Shantideva

O Guia do caminho do bodisatva (Bodhicaryavatara) é um poema escrito na Índia do século VIII pelo monge Santideva.

De todos os muitos textos budistas, tornou-se o meu preferido, um dos livros mais importantes da minha vida e, seguramente, o que mais se aproxima de ser o meu guia de conduta moral.

O livro descreve tudo que tento ser, tudo que falho em ser, tudo que continuo tentando ser.

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Dhammapada vs Bodhicaryavatara

A diferença entre o Dhammapada, importante texto do budismo Theravada, e sua ênfase no autodesenvolvimento de sábios que estão acima dos pobres mortais, e o Bodhicaryavatara (Guia do caminho do bodisatva, de Shantideva), importante texto do budismo Mahayana, e sua ênfase em tentar salvar todos os seres sencientes…

…me pareceu bem semelhante à diferença entre os evangelhos gnósticos, propositalmente esotéricos e escritos somente para um pequeno grupo, e os quatro evangelhos canônicos, com sua mensagem aberta e inclusiva, atemporal e universal.

Quanto mais  leio o Dhammapada, mais simpatia tenho pelo Bodhicaryavatara.

Bodhicaryavatara shantideva

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Nossos desafetos e como tratá-los

(Uma tradução livre de trechos do capítulo 6, “Paciência”.)

Todos os nossos atos generosos,
construídos ao longo de uma vida,
podem ser demolidos e desfeitos,
por uma única fagulha de fúria.

Não há mal pior que a fúria.
Não há bem maior que a paciência.
Por isso, com esforço, com zelo,
minha paciência desenvolvo.

Não há paz, não há prazer,
não há segurança, não há sono,
enquanto o dardo da fúria
está cravado em meu coração.

Aconteça o que acontecer,
a paz mental vou manter.
Pois o abatimento me impede
de atingir objetivos virtuosos.

Se problema tem solução,
não há porque se abater.
Se problema não tem solução,
de nada adianta se abater.

A mente sábia permanece serena
diante da desgraça e da dor.
Na guerra contra o ódio e a raiva,
há reveses como em toda batalha.

Guerreiros autênticos são os que
desprezam sua desgraça e sua dor
e destroem seu ódio e sua raiva.
Os outros matam inimigos já mortos.

Bodhicaryavatara shantideva_

Se não sinto fúria contra enxaqueca
ou refluxo, férteis fontes de frustração,
por que me enfureceria contra seres
também frutos de suas circunstâncias?

Se tivéssemos o que desejamos
nenhum dos seres sencientes
jamais sentiria dor ou desgraça
pois ninguém as deseja para si.

Na busca por beleza e bens,
sem cuidado e sem consciência,
flagelamos nossos corpos e
torturamos nossas mentes.

Algumas pessoas se enforcam,
outras pessoas se envenenam,
umas se mutilam, outras se endividam,
muitos modos de destruir a si mesmas.

Em sua dor, às vezes até assassinam
o Eu amado ao qual tanto se apegam.
Como então não causariam dor
às outras pessoas a sua volta?

Se não consigo sentir compaixão
por aqueles que se autodestroem
por suas próprias faltas e falhas,
devo pelo menos não sentir raiva.

É da natureza das pessoas imaturas
causar dor e desgraça umas às outras.
De nada adianta nos enfurecer com elas:
é como odiar o fogo por ser quente.

Assim como o cassetete que me bate
está sob controle da pessoa que o ergue,
ela está sob controle do ódio que lhe toma.
Melhor odiar o ódio do que odiar a ela.

Elogios e louvores me atrapalham e me distraem:
aumentam minha segurança e minha complacência.
Ao me sentir menos insatisfeito e menos deslocado,
diminui minha urgência em percorrer o caminho.

Quem me difama e maldiz,
impedindo que receba elogios,
são aliadas que me protegem
de afundar na complacência.

Eu, que almejo paz e liberdade,
não me apego à riqueza e renome.
Como então odiar quem trabalha
para me salvar desses grilhões?

Barram meu caminho rumo à vaidade,
impedem minha queda na complacência.
Como poderia odiar os guardiões
que me salvam de mim mesmo?

Mesmo se me impedem de fazer o bem,
ainda assim me protegem no caminho,
pois me levam à aprimorar a paciência
e ela é a maior de todas as virtudes.

Sem precisar buscá-los nem chamá-los,
eles me guiam na prática do caminho:
são como um tesouro sob meu assoalho,
encontrado sem esforço e sem fadiga.

Mesmo se querem me destruir,
ainda assim lhes devo gratidão,
pois se quisessem me ajudar,
essa paciência eu jamais teria.

Graças a quem me maldiz,
cultivei minha paciência.
Sou grato a eles, pois são
a causa de minha paciência.

Bodhicaryavatara shantideva L

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Uma tradução completa em português.

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Minhas edições de Shantideva

Bodhicaryavatara, de Shantideva, c. séc. VIII, sânscrito.

Guide to the Bodhisattva’s way of life. [Trad: Stephen Batchelor, 1979, da tradução tibetana.]

The Bodhicaryavatara. [Kate Crosby & Andrew Skilton, 1995.]

Guia do estilo de vida do Bodhisattva. [Trad. em 2015, da versão inglesa de Neil Elliot, da trad. tibetana, 2003.]

The way of the Bodhisattva. [Padmakara Translation Group, 1997, da trad. tibetana.]

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