Eclesiástico, de Jesus ben Sirá

“O que sabe aquele que não foi tentado?”

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O Eclesiástico é o livro mais recente do Antigo Testamento e o único cujo autor conhecemos. Ele foi escrito pelo sábio e escriba Jesus ben Sirá, por volta de 180 antes da Era Comum, em hebraico e provavelmente em Jerusalém.

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Gênero do Eclesiástico

Assim como os livros da Sabedoria e Provérbios, o Eclesiástico não tem uma narrativa com começo, meio e fim e se apresenta como uma coleção de frases, ensinamentos e máximas.

Era um tipo de literatura conhecida como “sapiencial”, ou seja, relativa à sabedoria.

São considerados “livros sapienciais”: e Eclesiastes (talvez os dois cumes da literatura hebraica), as três coletâneas já citadas (Sabedoria, Provérbios, Eclesiástico) e, talvez por falta de classificação melhor, os Salmos e o Cântico dos Cânticos (sobre o qual já escrevi).

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História do Eclesiástico

Escrito em hebraico por um sábio judeu, ele foi muito popular nos meios judaicos, mas nunca foi canonizado (ou seja, considerado sagrado) pelo Judaísmo. Então, seu destino foi o de muitos livros: ficou em uso algum tempo (era muito citado e comentado por sábios judeus até o século 12) e, depois, foi esquecido. O original hebraico se perdeu. Nos séculos 19 e 20, foram encontrados diversos manuscritos parciais desse original e, hoje, contamos com 2/3 do seu texto.

Algumas décadas depois de escrito, porém, ele foi traduzido para o grego por seu neto, um judeu que morava no Egito, para consumo da comunidade judaica local. Foi essa versão que chegou até nós. Além disso, também houve inúmeras outras traduções comentadas do livro, para o latim e para o siríaco, comprovando sua popularidade.

O livro é conhecido por vários títulos. Na tradição rabínica, como O livro de ben Sira. Em algumas tradições cristãs, como O livro da sabedoria de Jesus ben Sirac. Na tradição católica, mais comum no Brasil, Eclesiástico, nome que provém do latim e atesta o seu uso e popularidade: ecclesia significa igreja, ou seja, o texto era usado na Igreja, durante as missas e liturgias.

Durante 1500 anos, foi considerado sagrado e canônico pela Igreja Católica. Durante a Reforma Protestante, porém, houve um movimento de limitar o Antigo Testamento a somente os livros considerados canônicos pelos próprios judeus. Por isso, as bíblias protestantes não trazem o Eclesiástico – e nem Tobias, Judite, Sabedoria, Macabeus, etc.

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“Se o leão morde o domador, quem sente pena?”

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Misógino e escravista, generoso e igualitário

É um dos livros mais práticos de toda a Bíblia, com regras de conduta pessoal e moral que não necessariamente dependem de um contexto religioso ou mesmo de fé em Deus.

Para nós, hoje, pessoas leitoras ocidentais e não necessariamente cristãs, seu legado é bastante controverso.

Por um lado, é talvez o livro mais misógino da Bíblia (uma briga de cachorro grande), com capítulos e mais capítulos explicitamente antimulher. Não tive estômago de citar nenhum. Confiram 25, 13-26, 18.

Além disso, também oferece as mais radicais e explícitas defesas da escravidão, versículos que seguramente serviram para justificar muitos crimes em nosso triste país escravista. (Exemplos abaixo.)

Por outro lado, na mesma linha dos textos proféticos, o Eclesiástico enfatiza e promove, recomenda e impõe, a obrigação de lutar por mais justiça social e de praticar a generosidade com as pessoas mais pobres e vulneráveis. (Menos mulheres e escravos!) Um de seus trechos mais belos é um poema de louvor aos trabalhadores manuais, citado abaixo.

Finalmente, ao enfatizar que Deus deu ao homem a inteligência para entender a natureza e que ele seria tolo de não utilizá-la, o Eclesiástico forneceu o melhor argumento bíblico para possibilitar e justificar as ciências naturais.

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Abaixo, alguns trechos comentados. Usei a Bíblia de Jerusalém (BJ), a do Peregrino (BP) e a espanhola Traduccion en lenguaje actual (TLA), com adaptações minhas.

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O valor da tentação
(34, 9-10)

Em 2017, meu livro do ano foi a Noite Escura, de João da Cruz, que eu li e reli e me chacoalhou. (Meu texto sobre esse livro.) A frase abaixo, que ele cita no capítulo XIV da primeira parte, foi o que me fez querer, finalmente, ler o Eclesiástico, um dos poucos livros da Bíblia que eu ainda não tinha lido. O interessante é que João da Cruz, sem respeito algum pelo texto original e por suas intenções, cita a frase completamente fora de contexto, imprimindo-lhe um significado diferente, mais amplo, mais sugestivo. Se ele pode, eu também posso.

Quem não foi tentado,
o que sabe?
Quem não foi provado,
quais coisas conhece?

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Não basta dar às pessoas pobres: é preciso ouvi-las e enxergá-las
(3, 30-4, 8; 4, 31; 7, 34)

Nesse elogio à compaixão, o autor reconhece que não é fácil ser generoso e compassivo com as pessoas mais necessitadas. Não basta simplesmente lhes dar comida ou dinheiro: é preciso reconhecer sua humanidade, suas limitações, seus traumas.

A água apaga o fogo,
a esmola expia o pecado.
Não recuses ao pobre o seu sustento,
não desvies teus olhos do miserável.
Não faças sofrer aquele que tem fome,
não irrites o homem na sua indigência.
Não agites mais um coração desesperado,
não recuses teu dom ao necessitado.
Não rejeites o pedinte oprimido,
não desvies teu olhar do que pede.
Inclina teu ouvido ao pobre,
responde-lhe à saudação com amor.
Não fuja dos que choram,
faz luto com os que estão de luto.
Se abres a mão para receber,
abre a mão também para dar.

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Não basta dar às pessoas pobres: é preciso não explorá-los
(34, 18-26)

Mais uma vez, somente dar não resolve. Antes, a questão era como dar. Agora, o que dar. De nada adianta roubar e explorar os mais vulneráveis e, então, ofertar a Deus os frutos desses crimes.

Oferecer a Deus o fruto da injustiça é escárnio.
Tirar dos pobres para doar a Deus
é como sacrificar um filho diante do pai.
O pão da esmola é a vida do pobre,
quem o nega é homicida.
Mata seu próximo quem lhe tira o sustento,
quem não paga justo salário derrama sangue.
Um constrói, outro destrói;
que outro proveito tira além da fadiga?
Um abençoa, outro maldiz:
a quem Deus escutará?
Quem jejua pelos pecados e volta a cometê-los,
quem ouvirá sua oração?
Que proveito tirou de tantas oferendas?

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O rico é o lobo do pobre
(13, 3;18-19)

O capítulo 13 é uma longa e controversa comparação entre pessoas ricas e pobres: ao mesmo tempo em que elabora uma crítica radical às pessoas ricas, termina por aconselhar às pobres o mais abjeto conformismo. Abaixo, meus trechos preferidos.

O rico ofende e se orgulha;
o pobre é ofendido e ainda pede perdão.
Que paz pode haver entre o lobo e a lebre?
Que paz pode haver entre o rico e o pobre?
A gazela é a presa do leão,
o pobre é a presa do rico.

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O carma, de uma perspectiva cristã
(12, 13; 27, 25-28, 12)

Não apenas temos controle sobre nossas ações, como também inevitavelmente colheremos seus frutos, bons e maus. Não poderia haver melhor exemplificação cristã do conceito de carma. A primeira e a última metáforas, do encantador e da faísca, são das minhas favoritas de toda a Bíblia.

Quem tem dó do encantador
picado pela serpente?
Se o leão morde o domador,
quem sente pena?
Atira uma pedra para o alto
e ela te cairá na cabeça.
Quem cava uma cova, nela cairá,
quem arma uma rede, nela se enredará,
quem faz o mal, sobre ele pesará.
Perdoa ao próximo seus pecados,
e os teus pecados serão perdoados.
Como pode guardar rancor ao outro,
e pedir saúde para si?
Se ele, que é carne, guarda rancor,
quem lhe perdoará os pecados?
Quanto mais lenha,
mais arde o fogo.
Quanto mais teimosia,
mais arde a briga.
Uma faísca provoca um incêndio,
uma briga acalorada derrama sangue.
Se sopras a faísca, ela se atiça.
Se cospes, ela se apaga.
Ambas saem de tua boca.

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A angústia do fofoqueiro
(19, 9-12; 28, 25)

Na mesma linha de “coisas que saem da boca”, fofocas.

Ouviu uma fofoca? Seja como um túmulo.
Coragem. Não vai te arrebentar.
A fofoca não contada agita o fofoqueiro
como a criança não nascida agita a grávida.
Como uma flecha cravada na coxa,
assim a fofoca na língua do fofoqueiro.
Para as palavras, balança e pratos;
para a boca, porta e ferrolho.

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Lembrar-se da morte para aproveitar a vida
(11, 25; 12, 9; 14, 5, 12-19)

Um trecho surpreendentemente hedonista, relembrando a morte inevitável e, diante dela, enfatizando a necessidade de sermos generosas.

Um dia feliz faz esquecer a desgraça,
um dia infeliz faz esquecer a alegria.
Na prosperidade, até o inimigo se torna próximo.
Na desgraça, até o amigo se afasta.
Quem é duro consigo mesmo,
com quem não será?
Se tens algo, serve-te disso.
No túmulo não desfrutarás
e a morte não tarda,
ainda que não saibas quando.
Antes de morrer, favorece teu amigo,
dá-lhe do que tiveres a mão.
Não te prives de um dia feliz,
nem de um legítimo desejo
Por que deixar tuas riquezas a um estranho,
e o fruto do teu trabalho à decisão da sorte?
Dá a teu irmão e trata-te bem,
porque no Abismo não há prazeres.
A carne envelhece como roupa velha,
segue a Lei eterna, “Deves morrer”.
Como as folhas em uma árvore,
murcham umas, brotam as seguintes,
assim são as gerações de carne e sangue:
morrem umas, nascem outras.
Todos seus trabalhos apodrecerão:
o que suas mãos ganharam, com elas irá.

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Os limites do luto
(38, 16-23)

Ainda sobre a morte e em um tom hedonista, o escriba adverte contra o luto e a tristeza excessivos. (Na verdade, bastava ter remetido seus leitores à talvez melhor cena de luto da literatura, em 2Sm 12, 15-23, sobre a qual falo aqui.)

Derrama lágrimas pelo morto,
geme e entoa o canto fúnebre,
sepulta-o conforme merece
e não faltes ao funeral.
Chora de dor e bate no peito,
depois consola-te de tua tristeza.
Porque a tristeza leva à morte,
a tristeza abate as forças.
Na desgraça persiste a dor,
uma vida triste é insuportável.
Não abandones teu coração à tristeza.
Desde que o morto repousa,
deixa repousar a sua memória.
Afasta sua recordação:
de nada servirás ao morto
e ainda te prejudicarás.
Lembra-te do fim:
“eu ontem, tu hoje!”

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Como tratar escravos
(33, 25-33)

Podemos dar como certo que os versículos abaixo foram utilizados para justificar muitos crimes em nosso país:

Ao asno, forragem, chicote e carga;
Ao escravo, pão, castigo e trabalho.
Faze teu escravo trabalhar e terás descanso;
deixa livre as suas mãos e ele procurará a liberdade.
Jugo e rédea dobram o pescoço,
e ao escravo mau, torturas e interrogatório.
Manda-o para o trabalho, para que não fique ocioso,
porque a ociosidade ensina muitos males.
Emprega-o em trabalhos, como lhe convém,
e, se não obedecer, prende-o ao grilhão.

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Sobre dar e receber conselhos
(37, 7-15)

Poderia ser um adendo ao meu Exercício de Atenção, Praticar o não-conhecimento.

Todo conselheiro dá conselho,
mas há os que aconselham em benefício próprio.
Cuidado com quem dá conselhos,
sonda primeiro seus interesses.
Não te aconselhes com teu inimigo,
nem com uma mulher sobre sua rival;
com um medroso, sobre a guerra;
com quem compra, sobre a venda;
com o mesquinho, sobre generosidade;
com o impiedoso, sobre bondade.

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O pensamento científico também é um dom de Deus
(38, 1-15)

Um trecho sempre utilizado para validar e proteger o livre exercício da ciência:

Honra o médico por seus serviços,
também ele foi criado por Deus.
O médico recebe sua ciência de Deus,
e seu sustento do rei.
Por sua ciência, anda de cabeça erguida
e se apresenta diante dos nobres.
Deus faz que a terra produza remédios,
o homem prudente não os desprezará.
O médico alivia as dores com plantas,
e 0 boticário prepara seus unguentos.
Deus concedeu inteligência ao homem,
para que se glorie da eficácia divina.
Quando caíres doentes, não te descuides,
reza a Deus e ele te fará sarar,
mas, depois, deixa o médico agir,
há momentos em que o êxito depende dele,
porque Deus também o criou,
e também ele reza a Deus,
para que acerte no diagnóstico.
Peca contra seu criador
quem resiste ao médico.

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Um elogio aos trabalhadores manuais
(38, 24-34)

Jesus ben Sirá era um sábio e escriba profissional, professor em uma escola voltada para formar futuros sábios e escribas. Aqui, ele ensina aos seus alunos, futura elite intelectual, sobre o valor e a importância dos trabalhos manuais.

A sabedoria do escriba se adquire no ócio,
aquele que está livre de afazeres torna-se sábio.
Como se tornará sábio o que maneja o arado,
aquele cuja glória consiste em brandir o aguilhão,
o que guia bois e o que não abandona o trabalho
e cuja conversa é só sobre gado?
O seu coração está ocupado com os sulcos que traça;
as suas vigílias com a forragem das bezerras.
Igualmente todo carpinteiro e construtor,
qualquer que trabalhe dia e noite,
aqueles que fazem os entalhes dos selos,
sua tenacidade está em variar o desenho;
se esforçam por imitar a vida,
se desvelam para concluir o trabalho.
Igualmente o ferreiro sentado à bigorna:
enquanto estuda o trabalho do ferro;
a chama de fogo resseca-lhe a carne,
debate-se ao calor da forja;
o barulho do martelo o ensurdece,
seus olhos estão fixos no modelo do utensílio;
aplica o seu coração em rematar o trabalho,
suas vigílias em trabalhá-lo com perfeição.
Igualmente o oleiro sentado ao seu trabalho,
o que gira o torno com os pés,
dedica total cuidado à sua obra,
todos os seus gestos são contados;
com o braço amolda a argila,
com os pés a compele,
aplica o seu coração em terminar o envernizamento
e as suas vigílias em limpar a fornalha.
Todos esses depositam confiança em suas mãos
e cada um é hábil em seu ofício.
Sem eles nenhuma cidade seria construída,
não se poderia nem instalar-se nem viajar.
Mas eles não são encontrados no conselho do povo
e na assembléia não sobressaem.
Não se sentam na cadeira do juiz
e não meditam na lei.
Não brilham nem pela cultura nem pelo julgamento,
não se encontram entre os criadores de máximas,
mas asseguram a criação eterna,
ocupados em seu trabalho artesanal.

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Como ler referências bíblicas:

(Capítulo), (versículo inicial)-(versículo final), (versículo solto);(Outro capítulo)

Exemplo:

Eclesiástico 11, 25; 12, 9; 14, 5, 12-19

Livro do Eclesiástico, capítulo 11, versículo 25. Depois, capítulo 12, versículo 9. Depois, capítulo 14, versículo 5, e também versículos de 12 a 19.

Um comentário em “Eclesiástico, de Jesus ben Sirá

  1. Obrigado pelo trabalho de investigação e de disponibilização do resultado a nós seus seguidores. Fico feliz em ter acesso a conhecimentos franqueados por você que, de outra forma, dificilmente o teria. Como filósofos, aceitamos que a sabedoria está em todo lugar, está em tudo e em todos, e podemos apreendê-la a qualquer momento, bastando para isso estar sensível para captar a essência, que geralmente está implícita aos olhos e aos ouvidos físicos. Isso é ser eclético, não ter preconceitos, abordar a vida de forma investigativa, como um grande mistério que precisa ser desvendado, e só uma mente curiosa e sedenta de compreensão é capaz de entrar, e de uma forma prazerosa, nesse labirinto.

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