Uma história de quatro pessoas

O que importa não é a vida que levei, mas o que faço com ela hoje.

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A babá

Fim de tarde na piscina do condomínio, muitos anos atrás. A menina da casa ao lado e a babá vão saindo e eu digo, tchau!

A babá diz pra criança, o moço tá falando tchau!

A menina se volta e responde, tchau!

Não ocorreu à babá, nem por um instante, que eu estava dando tchau pra ela.

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Seu Jonas

Seu Jonas é um dos seis faxineiros do meu prédio. Nunca o vi sem o seu uniforme azul.

Ele é branco, cabelos escuros, muito baixo, uma pessoa doce. Parece um hobbit. Torce pelo Vasco da Gama e gosta de milho cozido. Durante seu intervalo, fica na frente do prédio, encostado na grade, olhando o movimento de Copacabana. Em outubro, voltou das férias no Nordeste com os cabelos alourados. Agora, em janeiro, já estão escuros de novo.

Cobra setenta reais pra limpar o meu conjugado de vinte metros quadrados, um trabalho que faz com muito esmero em umas quatro horas.

Não tenho condições financeiras de contratar seu Jonas regularmente. Quando preciso dele, quando a sujeira fica insustentável, combinamos um horário e ele vem.

Seu Jonas só me chama de “senhor”. Entendo porque ele faz isso. Sei quais são as forças societais que moldaram nossa relação antes mesmo de nascermos. Sei que sua subserviência a mim não tem nada a ver comigo, que dificilmente mudará, que não existe nada, ou pouco, que eu possa fazer.

Ainda assim, um dia, falei:

Seu Jonas, o senhor é um homem respeitável e íntegro, que sustenta sua família com seu trabalho honesto, que tem dois filhos adultos já criados. Eu sou um moleque. É uma inversão completa o senhor me chamar de “senhor”. Quem tem que chamar o senhor de “senhor”, em respeito a sua idade, a sua maturidade, a sua dignidade, sou eu.

Seu Jonas ouviu, considerou, concordou e continua me chamando de “senhor”.

Meu discurso-desabafo esquerda-festiva olha-como-sou-legal serviu apenas para deixá-lo constrangido e – mais importante, afinal, só isso importa! – para aliviar minha alma de sinhôzinho culpado.

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Na verdade, não falei nada. Alguns anos atrás, teria falado. Hoje, não.

Se tanto falar quanto não-falar levariam às mesmas consequências práticas, melhor então manter o silêncio.

Aceito com carinho e resignação a subserviência do seu Jonas.

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A moça da pizza

Cresci na Barra da Tijuca, em um apartamento de seiscentos metros quadrados em frente à praia. No auge, tínhamos dez empregados fixos. Mais tarde, felizmente, a família teve a sensatez de falir, uma experiência pedagógica enriquecedora que recomendo a todos que já foram ricos.

Dentre as dezenas, talvez centenas, de empregados que passaram por minha casa em vinte anos, tem uma que não lembro o nome (o que em si já é bem indicativo) mas posso ver o rosto claramente.

Era uma menina adolescente, recém-chegada do nordeste, de olhos arregalados e assustadiça como um passarinho.

Como tantas moças sem instrução, as únicas coisas que tinha para vender no mercado de trabalho, as únicas coisas que nossa sociedade queria dela, eram ou seu corpo para o sexo ou sua força física para aguentar a parte mais pesada da faxina.

Teoricamente, frequentava uma escola pública ali perto, mas logo desistiu de ir às aulas – não sentia estar aprendendo nada relevante para sua vida prática – e ninguém ligou muito.

Várias vezes, com um único olhar ou com algumas poucas palavras rudes, eu a fiz se desmontar em lágrimas a minha frente.

Um dia, pedi uma pizza e estava comendo sozinho quando a percebi se esgueirando pelos cantos, com seus movimentos sorrateiros de quem se treinou para não chamar atenção e nunca incomodar os bem-nascidos.

Ofereci um pedaço, ela aceitou. Estava indo embora com sua fatia de pizza quando a convidei para se sentar à mesa e comer comigo. Ela não quis. Insisti. Ela se recusou. Várias vezes.

Falei, brincando, que se eu não era bom o bastante para que ela se sentasse à mesa comigo, então eu não era bom o bastante para que comesse minha comida.

Só fui aprender muito depois que brincadeiras apenas são brincadeiras quando o outro tem a liberdade e a intimidade de brincar de volta, ou de te mandar à merda. Brincadeira de cima pra baixo tem outro nome: humilhação.

Ela colocou a fatia de volta e se afastou. Estava coberta de razão em não querer sentar comigo.

Comi a pizza inteira sozinho e, naquele dia e por muitos e muitos dias e anos depois disso, talvez até hoje, continuei sendo uma pessoa muito, muito escrota.

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Eu

Quando escrevo sobre minha infância de menino rico, às vezes me acusam de estar querendo me gabar.

Mas não faz sentido nem se orgulhar nem se envergonhar da própria infância. O contexto socioeconomico da infância de qualquer pessoa é resultado das escolhas e ações dos adultos em sua vida.

Minha infância aconteceu do jeito que aconteceu, totalmente fora do meu controle, e está lá, no passado, imutável, petrificada, pra sempre. Por mais que eu possa desejar, nunca terei tido outra infância a não ser essa infância de menino rico de condomínio da Barra da Tijuca.

O que importa é o que eu, hoje, adulto, independente, faço com essa infância.

E eu, para o bem ou para o mal, faço esses textos.

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outrofobia textos de luta

Esse texto faz parte do meu livro Outrofobia: Textos Militantes, publicado pela editora Publisher Brasil em 2015. São textos políticos, sobre feminismo e racismo, transfobia e privilégio, feitos pra cutucar, incomodar, acordar.

Se você gostou do que eu escrevo, então, dá uma olhada no livro: custa só trinta reais e deve ter mais coisa que você vai gostar também.

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