zen

alguns pensamentos esparsos sobre a prática zen.

Aqui existe o vazio

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ontem ao assinar o livro de visitas do templo que frequento, escrevi “alex castro”.

alguns minutos depois, quando outro praticante olhou ali o meu nome e me chamou de “alex”, me bateu um estranhamento.

como se fosse esquisito ser chamado pelo meu nome-fantasia em um templo onde faço votos, entre outros, que a realidade é ilimitada e que devemos percebê-la.

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o que há em um nome?

o nome alex castro nasceu em 2005.

nos primeiros anos, ainda havia uma distinção clara entre as duas identidades: só me chamava de “alex” quem tinha me conhecido pela internet.

mas, nos cadastros de loja, nos sites de compras, no ex-libris dos livros que comprava, eu ainda assinava com o outro nome.

agora, já se vão lá quase dez anos de “alex castro” e ele claramente tomou conta.

até minha companheira me chama de “alex”.

(o pedro dória escreveu  uma coluna sobre a minha mudança de nome para a folha. não dá pra saber com certeza se ele está zoando de mim ou não.)

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sempre que menciono essa história, alguém pergunta:

“mas qual é seu nome verdadeiro?”

e me parece uma pergunta tão estranha!

ora, todos os meus nomes são verdadeiros. como não seriam?

mas, se você colocasse uma arma da minha cabeça e me mandasse escolher um, com certeza o meu nome mais verdadeiro, entre tantos nomes pelos quais respondo, é o nome que eu mesmo inventei, que eu mesmo me dei, o nome que a maioria das pessoas que me conhece associa a mim.

alex castro. muito prazer.

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samsara

comecei a praticar o caminho no templo zen de nova orleans (nozt.org) e agora pratico no templo zen de copacabana (sanghazen.com.br), dois lugares fortemente associados a putaria, sexo e turismo sexual.

isso deve querer dizer alguma coisa. não sei bem o quê.

como disse uma moça nas últimas prisões, fazer ecovila de permacultura na serra da mantiqueira é fácil: quero ver fazer na avenida brasil!

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o veneno e o antídoto

promovo os encontros “as prisões” porque eles ajudam alguns seres e porque são uma maneira digna e decente de ganhar a vida.

mas, pessoalmente, eles me fazem um certo mal.

meu principal projeto de vida hoje é o não-ego. sair de mim. ser menos auto-centrado.

e passar todo fim de semana cercado de pessoas que me admiram e, muitas vezes, viajaram longe e pagaram caro para estar comigo, só atrapalha.

encaro esses ossos-do-ofício como o meu atual desafio: promover o encontro “as prisões” sem deixar que ele me suba à cabeça.

para isso, a prática diária do zen é fundamental.

no templo, ninguém sabe quem eu sou, ninguém liga pra mim, ninguém leu meus textos, ninguém quer saber o que tenho a dizer. eu chego, sento, quebro o pão, varro o quintal, vou embora.

ontem, passei vários e vários longos minutos limpando cocô de passarinho do corrimão da escada externa.

e foi bom.

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recomendações de leitura

sempre deixando claro que eu não sei nada sobre zen e não tenho autoridade alguma para me manifestar publicamente sobre zen, esses são os livros básicos e introdutórios que estão disponíveis em português e me ajudaram nos primeiros passos no caminho.

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zen em quadrinhos, tsai chih chung

um dia, uma namorada me deu esse livrinho pra ler, dizendo que muitas dessas histórias pareciam com o meu “jeito”.

esse livro não é trivial. ele é uma quadrinização de alguns dos koans mais importantes do zen. (koan: uma narrativa que contém elementos inacessíveis à razão.)

abaixo, alguns dos meus preferidos.

leia o livro online, gratuitamente.

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introdução ao zen-budismo, d. t. suzuki

depois disso, curioso, comecei a procurar mais e caí nos livros de d. t suzuki, em especial esse introdução ao zen budismo.

suzuki, um japonês leigo que escrevia em inglês, foi o grande introdutor e popularizador do zen no ocidente.

muitos estudiosos consideram que suzuki não só está superado como que distorceu muito do zen para torná-lo mais palatável à sensibilidade ocidental.

mas a verdade é que funcionou: para mim e para muitos, muitos ocidentais, suzuki foi quem nos interessou, empolgou, fisgou para o zen.

linksverbete na wikipedia // pdf em inglês // em português, na saraiva // em inglês, na amazon

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budismo sem crenças, stephen batchelor

suzuki me atiçou o interesse intelectual e comecei a ler mais sobre zen.

naturalmente, ler sobre zen e nada é a mesma coisa. “interesse intelectual” é um outro modo de dizer “capricho intelectual”.

o zen é uma prática.

quem me fez finalmente começar a praticar foi esse livro.

embasado por uma leitura rigorosa dos sutras, batchelor propõe que não é preciso ser religioso, místico ou deísta para praticar o caminho.

para ele, o caminho é agnóstico.

(sutra: escrituras canônicas que são tratadas como registros dos ensinamentos orais de buda gautama.)

naturalmente, as ideias de batchelor são radicais e polêmicas, especialmente entre as muitas e muitas pessoas que consideram o caminho sua religião.

batchelor é polêmico mas respeitado. questionam suas ideias mas o levam a sério. em outras palavras, sua interpretação do caminho é viável e válida.

e, assim, satisfeito que eu não estaria me tornando uma pessoa religiosa por trilhar o caminho, eu visitei um templo zen pela primeira vez e comecei a praticar.

linksem português, na saraiva, ou em inglês, na amazon.

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o que faz você ser budista?, dzongsar jamyang khyentse

por fim, um livro que não foi especialmente importante para mim, mas que é a melhor obra de referência em português, acessível e recente, para explicar budismo para leigos.

quando comecei a frequentar um templo zen e minha família, coitada, não entendeu bulhufas, foi esse livro que dei para eles lerem.

linksna saraiva, em português, ou na amazon, em inglês.

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viver sem esperança

um trechinho do livro sempre zen, de joko beck:

“uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. esperamos ter sucesso. esperamos ter saúde. esperamos alcançar a iluminação. há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. a pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente. …

o que de fato queremos é uma vida natural. mas nossas vidas são tão artificiais que essa busca, no começo, é bastante difícil.

apesar de estarmos começando um novo caminho, trazemos as mesmas atitudes que tínhamos anteriormente: não achamos mais que a resposta está em um novo carro de luxo, mas sim em alcançar a iluminação. continuamos na mesma corrida, apenas trocamos o troféu. agora temos um novo “se ao menos”: “se ao menos eu conseguisse entender um pouco melhor o universo, então eu seria feliz”; “se ao menos eu conseguisse atingir uma pequena experiência de iluminação, então eu seria feliz”, etc, etc.

muitas de nós acreditamos que se tivéssemos um carro maior, uma casa mais bonita, férias mais longas, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, nossas vidas seriam muito melhores. não há quem não pense assim.

passamos a vida pensando que existe o “eu” e que existe essa outra coisa separada, “o tudo que não sou eu”, que nos causa alternadamente dor ou prazer. assim, evitamos tudo que nos fere ou desagrada ou causa dor; e buscamos ou toleramos ou aceitamos tudo que nos agrada ou nos envaidece ou nos causa prazer, fugindo de uns e perseguindo outros. sem exceção, todos fazemos isso.

ficamos apartados da vida, olhando para ela de fora para dentro, analisando, fazendo cálculos como “e o que eu ganho com isso? será que vai me trazer prazer ou conforto? será que devo fugir?” sob nossas fachadas agradáveis e amistosas, existe muita ansiedade.

se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de cabeça pra baixo, o que é esse barco vazio? o que sobra? quem somos nós?”

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sua vida, de cabeça pra baixo

um trechinho do livro not for happiness, de dzongsar jamyang khyentse, o mesmo autor de o que faz você ser budista:

“esses dias, o objetivo de muitos ensinamentos é fazer as pessoas “se sentirem bem”, validando seus egos e suas emoções. mas é um erro considerar que a prática do caminho vai nos acalmar ou nos ajudar a viver uma vida tranquila. se você só está preocupado em se sentir bem, melhor fazer uma massagem relaxante ao som de uma música new age.

o caminho não é terapia. pelo contrário, ele foi elaborado sob medida para expor nossas falhas e virar nossa vida de cabeça pra baixo.

aliás, se você pratica o caminho mas sua vida ainda não virou de cabeça pra baixo, então sua prática não está funcionando.”

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o zen enquanto paliativo consumista

hoje em dia, no ocidente rico (inclui o eixo morumbi-leblon), onde pessoas brancas ricas e bem-educadas morrem de culpa de seus níveis insustentáveis de consumo, uma meditaçãozinha com uma ioguinha, uma bananinha orgânica fair trade com um ovinho free-range, fazem com que pessoas politicamente alienadas pensem que estão fazendo alguma coisa para ajudar o mundo.

como disse o zizek, você tem o prazer de comprar o produto e ainda compra junto a redenção da sua culpa consumista. é perfeito.

sob esse aspecto, o zen ocidental pode ser considerado sintoma de uma sociedade doente.

nada disso é razão para deixarmos de praticar. mas não podemos ignorar nosso contexto cultural.

(um artigo e uma palestra do zizek: from western marxism to western buddhism & , parodiando weber, the buddhist ethic and the spirit of global capitalism.)

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as cinco lembranças

– adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

– envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

– morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

– tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

– somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

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minhas poesias zen favoritas.

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o que aprendi na prática zen

assim que assumo a posição de meia-lótus, cruzo as pernas e pouso as mãos em frente ao umbigo, é nessa hora que meu nariz coça.

primeiro, vem a negação, imediatamente seguida pela revolta. caralho, não acredito que meu nariz escolheu coçar justo agora. putaqueopariu.

quanto mais tento esvaziar a mente, mais a coceira aumenta. em breve, a coceira está do tamanho do mundo. a coceira é maior do que eu, do que a vida, do que kafka, do que o sol, do que a vacuidade, dp que a morte.

a coceira é o universo. ali. na ponta do meu nariz.

mas não posso me mexer.

aí, vem a barganha.

que besteira!, penso. ninguém vai me ver. estão todos sentados, voltados pra parede, concentrados na prática. e, afinal, o que tem de mais coçar o nariz? o nariz não está coçando mesmo? não sou livre? não estou no templo praticando zen por vontade própria? não posso me levantar e ir embora a qualquer momento? por que não poderia coçar o nariz?

mas não. vai fazer barulho. o cotovelo vai estalar. o tecido da minha roupa vai farfalhar. naquele silêncio absoluto, esses sons seriam quase ensurdecedores.

então, a coceira some.

como tudo no universo, como nossas vidas, como as árvores, como o próprio sol, a coceira também passa.

porque se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam.

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