O que as Imersões fazem por mim

Quinta feira passada, um dia antes de começar a Imersão do Nordeste, eu estava péssimo: sozinho, frágil, vulnerável.

A dois mil quilômetros de casa, sem nenhuma amiga ou conhecida por perto, sem ninguém pra me apoiar se eu falseasse, sem ninguém para me levantar se eu caísse.

Em uma ecovila no interior de Pernambuco, cercado somente pela equipe, prestes a receber trinta pessoas, vindas de dez estados brasileiros.

Pessoas que viajaram de longe, que pegaram ônibus e aviões, que às vezes dirigiram o dia todo, para estar comigo, para me conhecer, para compartilhar da experiência que criei.

Pessoas cheias de expectativas e necessidades e demandas — como todas nós. Pessoas que terão que ser ouvidas, acolhidas, abraçadas — como todas nós.

Pessoas que provavelmente não teriam vindo de tão longe se não achassem, nem que inconscientemente, que sou algum tipo de guru que tem algo de importante e único para dizer.

E meu trabalho é pegar essa expectativa e virá-la ao avesso: mostrar a elas que não sou nada que também não sejam e, ao mesmo tempo, ajudá-las e servi-las, abraçá-las e acolhe-las.

(O slogan da Imersão poderia ser: “Venha pelo Alex Castro, fique pelas pessoas incríveis que encontrar.”)

Mas será que terei força física e capacidade emocional para realizar esse trabalho? E se não tiver? E se eu for grosso? E se perder a estribeira? E se tiver um “chato da palestra” que me tire do sério?

Antigamente, quando comecei essas Imersões, mesmo nos piores momentos, eu me sentia acompanhado e seguro pela minha então companheira.

Agora, cinco anos e 92 eventos depois, estou só, sempre na estrada, longe de casa.

Para piorar, minha vereadora, pessoa que fazia parte da minha vida, em quem votei, por quem fiz campanha, amiga próxima de muitas amigas próximas, tinha acabado de levar cinco tiros na cabeça.

Minha cidade amada escoando pelo ralo, minhas amigas queridas de luto e precisando de abraço, o que é que eu estou fazendo aqui, nessa lonjura, brincando de evento?

No meio de tudo isso, chegou o Luciano, administrador da ecovila Meteora d’Aldeia.

Luciano, que era um executivo bem pago do Citibank em São Paulo, mas largou tudo para construir uma ecovila em Pernambuco, um espaço para cursos e terapias alternativas, e, hoje, ainda está endividado por causa dessa decisão, mas feliz.

Pois o Luciano foi prontamente descascado.

Por conta de uns pequenos probleminhas de comunicação que tivemos no planejamento do evento, eu (Deus que me perdoe) fui absurdamente grosso com o Luciano. Gritei, xinguei, ofendi.

(Eu já sou naturalmente grosso: vocês não querem me ver dando livre vazão à minha grosseria natural.)

Luciano simplesmente comentou que eu estava um pouco tenso e se eu não gostaria que ele me fizesse uma massagem energética e me realinhasse os chacras.

Aquilo me desarmou, me desinflou, me desmontou. Eu não sabia o que era nenhuma dessas duas coisas, mas sabia que aquela oferta estava sendo feita com carinho, com generosidade, com sabedoria.

E eu me permiti aceitar todo o acolhimento que Luciano me oferecia.

Depois, descemos para um riacho no meio da mata, e fizemos uma cerimônia xamânica. Tomamos banho de piscina, almoçamos, conversamos.

Aos poucos, fui novamente me sentindo capaz de realizar a Imersão, capaz de receber aquelas trinta pessoas, capaz de acolhê-las e abraçá-las.

O mais irônico é que, pela própria estrutura e divulgação das imersões, elas só atraem as melhores pessoas. Nunca pessoas elitistas e gourmetizadas, cheias de demandas e reclamando de tudo. Sempre pessoas abertas e carinhosas, muitas vezes resolvendo entre elas os pequenos problemas que surgem muito antes que eu mesmo tome conhecimento deles.

Então, comecei essa Imersão do Nordeste me sentindo muito frágil, muito vulnerável, muito sozinho.

E terminei me sentindo muito unido, muito abraçado, muito junto a todas aquelas pessoas.

Percebi, talvez pela primeira vez, que as pessoas que vêm às Imersões não são problemas que tenho que estar forte para resolver.

Pelo contrário, elas são as melhores pessoas para me ajudar e abraçar, aceitar e acolher, mesmo quando não estou me sentindo forte para nada.

Muito, muito, muito obrigado a todas as pessoas da Imersão do Nordeste de março de 2018.

E muito obrigado também às quase duas mil pessoas que vieram aos meus outros 91 eventos nos últimos cinco anos.

Que viagem que tem sido!

* * *

As fotos acima são da Imersão do Nordeste de 2018, realizada na Ecovila Meteora d’Aldeia, em Aldeia, Pernambuco, entre os dias 16 e 18 de março de 2018.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

What's this?

You are currently reading O que as Imersões fazem por mim at alex castro.

meta