Como consolar alguém de luto

De repente, sem aviso, Jó perde tudo: seus rebanhos, seus empregados, seus filhos, suas casas.

Estupefato, com feridas terríveis da sola dos pés até o alto da cabeça, sem saber o que fazer, sentado nas cinzas da sua casa, ele se coça com um caco de telha, em uma das imagens mais patéticas e tristes da Bíblia.

Então, é visitado por três amigos.

Para compartilhar sua dor e consolá-lo, os amigos sentam-se nas cinzas ao seu lado e passam ali sete dias e sete noites, sem dizer uma palavra sequer.

Uma palavra sequer.

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O mundo é abusivo para as mulheres

Como ser um homem não-canalha em um mundo criado e pensado para ser abusivo para as mulheres?

toda relação homem mulher é assimétrica capa

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Novíssimo texto, com ilustrações originais de Flávia Tótoli:

Toda relação homem-mulher é assimétrica

toda relação homem mulher é assimétrica

A desesperança do luto

A esperança é nos fode. A esperança nos estressa. A esperança nos faz lutar infindavelmente em prol de causas perdidas — pois, afinal, há uma esperança.

Quantas pacientes de câncer não teriam aproveitado melhor e com mais substância seus últimos meses de vida, em paz, em contemplação, cercadas de seus entes queridos…

…se não estivessem “lutando até o fim”, pulando de médica em médica, sendo as “batalhadoras” contra o câncer que nossa sociedade espera que todas sejamos?

A beleza do luto é que não há mais esperanças.

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o que é ler um livro?

uma pergunta: o quanto de um livro eu preciso ler para poder dizer que li esse livro?

outra pergunta: quem se importa?

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estupro ex machina

o mundo é tão, mas tão misógino que inventa novas maneiras de ser misógino até com mulheres que nem mesmo existem.

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deus ex machina:

expressão grega. literalmente, “deus surgido da máquina”. quando, no fim de uma tragédia, deus desce dos céus e literalmente resgata o protagonista, criando assim um inesperado, improvável e mirabolante final feliz.

estupro ex machina:

neologismo, séc.XXI. quando, em uma obra de ficção, uma ou mais mulheres são estupradas, objetificadas, humilhadas somente para chocar a platéia e/ou avançar o arco narrativo de um personagem masculino, que precisa de um motivo para 1) sofrer, 2) se vingar, 3) tornar-se um homem forte, duro e silencioso, 4) etc etc.

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as pessoas são fracas

as pessoas são fracas.

elas não sabem o que querem e não tem a menor ideia de quem são. agem contra seus próprios interesses, machucam quem gostam, fazem tudo errado.

inclusive eu e você.

ou reconhecemos que somos todas assim (que essa é nossa condição existencial) e desenvolvemos uma maior tolerância para as fraquezas humanas (que também são as nossas)

ou passaremos a vida em um triste e solitário pedestal, julgando e criticando as pessoas abaixo de nós pelas mesmas fraquezas que cometemos sem perceber.

as pessoas sao fracas

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“e se todo mundo fizesse como eu?”

às vezes, em resposta a algum dos meus textos, ouço a seguinte objeção:

“e se todo mundo fizesse como você, hein? nisso você não pensa, né?”

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porque não gosto de ted talks

ted talks são onde o conhecimento vai para morrer.

de morte horrível, convulsionada, agonizante.

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marchinha pro carnaval 2017

“se gritar pega ladrão, só fica a dilma, irmão.”

A era do ceticismo crédulo

Quanto mais cética e cínica a pessoa, mais crédula e ingênua ela será.

As notícias falsas se tornaram um problema justamente porque as pessoas estão tão céticas que, em seu ceticismo crédulo, acreditam ingenuamente em qualquer narrativa alternativa.

Esse é o grande paradoxo dos tempos atuais.

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dilema do historiador de meia-idade

tenho 45 anos e sou historiador.

meu lado quarentão acha, sinceramente, que o mundo está indo pro saco, que as pessoas perderam a noção, que estamos começando uma nova era de barbárie.

meu lado historiador sabe, comprovadamente, que em todas as épocas a geração que ia chegando na meia-idade sempre achava que o mundo estava indo pro saco, que as pessoas tinham perdido a noção, que estava começando uma nova era de barbárie.

quando você não confia em sua própria opinião, está na hora de enfiar a viola no saco e ir ler a ilíada offline.

e não é que é errado isso?

dirigir no rio com uma haole* é recuperar um pouco de uma noção do absurdo que já perdemos há décadas.

rio de janeiro

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hoje à noite, no cassino da urca

bondes circulam no centro do rio de janeiro.

a febre amarela está de volta.

ministro considerado para o supremo defende “submissão da mulher”.

o lado bom é que a qualquer momento machado de assis deve lançar um novo romance.

Largo-da-Lapa

Nostalgia da pólio

Nunca vi nostalgia alguma que não fosse fundamentada numa sólida ignorância do passado.

rio de janeiro palacio monroe

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uma moça chamada lisa

lisa era pobre mas tinha um nome importante. o seu marido era rico, bem mais velho, mas não tinha nome. casaram. para marcar sua ascensão social, encomendaram um retrato da esposa, então com vinte e poucos. ela posou para o pintor diversas vezes ao longo de anos. ele fazia de tudo para distraí-la e manter sempre um sorriso em seus lábios. (como seria a convivência entre os dois? do que conversavam?) o pintor não ficou satisfeito com o quadro. nunca recebeu o dinheiro da comissão, nunca entregou o quadro inacabado. quando se mudou de cidade, levou o quadro junto. não sabemos a relação do casal com o quadro que encomendaram, não pagaram, não levaram. será que viram? devem ter vivido suas vidas sem pensar muito nisso. lisa teve 5 filhos e morreu aos setenta e poucos. hoje, 500 anos depois, ela talvez seja o rosto humano mais famoso de todos os tempos.

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textos que incomodam e perturbam

quero chacoalhar e incomodar. se você não se sente chacoalhada e incomodada lendo meus textos, então, não está funcionando.

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A criança que fui, o homem que inventei

Fazer hoje o que eu quero fazer hoje é mais importante do que fazer hoje o que eu posso vir a querer ter feito amanhã.

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Pelo direito de estarmos confusas

Estar confusa só faz bem.

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nosso maior medo é a falta de controle

acidentes aéreos escancaram nossa impotência diante do acaso. teorias da conspiração recuperam alguma medida de controle sobre nosso destino.

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