sangue e morte na noite de natal – um conto de terror

I

A Fantasia

SEU NICANOR APERTOU O máximo que pôde a barriga.

— Força, Nicanor! — Disse dona Gracila — Está quase entrando!  Só mais um pouquinho!

— Se eu respirar, essa calça arrebenta!

— Sshh!  Pronto, entrou!

— Tudo pelos netos! — Ele disse, suspirando.

— Agora falta a barba.

— Por que você não me arranjou uma fantasia maior, hein Gracila?

— Foi só o que eu consegui, assim de última hora.   Fica quieto, senão a barba não pára no lugar.

— Tá pinicando. — Ele reclamou.

— Tudo pelos netos, você mesmo quem disse.

— Tudo pelos netos! — Ele repetiu.

— Os meninos vão adorar, Nicanor!

— Grande consolo…

— Está perfeito.  Não falta nada.  Você se lembra de tudo?

— Claro.  Não posso respirar fundo, senão a calça rasga.

— Não é isso!  Assim que eu bater na porta, você sai pelo quintal, sobe até o telhado, bota a escada dentro da chaminé e desce.  Entendeu?

— Perfeitamente.

— Então tchau.

Saiu e foi pra sala com o resto da família.

Seu Nicanor, cansado da batalha contra a roupa, pegou a Manchete da semana que estava jogada em um canto e começou a folhear a revista.  Passou direto pela reportagem de capa, sobre os crimes do natal.

O artigo listava vários casos acontecidos no natal passado e, como estes permaneciam insolúveis, se perguntava se eles voltariam a acontecer este ano.  Dentre eles, o mais pacífico era o do assaltante que se fantasiava de Papai Noel para invadir casas e roubá-las, e o pior, o do louco não identificado que chacinava qualquer um fantasiado de Papai Noel.  Nos últimos anos, dezoito Papais Noéis haviam sido mortos.

Mas para seu Nicanor, o natal não é época de se pensar em crimes.  Pulou a tal reportagem e começou a ler outra, ilustrada com fotos coloridas, sobre o natal em Copenhague.

Suspirou.

 

 

II

A Chaminé

Sobre a mesa, as rabanadas estavam no fim, devoradas pelas crianças.  Os adultos, em sua maior parte, se concentravam nos bolinhos de bacalhau e nas frutas gordurosas.  O peru, o pernil e o presunto, segundo ordem inabalável de dona Póvoa, eram proibidos até a meia-noite.

Seu Heliberto, o dono da casa, perguntou para a esposa se o Papai Noel ainda demoraria muito.

— Não sei de nada. — Respondeu dona Póvoa — Mamãe é que está cuidando disso.

Dona Gracila, vinda dos quartos, foi capturada por seu Heliberto:

— Tudo bem com seu Nicanor? — Ele perguntou.

— Tudo.

— Como é que ele vai descer pela chaminé?

— Usando a escada.

— As crianças não vão ver a escada?!

— Não se a gente ficar em frente à lareira.

— Ah, entendi… — Consultou o relógio — São onze e quarenta.  Está ficando tarde…

— O Nicanor vai descer às dez pra meia-noite.  Ele só está preocupado se a lareira não está suja por dentro.

Seu Heliberto riu.

— Não tem problema nenhum.  O Ladislau limpou ela anteontem.  Eu verifiquei!

— Maravilha então!  Vai dar tudo certo, com certeza.

 

 

III

O Retrato

— Pára de enfiar essa mão cheia de dedo por debaixo da minha saia, por favor!

— Ah…

— Eu grito.

— Tá bom!  Tá bom!  É que eu não aguento te ver assim!

— Se não aguenta, avisa que eu vou embora.

— Fica.  A festa está boa.

— É que eu não conheço ninguém, Beraldo.

— Eu  não sirvo?  E é melhor que passar o natal na sua casa.

Fréia parou um pouco para pensar em seus pais, mas não muito, para não estragar a noite.

— Tem razão. — Concordou, de cabeça arriada.  Depois, mudou de assunto: — De quem é aquele quadro ali na parede?

Beraldo estava esperando a pergunta.  O quadro brilhava sob o luar, que o atingia em cheio, ficando ainda mais imponente.

— É o meu bisavô, Pompílio.  Foi ele que construiu essa casa aqui em Capivara, muitos anos atrás.  Depois ela passou pros meus avós, e quando morreram, ficou com meus tios.

— Ele tem uma cara estranha, não é?  Parece meio mau… — Na verdade, o que Fréia queria dizer é que era um dos quadros mais assustadores que ela já vira.

— Deve ser por causa da maldição… — Deixou escapar Beraldo, assim como quem não quer nada.

— Maldição?! — Exclamou Fréia, bem feminina.  Ele teve vontade de agarrá-la ali mesmo, mas era melhor acabar a história primeiro.

— Ele não gosta de gente demais na casa dele.

Fréia olhou em volta.

— Como hoje?

— Como hoje.

— Mas aí o que acontece? — Fréia, em um gesto inocente, colocou a mão na coxa dele.

Beraldo sorriu.

— Ele sai do quadro e alguém morre.

— Isso já aconteceu antes?

— Não sei, talvez sim, mas há muito tempo. — Disse ele, puxando no suspense — Meus avós estavam dando uma festa barulhenta, gente falando alto, tumulto etc.  O bisavô se irritou, saiu do quadro e um dos convidados, quando viu o retrato vazio, teve um ataque cardíaco e morreu — o que acaba com qualquer festa.  Missão cumprida, o bisavô voltou para o quadro e há quem diga que ele estava sorrindo e com os olhos brilhando…

— Ainda bem que ninguém está fazendo barulho.

— É.

— Dá pra tirar essa mão da minha coxa, por favor?!

 

 

IV

O Marambaia

— Ai, — Disse dona Póvoa, calçando as luvas — estou preocupadíssima com o Heliberto.  Não consigo nem dormir direito!

— Como assim? — Perguntou dona Sena.

— É esse trabalho de maluco dele! — Desligou o forno — Acho que ele se dedica demais, e acaba se metendo em confusão…  Estou morta de medo!

— O Heliberto sabe se cuidar, Póvoa.  Ele é muito responsável.

— Não é isso, Sena! — Tirou o arroz à grega do forno e passou-o à cunhada — É esse Marambaia que me apavora!

— Marambaia?

— Você não lembra, menina?!  Aquele psicopata horroroso que matou a família toda a golpes de pá, e que o Heliberto condenou!

— Ah!

— Pois você acredita que o homem fugiu da prisão?!

Dona Sena estremeceu e quase deixou cair a jarra de sangria que estava segurando.

— Eu não li nada—

— A polícia quis manter o assunto fora dos jornais pra não apavorar a população, mas o Heliberto foi informado através da promotoria.  E ainda recusou a proteção policial!

— O Marambaia não tinha jurado se vingar do Heliberto?

— Sena, você acha que eu estou preocupadíssima por quê?  Ele disse que ia pegar o Heliberto e arrancar todos os seus dedos das mãos e dos pés a dentadas.  E nós temos crianças aqui e tudo!  Como é que ele me recusa a proteção policial?!

Dona Sena se recostou na pia da cozinha.

— Agora quem está nervosa sou eu!

 

 

V

O Caxambu

Tacinho veio pulando para cima de seu tio.

— Tio Beto, cadê o Caxambu?

Ele sabia que a pergunta era inevitável.  O sobrinho sempre fora afeiçoado ao cachorro e não iria deixar de notar sua ausência.  Tentou explicar:

— O Caxambu foi embora, Tacinho.  Pro céu dos cachorros.

— Embora?

— É.  Ele estava cansado e precisava descansar um pouco.  Papai do céu chamou ele.

— Mas eu queria tanto ver o Caxambu!

— Não fica triste não, Tacinho.  A gente compra outro cachorro igualzinho ao Caxambu.

— Eu não quero outro cachorro.  Eu quero o Caxambu.  Ele é meu amigo.

Antes que Heliberto soltasse mais uma pérola da psicologia infantil, Beraldo se interpôs entre o tio e o irmão:

— Mamãe tá te chamando lá na cozinha, Tacinho.

Feliz em se esquecer do cachorro fora de seu alcance, Tacinho trotou até a cozinha.

— É verdade que o Caxambu morreu? — Perguntou Beraldo, quando seu irmãozinho estava longe.

— Encontramos ele no quintal ontem de manhã.

— Poxa, que chato.  O que foi que houve?

— A gente acha que uma onça pegou ele.  Sabe como é, os fundos da casa dão pra floresta e às vezes aparece uma.  O Caxambu estava todo estraçalhado no quintal, meio comido até.

— Que horrível!

— Tinha umas pegadas em volta, marcas de garra, mas os fiscais do Ibama disseram que era grande demais pra ser de onça.  Havia tufos de pêlo preto por todo lado também, só que como o Caxambu era bem branquinho, isso complicou ainda mais a situação.  O pior é que outros bichos foram atacados pela redondeza nos últimos dias e ninguém sabe o que pode ser…

Beraldo, entristecido pela perda do cachorro de que também gostava, foi se debruçar na janela da casa e ficou ali, admirando a lua cheia que brilhava no céu.

 

 

VI

O Homem no Quintal

Seu Nicanor, ainda lendo a Manchete e suando dentro da sua nada tropical fantasia, ouviu as batidinhas na porta do quarto.  Era a sua deixa.  Saiu correndo pelos fundos da casa.

O homem que estava no jardim, surpreso pela súbita aparição do Papai Noel, se escondeu atrás de uma árvore.  Observou seu Nicanor com atenção enquanto este arrumava o saco de presentes em suas costas e começava a subir a escada em direção ao telhado.

Com cuidado para não ser visto pelo velho, o homem se aproximou cauteloso da escada e quando Papai Noel estava quase lá em cima, o homem segurou-a com firmeza e começou a balançá-la.

 

 

VII

Os Brincos

— Quer parar, por favor, Beraldo?!

— É que você tem uns pezinhos tão bonitinhos…

— Faz cócegas e eu não gosto.  Que mania!

— Bem, — Disse ele — você acabou encontrando com o seu pai hoje?

— Eu não queria não, mas é véspera de natal e não teve jeito de fugir.

— Quando é que vocês vão resolver esse problema?

— Pelo visto, nunca.  Agora, depois que tudo mais falhou, ele está tentando me comprar.

— Como assim?

— Precisa ver o presente que ele me deu hoje. — Afastou os cabelos para que Beraldo pudesse observar o lóbulo de sua orelha.

— São brincos lindos!  Devem ter custado uma nota!

Ela fez cara de desprezo.

— Vê-se logo que você não conhece meu pai.  Eu sei bem a história desses brincos.  Li sobre eles na Marie Claire.

— História?

Levantou de novo os cabelos:

— Apresento-lhe os famosos Brincos Dourados da Morte, como foram apelidados pela imprensa marrom brasileira.

— Acho que eu ouvi falar.  Não é aquele que todos os donos— Se calou de súbito.

— Pode dizer, eu não tenho medo.  Todos os donos morrem violentamente.  E agora… são meus!

— Tira isso, Fré!

— E você ainda fala que custou uma nota!  Será que meu pai acha que não leio jornal?!  Ontem foi o leilão do espólio da última dona desses brincos, que teve a cabeça esmigalhada em um acidente de bicicleta.  Ninguém quer essas porcarias, vai ver pagaram pro meu pai levar eles embora!

— Tá bom, tá bom, agora tira esse troço!

Fréia riu para ele:

— Ora, ora, se não é o mesmo Beraldo que quinze minutos atrás estava tentando me assustar com uma história ridícula sobre um homem que sai de um quadro…

— É verdade! — Insistiu ele.

— Pois eu vou provar que a maldição do brinco não é!  Só de pirraça!  E também, — Acrescentou em um tom de voz meigo, mas cheio de amargura — não seria certo deixar de usar o presente de meu querido “papai”…

 

 

VIII

O Jardineiro

— Quem está aí?! — Perguntou seu Nicanor, assustado com os sacolejos — Não tem graça nenhuma!

— Ô seu Nicanor, sou eu, Ladislau, o jardineiro.  Tava vindo do Bar Bitúrcio pra desejar feliz natal, vi o senhor aí, nessa fantasia, e quis pregar um susto.  Desculpa.

— Tudo bem, Ladislau.  Natal é natal, tem que perdoar.  Feliz natal pra você e pra sua família.

— Pra sua também, seu Nicanor.  Os netos é que vão gostar da fantasia, hein?  Mas não está muito quente pra esse tipo de roupa, não?

Papai Noel balançou a cabeça em afirmação e exclamou, mais uma vez:

— Tudo pelos netos!

 

 

IX

O Papai Noel

A escada desceu pela chaminé com o maior cuidado para não fazer barulho.  Em frente à lareira, seu Heliberto, dona Póvoa e dona Gracila conversavam sobre política, enquanto dona Sena, Beraldo e Fréia, do extremidade oposta da sala, tentavam distrair as crianças e fazê-las olhar para o outro lado.

Então, com um ruído seco, Papai Noel chegou.

Por um segundo ele ficou ali, imóvel, sem dizer uma palavra, e dona Gracila, tensa por causa de certos artigos no jornal, também se calou, fazendo o silêncio reinar na sala.

Meu deus!, ela pensou, não é o Nicanor!  Esse Papai Noel não é o meu marido!

Dona Gracila estava prestes a gritar para todos a apavorante verdade quando o bom velhinho piscou para ela, soltando sua inconfundível pigarreada.

Era mesmo seu Nicanor, pensou, aliviada, enquanto as crianças avançavam ferozes em direção a ele.  Chegaram perto, o abraçaram, puxaram sua barba e sentaram em seu colo, maravilhadas.

Lelinho, o mais velho, chegou a comentar, de maneira meio suspeita:

— Pena que o vovô não está aqui, não é?

 

 

X

A Metralhadora Laser

Era a hora dos presentes.  Dezinha, de três anos, ganhou um cone de pano que quando apertava, fazia desabrochar um palhaço.  Tacinho, de sete, ganhou uma metralhadora laser, que ficava vermelha, soltava faíscas e fazia um barulho infernal.  E Lelinho, de oito, ganhou um boneco de algum super-herói japonês para a sua enorme coleção.

Depois das crianças, foi a vez de Papai Noel entregar os presentes dos adultos.  Beraldo recebeu dois CDs e Fréia, uma agenda.  Dona Póvoa ganhou um novo liquidificador e seu Heliberto, uma gravata de seda.  Dona Gracila recebeu um belíssimo livro de arte sobre os impressionistas e seu Nicanor, um par de meias de lã in absentia.

— Tudo bem, Beraldo? — Perguntou Fréia.

— Claro, claro. — Ele estava com os olhos fixos no retrato do bisavô, enquanto Tacinho fazia a maior barulheira possível com sua metralhadora laser.

Será que de tanto contar essa história, ele acabou acreditando?, pensou Fréia.  Então, percebeu que os olhos do bisavô tinham começado a brilhar.

Sufocou um grito e agarrou o braço de Beraldo, que também estava hipnotizado pela cena.  No quadro, a figura do bisavô ficava cada vez mais fraca, quase sumindo.

— Pára com essa barulheira, Tacinho! — Interpelou seu Heliberto — Está tarde!  Amanhã de manhã você brinca no jardim!

Contrariado, o menino jogou a metralhadora no chão e saiu da sala.

Beraldo e Fréia despencaram no sofá.  O retrato do bisavô continuava como antes.

 

 

XI

O Estrondo

A mesa estava liberada.  Papai Noel havia desaparecido e seu Nicanor se juntara à família, sob os olhares suspeitos de Lelinho.  Comiam, entre conversas e felicitações.

Foi necessário um estrondo, como de algo grande e peludo se chocando contra a porta, para mais uma vez interromper a festa.

— Meu deus, o que foi isso? — Perguntou dona Sena.

Seu Heliberto riu.

— Nada não, Sena.  Aqui em Capivara venta muito e a porta está meio solta.  De vez em quando ela bate.  É assim  mesmo.

— Mas tão forte?  Parecia alguém tentando arrombar…

— Deixa que eu te mostro.

Andou em direção à porta e dona Póvoa gritou:

— Heliberto, não abre essa porta!

Ele fez pouco:

— Besteira!

E abriu a porta.  Não havia nada lá fora.

 

 

XII

O Fim

Depois de saciada a fome, foram todos sentar na sala pra jogar conversa fora.  Papearam sossegados até o sono chegar.  As crianças, em seus quartos, ficaram acordadas um bom tempo, fascinadas com seus novos brinquedos.

Nossa história termina aqui.  Sem horrores, mortes ou sangue.  Tudo isso pode ficar para outro dia, para outro conto.

Afinal, hoje é noite de natal.

 

 

XIII

— Quer tirar a mão do meu peito, por favor?!  Olha que eu grito, hein?!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados.

Escrito na véspera de natal de 1987, quando eu tinha treze anos e estava empenhado em ler e devorar e deglutir e imitar e reproduzir os contos de terror de H. P. Lovecraft e Stephen King. Quase tudo o que escrevi na época é lixo e vale apenas como exercício (<em>treze anos, gente!</em>), mas esse aqui, em alguma medida, se mantém.

Possui uma voz própria que já dá pra reconhecer como minha. Não é bom, não é publicável, mas já é meu. Não é pastiche de ninguém.

Naturalmente, a mão narrativa é bem pesada e o desfecho me parece bem óbvio (<em>treze anos, gente!</em>) mas fico feliz de ver que sempre tive um bom ouvido pra clichês e lugares comuns.

§ 2 respostas para sangue e morte na noite de natal – um conto de terror

  • Letícia disse:

    Ah, Alex, acho que vc está sendo um pouco duro. eu gostei bastante! Ainda mais considerando que vc tinha 13 anos! Este conto tá bem melhor que alguns trechos daqueles livros ruins que ficam nos 10 mais vendidos da Veja, sabe qual?
    hahaha

  • Alessandro disse:

    Fala a verdade, você já tinha quinze anos… Todo mundo tira 2 anos ao apresentar as suas obras-mirins. :-)

    E já dá para perceber a sua fixação tarantinesca por pés.

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