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pode um cabelo ser pior?

um dos grandes problemas das sociedades escravistas sempre foi como distinguir as pessoas escravizadas das livres. cada cultura resolveu o problema de um jeito: mudança de nome, tatuagem, marcar a ferro, vestimentas.

* * *

na roma antiga, uma das maiores sociedades escravistas de todos os tempos, o problema era especialmente complicado.

não só as pessoas escravizadas poderiam ser de dezenas de cores e etnias por todo o império, como também havia um alto índice de manumissão e mistura com as parcelas livres e pobres.

para resolver o problema, conta sêneca em “tratado sobre a clemência”, um senador sugeriu que as pessoas escravizadas usassem um tipo específico de vestimenta.

ao que outro respondeu:

“então, andando pelas ruas de roma, bastaria que olhassem em volta para se dar conta de sua superioridade numérica.”

a ideia foi imediatamente abandonada.

os senadores romanos tinham muita fé na natureza humana.

* * *

a cabeça raspada era associada à morte e à escravidão em todo o mundo, escreve orlando patterson. raspar o cabelo de uma pessoa escravizada simbolizava sua morte social e condição permanente de liminaridade, nem viva e nem morta, nem pessoa e nem objeto.

a escravidão negra nas américas, entretanto, a outra grande sociedade escravista da história, foi a exceção à essa regra.

afinal, em um continente onde os tons de pele eram tão variados e misturados, as pessoas escravizadas já traziam bem visível nos cabelos a marca da sua negritude.

raspá-los só ofuscaria a distinção.

* * *

não é à toa que o cabelo das pessoas africanas foi chamado de “ruim”. pode um cabelo ser pior do que o cabelo que lhe marca como cativa e sub-humana?

nossa tarefa hoje é ressignificá-lo. um afro de cada vez.

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