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aula 04: cristãos grande conversa zen

Os Padres do Deserto

Talvez os últimos cristãos verdadeiros, iconoclastas que escolheram seguir os ensinamentos da pessoa Jesus em detrimento das ordens da instituição criada por Paulo.

Foram talvez os últimos cristãos verdadeiros, os últimos iconoclastas que escolheram seguir os ensinamentos da pessoa Jesus em detrimento das ordens da instituição criada por Paulo.

padres do deserto

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Breve apresentação dos Padres do Deserto

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, encerrando trezentos anos de perseguição e martírio, algumas pessoas consideraram que sua prática religiosa cristã era incompatível com essa nova religião de Estado que surgia, institucionalizada e poderosa, e decidiram simplesmente se internar nos desertos do Egito, sozinhas ou em pequenas comunidades.

Essas pessoas, apesar de hoje lembradas como Padres e Madres do Deserto e de serem respeitosamente referidas como “monge” ou “abade”, em sua enorme maioria não eram religiosas ordenadas; não possuíam nenhum treinamento ou formação sacerdotal, teológica, litúrgica; não tinham nenhum apoio ou chancela das instituições cristãs oficiais da época.

Eram só pessoas, imbuídas de uma fé profunda e quiçá enlouquecida, que se isolaram do mundo para poder viver mais livremente o tipo de vida que consideravam adequado. Não eram fofas. Não estimulavam visitas. Não tentavam convencer ninguém. Acreditavam com intensidade na força do momento-presente.

Na Idade Média, foram celebradas; na Renascença, esquecidas; no século XX, recuperadas.

Um dos responsáveis por sua renovada popularidade é o monge trapista Thomas Merton, que escreveu, em A sabedoria do deserto:

“[Os Padres do Deserto] insistiam em permanecer humanos e ‘comuns’. … [F]ugir ao deserto para ser extraordinário é somente carregar o mundo como um padrão implícito de comparação. … Os homens simples que viveram suas vidas até uma idade avançada entre pedras e areia só o fizeram porque haviam ido ao deserto para serem eles mesmos, para viverem seu eu ordinário, e para esquecerem um mundo que os mantinha afastados de si mesmos. … O que ganhamos ao viajar à lua se não formos capazes de cruzar o abismo que nos separa de nós mesmos? … [D]eixar o mundo é … ajudar a salvá-lo, salvando-se a si mesmo. … Os eremitas cópticos que deixaram o mundo, embora estivessem escapando de um naufrágio, não pretendiam apenas salvar suas vidas. Eles sabiam que eram incapazes de fazer algum bem aos outros enquanto se debatessem no naufrágio. Porém, uma vez que conseguissem colocar os pés em terra firme, as coisas seriam diferentes. Nesse momento eles não apenas teriam o poder, mas a obrigação de trazer todo mundo a salvo atrás deles.” (12, 24-25.)

Para mim, trilhando o caminho do zen, os atos, as falas, as histórias dos Padres e Madres do Deserto têm tido um impacto profundo.

Abaixo, algumas delas.

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Atos dos Padres do Deserto

“Um irmão perguntou a Pai Sisoes: ‘Padre, o que devo fazer, pois caí em tentação?’ Pai Sisoes disse: ‘Levanta-te novamente!’ O irmão retrucou: ‘Eu me levantei, mas voltei a cair!’ E o Padre aconselhou: ‘Então te levanta de novo e toda vez!’ O irmão perguntou: ‘Até quando?’ E o ancião respondeu: ‘Até seres aceito ou no bem ou na queda.’” (Grun, 53)

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“Ao ser requerido a proferir um discurso diante do Arcebispo Teófilo, Padre Pambo teria dito: ‘Se ele não tirar nenhum benefício do meu silêncio, tampouco poderá tirá-lo do meu discurso’.” (Grun, 64)

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“Pai Zeno pôs em teste um famoso jejuante. Mandou que viesse ter com ele e, sem dizer palavra, sentou-se ao lado dele e começou a trabalhar. O jejuante, então, ficou muito inquieto, sentia-se torturado pela falta de vontade. Quando este começou a referir sua práxis de jejum em seu povoado, Zeno lhe respondeu: ‘No povoado tinhas o gozo para teus ouvidos. Agora, vai embora e alimenta-te a cada nove horas. E quando fizerdes alguma coisa, faze-o no oculto!” (Grun, 73)

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“Um irmão foi até Cétia pedir boas palavras ao abade Moisés. O ancião respondeu-lhe: ‘Volte para sua cela, sente-se e ela lhe ensinará tudo o que precisa.” (Merton, 33)

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“O abade Hiperéquio disse: ‘É melhor comer carne e beber vinho do que devorar a carne do seu irmão, desprezando-o.” (Merton, 35)

mapa de onde ficavam os padres do deserto

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“Um dos monges, chamado Serapião, vendeu seu livro do Evangelho e deu o dinheiro àqueles que estavam com fome. ‘Vendi o livro que me instruiu a vender tudo o que eu tinha para dar aos pobres,’ disse ele.” (Merton, 41)

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“Certa ocasião, no vale das celas, os irmãos estavam reunidos, comendo no local de assembléia. Um dos irmãos presentes disse ao que servia à mesa: “Eu não como nenhum alimento cozido, apenas um pouco de sal.’ O irmão que servia à mesa chamou outro irmão e, à frente de todos na assembleia, disse em voz alta: ‘Aquele irmão não come alimentos cozidos, traga um pouco de sal para ele.’ Um dos anciãos levantou-se e disse ao irmão que só queria sal: ‘Seria melhor você ter comido carne sozinho na sua cela hoje do que ter deixado que isso fosse dito na presença de tantos irmãos.’” (Merton, 44)

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“Um irmão perguntou ao abade Pastor: ‘Eu perco a calma quando estou sentado sozinho, em minha cela, orando. O que devo fazer?’ O ancião respondeu-lhe: ‘Não despreze ninguém, não condene ninguém, não censure ninguém. Deus lhe dará a paz e sua meditação não será perturbada.’” (Merton, 45)

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“O abade Pastor disse: ‘ A malevolência nunca acabará com a malevolência. Se alguém lhe fizer mal, faça o bem a essa pessoa, assim, a sua boa ação pode destruir a malevolência.’” (Merton, 47)

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“O abade Pastor recebeu a seguinte dúvida de um irmão: ‘Como devo me comportar no local onde vivo?’ O ancião respondeu: ‘Seja cauteloso como um forasteiro. Onde quer que esteja, não deseje que suas palavras tenha força diante de si, e terá paz.’” (Merton, 59)

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“O diabo apareceu a um dos irmãos transformado em anjo da luz, e lhe disse: ‘Eu sou o anjo Gabriel e fui enviado a você.’ Porém, o irmão respondeu: ‘Pense bem, você deve ter sido enviado a outra pessoa. Não fiz nada para merecer um anjo.’ Imediatamente, o diabo desapareceu.” (Merton, 60)

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“O abade Pastor disse: ‘Qualquer prova colocada a você pode ser vencida pelo silêncio.’” (Merton, 61)

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“O abade Pastor contou que o abade João, o anão, orara ao Senhor e que o Senhor o livrara de todas as paixões, tornando-se assim impassível. Nessa condição, foi até um dos anciãos e disse: ‘Você tem diante de si um homem que está em pleno descanso e livre de todas as tentações.’ O ancião disse-lhe: ‘Vá e reze ao Senhor para que lhe envie alguma luta a ser travada dentro de si, porque a alma é amadurecida por meio de batalhas.’ Então, quando as lutas começaram a aparecer novamente, ele não pediu para que fossem afastadas, apenas disse: ‘Senhor, dê-me forças para resistir à luta.’” (Merton, 64)

como eram as celas dos padres do deserto

(os monges moravam em celas como essas, que abrigava três.)

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“Certa vez, alguns ladrões invadiram o mosteiro e disseram a um dos anciãos: ‘Viemos para levar tudo que há em sua cela.’ Ele respondeu: ‘Meus filhos, peguem tudo o que desejarem.’ Então, eles pegaram tudo o que acharam na cela e foram embora. Porém, deixaram uma pequena bolsa que estava escondida na cela. O ancião pegou-a e foi atrás deles, gritando: ‘Meus filhos, vocês esqueceram isso na cela!’ Surpresos com a resignação do ancião, trouxeram tudo de volta para a cela e se arrependeram, dizendo: ‘Esse é realmente um homem de Deus.’” (Merton, 66)

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“O abade Agatão admoestava frequentemente seu discípulo, dizendo: ‘Nunca adquira para si nada que hesitasse dar a seu irmão se ele lhe pedisse … Se alguém lhe pedir algo, dê; se alguém quiser algo emprestado, não recuse.’” (Merton, 67)

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“O abade José perguntou ao abade Pastor: ‘Diga-me como posso me tornar um monge.’O ancião respondeu: ‘Se você quiser descanso nessa vida e também na próxima, em todo conflito com outro, diga: ‘Quem sou eu?’ e não julgue ninguém.’” (Merton, 70)

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“O abade João costumava dizer: ‘Nós nos desincumbimos de uma carga leve, que é a repreensão a nós mesmos, e no lugar dela optamos por carregar uma carga pesada de nos justificar e recriminar os outros.’” (Merton, 79)

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“Um grande nobre desconhecido de todos veio até a Cétia, trazendo consigo ouro, e perguntou ao padre do local onde poderia deixar aquele ouro para os irmãos. O padre disse a ele: ‘Os irmãos não precisam disso.’ O nobre insistiu e não aceitaria ‘não’ como resposta; então, colocou a cesta com o ouro na porta de entrada da igreja e disse ao padre: ‘Aqueles que desejarem um pouco, podem pegar à vontade.’ Porém, ninguém tocou no ouro, alguns nem mesmo olharam para a cesta. O ancião disse ao nobre: ‘O Senhor aceitou sua oferta. Vá agora e doe aos pobres.’” (Merton, 80-81)

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“Certa vez, o abade Macário, depois de ter dado a benção aos irmãos na igreja de Scete, lhes disse: ‘Irmãos, retirai-vos.’ Um dos anciãos replicou: ‘Como podemos nos retirar mais do que isso, visto que já estamos no deserto?’ Então, Macário colocou o dedo em seus lábios, dizendo: “Retirai-vos a partir daí.” Dito isso, entrou em sua cela e fechou a porta.” (Nouwen, 41)

padres do deserto

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Leituras que trazem mais leituras

Em nosso templo zen (Eininji – Templo do Cuidado Amoroso Eterno), estou fazendo um curso de Formação de Instrutores de Meditação, dado por nosso irmão responsável, Álcio Braz.

Esse curso já estaria virando minha vida da cabeça pra baixo apenas pelas leituras às quais me levou, que me levaram a outras e outras leituras, e as leituras são a parte menos importante e menos impactante do curso.

Uma das leituras foi A montanha no oceano: meditação e compaixão no Budismo e Cristianismo, de Jean-Yves Leloup, lido em abril e que me deixou uma fortíssima impressão. O autor é padre grego ortodoxo e o livro fala, entre outras coisas, sobre o hesicasmo, técnicas de meditação dos padres ortodoxos de Monte Atos, na Grécia. No livro, Leloup menciona bastante dos Padres do Deserto. Curioso, fui atrás deles.

Abaixo, os livros que eu li, e as fontes dos textos acima. Para quem lê inglês, recomendo a edição da Penguin, traduzida e editada por Benedicta Ward. Para quem só lê português, o livro do Merton é uma excelente seleção.

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A sabedoria do deserto: ditos dos Padres do Deserto do século IV, de Thomas Merton, 1960, inglês. [Trad: Helio de Mello Filho, 2004.]

A orientação espiritual dos Padres do Deserto, de Anselm Grün, 2002, alemão. [Trad: Enio Paulo Giachini, 2013.]

O caminho do coração: a espiritualidade dos Padres e Madres do Deserto, de Henri Nouwen, 1981, inglês. [Trad: Denise Jardim Duarte, 2012.]

The desert fathers, c.III-IV, copta. [Trad, org: Hellen Waddell, 1936.]

The desert fathers, sayings of the early Christian monks, c.III-IV, copta. [Trad: Benedicta Ward, 2003.]

4 respostas em “Os Padres do Deserto”

O silêncio, intrinsecamente ligado à solidão, desempenha um papel crucial na vida eremítica. Na ausência de ruídos externos, emerge a oportunidade de ouvir as vozes internas, tanto as tumultuadas quanto as tranquilas. O silêncio não é apenas a ausência de palavras, mas sim um estado de ser que convida à reflexão profunda e à escuta atenta do eu interior e do sagrado. É nesse silêncio que a mente inquieta pode gradualmente encontrar a serenidade e a clareza necessárias para a busca espiritual.
A oração, como um ato de comunicação com o transcendental, encontra um solo fértil na vida eremítica. Longe das distrações cotidianas, o eremita tem a oportunidade de se engajar em um diálogo íntimo com o divino. A oração se torna não apenas uma solicitação por bênçãos ou uma busca por respostas, mas também uma expressão do anseio mais profundo da alma por união com o divino. Através da oração, o eremita pode buscar orientação, conforto e um senso de propósito que transcende as preocupações mundanas.

A simplicidade é uma característica intrínseca à vida eremítica e à espiritualidade contemplativa como um todo. A renúncia às possessões materiais supérfluas e às complexidades da vida moderna permite ao eremita mergulhar na essência da existência. A vida despojada de distrações desnecessárias possibilita uma concentração mais profunda nas práticas espirituais e no autoconhecimento. Através da simplicidade, o eremita encontra uma liberdade que provém da desvinculação das amarras das preocupações mundanas, abrindo espaço para um contato mais genuíno com os aspectos mais profundos da vida e da espiritualidade.

Padres do deserto é um mundo que precisa ser descoberto por todos os religiosos Cristãos. Neste lugar há mais tesouros que nas minas do Rei salomão. Sempre me sinto enriquecido após qualquer leitura sobre essa legião de anjos. Deus os tenha em sua sabedoria, paz, sabedoria e isolamento.

Muito interessante. Na minha trajetória de Cristão, não me recordo de ter ouvido falar a respeito deles. Pretendo ler mais sobre os Padres do Deserto a partir de agora.

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