à veracidade das histórias que escuto.

“Aceito que, naquele momento, aquela foi a história que aquela pessoa escolheu contar, conseguiu contar. Se eu quiser ajudá-la, e estou lá pra isso, aquela história é o material que tenho para trabalhar. A veracidade dos fatos da história é completamente irrelevante.

“Vivemos e morremos pelas narrativas que criamos. Somos seres que projetam sentido em tudo. Quem sou eu para interditar a narrativa de uma pessoa sobre si mesma?

“Se só pessoas que não mentem sobre si mesmas merecessem ser ouvidas e acolhidas, abraçadas e ajudadas, então, acho que sobraria só você.”

* * *

Somos todas autoras de ficção

Sou um autor de ficção, escrevendo textos de ficção. Toda e qualquer anedota aparentemente autobiográfica nos meus textos foi inventada por mim, para fortalecer ou ilustrar um argumento, e não possui relação alguma com a realidade. A verdade raramente é verossímil: quanto mais verdadeiras parecerem as histórias, mais mentirosas serão. Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira. Algumas que digo que aconteceram comigo na verdade aconteceram com outras pessoas. Algumas que digo que aconteceram com outras pessoas na verdade aconteceram comigo. Para evitar que meus textos se tornassem relatos egocêntricos da minha vida, todas as anedotas autobiográficas são consistentemente contraditórias, apenas acessórios a serviço de algum argumento sendo desenvolvido.

O que importa são as ideias sendo expostas, não a pessoa que as está expondo. Você, a pessoa destinatária, é muito mais importante do que eu, a remetente. É você que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. Esse livro diz o que você disser que ele disse.

Mas a ficção serve, entre outras coisas, para mostrar às pessoas leitoras que tudo é ficção. A verdade não existe. Tem coisa mais ficcional do que o telejornal da noite, do que um livro de História do Brasil, do que uma biografia de celebridade? É tudo mentira. Tudo. O tempo todo. Especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

Qualquer informação que você obtenha de mim deve ser conferida em uma fonte independente antes de ser passada adiante. Então, quando aprender a fazer isso comigo, passe a fazer isso com todas as informações que receber de qualquer pessoa. Porque, no fundo, na prática, estamos todas imersas em nossas pequenas realidades, inventando que somos aquilo que nunca seremos, criando narrativas com base em nossas esperanças e preconceitos. Somos todas autoras de ficção.

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