Minha orientação política

Sempre voto, apoio, milito em prol de movimentos, partidos, pessoas que se propõem a lutar por grupos, classes, categorias que não conseguem lutar por si mesmas.

Porque um Estado que atua em prol da classe alta é um Estado redundante.

A classe alta sabe se defender com seus próprios recursos: o Estado justifica sua existência defendendo os direitos daquelas pessoas que não conseguem.

eu vou te comer

* * *

Demonizar a classe alta é infantil e contraproducente.

Cresci na classe alta da Barra da Tijuca e estudei na escola mais cara do país. Em meus anos formativos, minhas pessoas amigas, colegas, familiares, eram todas empresárias e empreendedoras, executivas de multinacional e capitãs de indústria.

Atesto e dou fé que a proporção de pessoas ruins entre elas é mais ou menos a mesma de todos os outros grupos dos quais participei.

Ainda assim, voto sistematicamente contra seus interesses.

Não porque são pessoas ruins. (Não são.)

Mas porque são pessoas que sabem se defender sozinhas.

empatia vote espremedor limao

* * *

Qualquer reforma tributária deve ser feita para simplificar a vida da pessoa física que faz seu próprio imposto de renda, não da empresa que tem seu próprio departamento de contabilidade. Etc.

Então, por exemplo, não sei os detalhes da recente reforma trabalhista, mas sei que as entidades patronais estavam unanimemente a favor, e as trabalhadoras, contra.

Então, sou contra.

Não porque as integrantes das classes patronais sejam “pessoas canalhas que levam uma vida fácil”.

(É uma gente esforçada que trava uma luta hercúlea para empreender no Brasil.)

Sou contra porque as pessoas que trabalham para elas são tão esforçadas quanto e enfrentam dificuldades infinitamente maiores.

Sob qualquer métrica, se a vida da dona da fábrica é difícil, a vida da trabalhadora que precisa negociar com ela de igual pra igual, sem apoio de um departamento jurídico ou tributário, sem economias no banco e vivendo de mês a mês, é mais difícil.

Então, se entrarem em conflito (e é natural que entrem, pois essa é a base de nossa democracia), estarei sempre ao lado da pessoa trabalhadora, por reconhecer que precisa de toda a ajuda possível para que o conflito apenas não seja absurdamente desigual.

O Estado existe não para decidir quem está certa, mas para garantir que o conflito seja o menos desigual possível.

Para isso, paradoxalmente, ele precisa sempre se posicionar ao lado da parte mais fraca, mais vulnerável, mais indefesa.

if you are neutral in injustice you chose side of oppressor

* * *

Sou uma pessoa privilegiada em todos os quesitos: branco, hétero, classe alta, viajado, urbano, pósgraduado.

O Estado já me deu de bandeja todas as vantagens possíveis e imaginárias: não quero mais nenhuma.

O Estado não precisa fazer nada por mim. Não quero que o Estado faça nada por mim. O Estado já fez de tudo por mim. O Estado já fez demais por mim.

Voto, apoio, milito pelo projeto de país que me prometa fazer o mínimo por mim. Que prometa sobretaxar meu iTralha e reinvestir em saúde. Que prometa sobretaxar minha herança e reinvestir em educação. Que prometa a pagar às mulheres os mesmos salários que aos homens. Que reconheça os direitos gays tanto quanto os héteros. Cuja polícia trate pessoas negras igual às brancas.

Por toda a minha vida, o Estado me preparou para não precisar dele. Sei as manhas, tenho as tretas. Se o Estado se virar contra mim, tenho como me defender.

Quero um Estado que defenda as pessoas que não têm como se defender dele.

Quero um Estado que defenda as pessoas que, por falha desse mesmo Estado, têm uma educação pior que a minha, uma saúde pior que a minha, perspectivas piores que as minhas.

Quero um Estado que quebre a cabeça para facilitar a vida de quem tem pouco, nem que ao custo de dificultar a vida de quem tem muito.

Essa é minha orientação política.

privilégio

* * *

Toda ela pode ser resumida em um dos diálogos de um filme lançado no ano em que completei 18 anos, Uma questão de honra.

Estão conversando dois fuzileiros navais acusados de assassinar um colega, Willy:

— O que foi que fizemos de errado? Não fizemos nada de errado!

— Fizemos sim. Nós estamos aqui para lutar pelas pessoas que não podem lutar por si mesmas. Deveríamos ter lutado pelo Willy.

a-few-good-men

 

Um comentário em “Minha orientação política

  1. O que dizer das pessoas que não sabem se defender (as classes desfavorecidas por qualquer motivo) desejarem algo que é ruim para elas mesmas, e/ou não perceberem algo que seria bom para elas? Exemplo, se a reforma tributária americana que você citou provar nos próximos anos que foi a causa de um maior número de empregos ou de maiores salários pagos aos trabalhadores… talvez tenha feito sentido? Será que os menos favorecidos sempre sabem o que é melhor para eles? No Brasil, o PT (e todos aqueles que o seguiam) foi contra o Plano Real. Mas o Plano Real provou ter sido bom para a estabilidade da economia. E por aí vai.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s