Odisseia, de Homero

A Odisseia, de Homero, é a primeira grande história de aventuras da tradição ocidental. Indispensável para qualquer pessoa interessada em literatura.

Mas prefiro a Ilíada.

odisseia cia das letras lourenço

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Quem escreveu a Odisseia?

A Ilíada e a Odisseia, dois poemas épicos gregos, são atribuídos ao mesmo autor, Homero. Ambos trazem marcas tanto de oralidade quanto de extensas adições e retrabalhos. Homero terá sido o poeta oral que deu início a elas? Ou terá sido o escriba que primeiro as colocou no papel? Não sabemos nem se existiu. De qualquer modo, é claro que ambos os poemas, como chegaram a nós hoje, são a culminação de séculos de trabalho por uma multidão de artistas anônimos.

A Ilíada é a história de alguns poucos dias durante a Guerra de Troia. A Odisseia é a história da volta de um dos heróis da Guerra para casa, Odisseu (ou Ulisses). Ao longo dessa última, acontecem muitos flashbacks sobre a Guerra da Troia.

Uma curiosidade interessante: nenhuma, nenhuminha informação da Ilíada é repetida na Odisseia. Ou seja, quando Odisseu rememora a Guerra de Troia, ele só menciona, sem exceção, fatos e eventos que não estão na Ilíada.

Para muitos, esse seria o mais forte indicador de uma autoria conjunta de ambas as obras. Mas pode igualmente ter sido trabalho de algum copista diligente dos séculos seguintes.

Na verdade, são duas obras vastamente diferentes.

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Odisseia, uma obra feminina

Em primeiro lugar, a Ilíada é masculina e a Odisseia, feminina.

A Iliada é um poema de guerra, onde as mulheres praticamente não têm vez e só aparecem como despojos de batalha ou esposas chorosas. Já a Odisseia é um poema doméstico, onde, através das andanças de Odisseu, entramos na intimidade de várias casas e palácios gregos, onde reinam as mulheres, boas ou malvadas, mortais ou deusas.

Penélope, esposa de Odisseu, talvez seja o mais perfeito retrato de uma mulher em toda a literatura grega; Nausicaa, a princesa que resgata Odisseu, que gostaria de casar com ele e cuja ilha some da história por tê-lo resgatado; Calipso, a deusa que queria tê-lo consigo e tem que abrir mão dele; Circe, deliciosamente malvada, transformando homens em porcos, mas que não consegue resistir aos charmes de Odisseu (criando assim o eterno clichê da vilã que se apaixona pelo heroi); as sereias, cujo silêncio pode ser pior que o canto, ou assim nos ensina Kafka; Euricleia, a velha empregada que reconhece Odisseu por uma cicatriz na perna, em uma cena magistralmente analisada por Auerbach, em Mimesis (falo mais sobre isso nas leituras de maio de 2017); e até mesmo Helena de Troia, em um de seus retratos mais generosos e compassivos da literatura grega.

Para muitas pessoas estudiosas, tanta empatia pelas mulheres teria sido inconcebível vindo do mesmo autor da Ilíada, um poema tão profundamente masculino e que tanto ignora as mulheres. Por isso, levanta-se a pergunta: terá a Odisseia sido escrita, ao menos parcialmente, por uma mulher?

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Qual edição ler?

Quase sempre, uma boa tradução pode ser a diferença entre um livro empolgante e um livro chatérrimo.

Antes de tudo, é fundamental ressaltar que a Odisseia é um poema. Então, abaixo, vou falar somente de traduções integrais e em poesia. Qualquer edição da Odisseia que seja fininha e em prosa é uma adaptação. Nada contra adaptações: para quem têm dificuldade com o estilo, elas podem ser uma boa porta de entrada.

Em português, a tradução pioneira é a de Odorico Mendes, poética e inovadora, de 1874 e ainda em catálogo. Hoje, ela é uma obra de arte por si mas eu diria que interessa mais a quem quer saber como um intelectual brasileiro do século XIX, brilhante e palavroso, traduziria a Odisseia do que para quem quer ler a Odisseia em si.

A tradução talvez mais fácil de encontrar é a de Carlos Alberto Nunes, da década de 1960, disponível por várias editoras (Nova Fronteira, Hedra, etc), mas que eu considero antiquada e difícil de ler.

Existem duas novas traduções bastante boas, do Christian Werner (2014) e do Trajano Vieira (2011). O Trajano especialmente tem algumas traduções excelentes de peças gregas – adoro seu Filoctetes – e trabalhou com Haroldo de Campos em sua épica transcriação da Ilíada. A grande qualidade de ambas essas traduções também é seu grande problema: elas fazem um enorme esforço para reproduzir a poética da linguagem, o que às vezes afeta a fluência da leitura. Ou seja, são lindas, belíssimas, mas podem ser difíceis para a leitora comum.

Minha recomendação para a pessoa leitora brasileira é uma nova tradução que consegue aliar uma belíssima linguagem poética com um português moderno que não trava a leitura: a de Frederiço Lourenço, lançada em Portugal em 2003, e publicada no Brasil pela Companhia das Letras em 2011, em uma edição caprichada, com introdução, mapas, glossário e notas. (É a capa que está no topo desse texto.)

Para quem lê inglês, recomendo a tradução de Stanley Lombardo (2000), extremamente fluente e ágil, moldada ao vivo nas performances que o tradutor realiza, lendo a Odisseia em voz alta, como foi feita para ser consumida.

Aliás, recomendo todas as traduções de Lourenço e Lombardo.

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Odisseia vs Ilíada

A Odisseia, naturalmente, é uma das obras-primas da humanidade e precisa ser lida por qualquer pessoa que tenha qualquer interesse por literatura. (Leia meu texto Bíblia, Ilíada, Odisseia, indispensáveis.)

Entretanto, em termos narrativos, eu a considero inferior à Ilíada.

A Odisseia, literalmente, bem, é uma odisseia, uma viagem que meandra pelos mares da Grécia, cheia de começos e recomeços, de personagens que entram e saem de cena, com algumas partes melhores, outras piores, mais tensas, mais relaxadas, mais desenvolvidas, menos exploradas. (Por exemplo, eu adoraria ter sabido mais sobre os comedores de lótus.)

Já a Ilíada é uma sequência de porradas cirúrgicas, direcionadas, contidas, sem uma única linha sobrando.

O pano de fundo é o mais amplo possível, a maior guerra de todos os tempos, com os Deuses por trás, mas a ação é simples e direta: dois marmanjos mimados brigam por uma mulher; o que perde, fica de mal e diz “não brinco mais”; dá merda e ele volta. Em meio a uma guerra que durou dez anos, toda a ação da Ilíada se concentra em nove dias.

Nenhuma obra fala sobre a guerra com tanto conhecimento de causa: antes de cada batalha, os heróis preparam cada objeto, afivelam cada cinto, afiam cada espada. Um autor que hoje escreve um romance de guerra, mesmo que seja veterano, mesmo que escreva primordialmente para seus colegas veteranos, sabe que a maioria das suas pessoas leitoras jamais experimentou ou experimentará combate. Já a Ilíada presume ouvintes que sabem: é um poema de guerra, escrito provavelmente por um guerreiro para um público certamente de guerreiros.

Nenhum obra literária é tão dura, tão impiedosa. A Ilíada é um catálogo de mortes. Personagens que jamais tínhamos ouvido falar morrem em nossa frente e, de algum modo, Homero consegue fazer com que nos emocionemos. Não é à toa que a poetisa inglesa Alice Oswald escreveu uma longa poesia somente memoriando todas as mortes da Ilíada: Memorial, an Excavation of the Iliad, 2011.

A Ilíada é um poema em ponto de fuga, todo ele apontando para um final cataclísmico que está fora do poema mas é conhecido por nós. A tensão nunca relaxa, mesmo nos momentos de distensão: todos os gregos são babacas, todos os troianos são nobres, mas, ainda assim, sabemos que no final da história Troia será arrasada e todos os troianos, mortos, e as troianas escravizadas.

Nossa tradição narrativa, do teatro clássico a Hollywood, nasce com Homero: a decisão de cada artista posterior é, em larga medida, polvilhar mais da Ilíada aqui, mais da Odisseia ali, dependendo do gosto do cliente.

A Odisseia é maravilhosa, mas a Ilíada é a obra narrativa perfeita.

Um dia, escrevo mais sobre a Ilíada.

(Tem um pouquinho aqui, no final.)

§ uma resposta para Odisseia, de Homero

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