o sonho dos meus 12 anos

aos 12 anos, todas temos sonhos do que queremos ser quando crescer. depois, quase todas nós caímos na real e percebemos que arriscar a vida pra apagar fogo pode não ser um bom negócio.

os sonhos dos 12 anos tendem a ser inviáveis e irreais. quase sempre insensatos.

muito melhor dedicar a vida a fazer contabilidade do restaurante ou assessoria de imprensa da fábrica.

já eu, inviável e irreal, incapaz de sensatez, estou há 30 anos vivendo o sonho dos meus 12.

* * *

quando tinha 12 anos, pouco menos de um quarto da idade que tenho hoje, decidi o que queria ser para o resto da minha vida.

comprei uma verde e enorme máquina de escrever ibm elétrica, coloquei no meu quarto, montei um escritoriozinho, comecei a escrever.

meus primeiros exercícios eram assim: eu reescrevia as histórias em quadrinhos do mickey com um detetive que eu tinha inventado. já tendo o enredo pronto, podia me concentrar mais no estilo, no português, no personagem.

nesse mesmo ano, de copa do mundo, plano cruzado e roque santeiro, enquanto cursava a 6ª série, eu escrevia e desenhava gibis, xerocava na empresa do meu pai, coloria as capas uma por uma e vendia assinaturas pras colegas de classe. fechei o ano com dezesseis assinantes, além das vendas avulsas.

ganhei meu primeiro dinheiro no concurso literário da hebráica-rio, em 1988. participei de muitos concursos literários e de antologias-enganação. escrevia grande parte dos jornaizinhos de todas as escolas por onde passei. resisti bravamente a todos os amigos e parentes que insistiam para eu publicar ainda criança: meu projeto era de longo prazo e não queria ser garoto-prodígio.

aos 17, enquanto caía a união soviética, escrevi meu primeiro romance, altamente metalinguístico, cujo protagonista era eu mesmo, no ano 2000, aos 27 anos, vivendo de escrever, pobre de fazer dó mas com uma namorada que amava o que eu escrevia.

minha irmã falou tanto de mim e do meu romance para uma amiga que ela ficou curiosa. pediu pra ver. leu. se apaixonou por mim antes de me conhecer. logo depois, me descabaçou. descobri que um dos segredos para conquistar uma pessoa é atiçar sua curiosidade. o outro é ser admirado por ela. (o terceiro, se querem saber, é ouvi-la com atenção.)

todos os relacionamentos que tive na vida foram, de alguma maneira ou de outra, mediados pelos meus textos. se não escrevesse, nenhum dos meus relacionamentos teria acontecido. não imagino que estaria virgem até hoje mas, com certeza, tudo teria acontecido de forma bem diferente.

escrevi, escrevi, escrevi. todo dia. às vezes, o dia todo.

resisti bravamente às tentações pelo caminho. não peguei empregos rentáveis, não aceitei mais um frila, não fiz aquela viagem – porque não me sobraria tempo pra escrever. preferi sempre ajustar meu nível de consumo pra baixo, gastar menos, para poder trabalhar menos, viver com menos – e escrever mais.

hoje, aos 41, vivi quase quatro vezes mais que aquele moleque de 12. vejo que eu mesmo não consegui quase nada e ainda sou, pra todos os fins e efeitos, desconhecido e não-descoberto como escritor. mas sabe? estou satisfeito com a minha produção.

escrevi muito. escolhi com cuidado. joguei quase tudo fora. do que guardei, cortei grande parte. o que sobrou, me agrada. literatura é artesanato e fico feliz.

se eu tiver mais trinta anos para viver (será?), não tenho dúvidas de que vou passá-los escrevendo.

sabe por quê? porque essa vida é minha. só tenho ela pra arriscar. só tenho a mim mesmo para sacrificar. se não jogar minha vida na roleta dos meus sonhos, quem vai fazer isso por mim?

* * *

se meus textos tiveram impacto em você, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor.

assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.

minha página de mecenato.

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