Paula Lee é inteligente, articulada e uma boa amiga. Ela é brasileira, mora em Portugal e acabou de lançar o livro Alugo meu Corpo, sobre sua iniciação na prostituição. Eis o que Paula teve a dizer sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:
Bem no início do livro Radical Rebelde Revolucionário, uma obra resultante da viagem do Alex Castro para Cuba, em função de duas bolsas de pesquisa, o autor deixa o aviso:”À exceção dos fatos narrados em primeira pessoa, não confiem nas informações deste livro”.
Tenho que aqui dizer que acredito em tudo o que o Alex Castro contou nesse livro. Por ingenuidade cega? Teimosia? Nenhuma das opções. Porque a verdade do livro não está nas provas, nos documentos, nem nos tão falados e incredíveis jornais de Cuba, descritos no livro. A verdade do livro está naquilo que o Alex viu, o que ouviu, tocou, cheirou, comeu, sentiu. Está naquilo que o Alex viveu em Cuba, não enquanto turista, mas enquanto descobridor, enquanto pesquisador, enquanto parte integrante do local, não apenas estudando a cultura de um povo, mas experimentando e tentando viver como um cubano, apesar de todas as divisões e limitações ali existentes.
E afinal o que importa a verdade num país que nem parece ser de verdade? Definir como verdade ou não o que está escrito no livro, seria anular tudo o que o Alex sentiu na sua “viagem-integração”. Independente de as informações por ele recebidas serem ou não verídicas, a verdade é, por si só, aquilo que viveu e sentiu, e isso ninguém pode lhe roubar.O Alex não foi para Cuba para conhecer uma nova terra, mas para conhecer um novo povo. Depois de Fidel, a primeira coisa que vem na minha cabeça quando a palavra Cuba é pronunciada é a minha paixão pelas danças latinas, especificamente a salsa. Tanto que, quando o Alex viajou, enviei-lhe um e-mail a dizer: dance salsa por mim.
“Na verdade, pensando bem, não confiem em nada, especialmente na minha narração em primeira pessoa. Este é um livro de ficção. Nenhuma das pessoas citadas existe. Nem eu. Todos os nomes de cubanos foram tirados do romance Cecília Valdés (1882), de Cirilo Villaverde. Não existe nenhum país chamado Cuba, nenhum presidente chamado Fidel Castro. Sério, vocês acreditaram mesmo que existia Cuba? Tolinhos.”
Mas o livro Radical Rebelde Revolucionário tem muito mais do que Fidel e salsa. Quando o Alex me puxou pela mão e me deixou em Cuba, eu disse: “Não ouse me abandonar, Alex, não me deixe aqui sozinha!”. Primeiro porque nem parece existir um país assim. É tudo muito irreal, ao mesmo tempo que soa tão verdadeiro, já que a verdade está em tudo aquilo que jamais poderia imaginar. Em segundo lugar porque só o Alex teria tanta desenvoltura para entrar dentro de Cuba, não como qualquer um entra como turista, mas entrar de verdade, de corpo, alma e charuto, para me apresentar o país. Quem diria que, no país onde sonhava ir dançar salsa, fosse descobrir tantos conflitos? E, mesmo assim com tantos conflitos, contrastes, limitações e miséria, Cuba fosse assim tão especial, tão quente?
Receei que em certa altura o Alex fosse largar a minha mão e dizer: “Se vira!”. Mas não, em momento algum ele fez isso. O Alex começa por me apresentar uma mulher tão segura que, nos tempos de hoje, parece não existir, juntamente com um país que parece obra de um artista cheio de imaginação. E me apresentou a moeda, e me fez também montar os pedaços do abacaxi, como num quebra-cabeças, para conferir se faltava alguma parte, me mostrou os livros proibidos da biblioteca nacional, me apresentou o cinema cubano, me fez quase fugir das casas de banho, se não estivesse tão apertada para fazer chichi.
A escrita do Alex foi fazendo com que caminhasse por cada rua, conversasse com cada pessoa, inclusive os jiniteiros. E suas análises mais uma vez brilham, porque mostram várias faces de situações que muitas pessoas só enxergariam de uma única forma.Mesmo se você não tiver o mínimo interesse por Cuba, aconselho a viagem. Porque no Radical Rebelde Revolucionário a gente até se esquece que está lendo na tela do computador, porque estamos, na verdade, viajando junto com o Alex.
Paula, muito, muito obrigado! E você? Já comprou seu exemplar?
