notas de leitura

Perigoso perguntar pra mim o que estou lendo. É quase sempre muita coisa.

Estou sempre lendo alguma coisa sobre budismo. Atualmente, avanço devagar pelo novo de Dzongsar Jamyang Khyentse, Not for Happiness. É assunto que não domino, que tenho que ler com cuidado e concentração, mas fascinante. Confesso que sempre tive um certo pé atrás com essas pessoas que querem muito “ser felizes”. Selecionei alguns dos meus trechos preferidos do começo do livro. Um deles:

[I]f you are only concerned about feeling good, you are far better off having a full body massage … [D]harma is tailored specifically to turn your life upside down … [I]f you practise and your life fails to capsize, it is a sign that what you are doing is not working.

Estou desde final do ano passado lendo uma das obras-primas da língua portuguesa de todos os tempos, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, o livro mais caro que já comprei na vida, edição caprichadíssima da Casa da Moeda de Portugal.

Uma obra gigantesca e cósmica, que nunca consegui acabar de ler e que sempre levo em minhas viagens. Fernão passou trinta anos peregrinando pela Ásia em meados do século XVI, no auge do poder marítimo português. Enquanto quase todos os outros autores escreveram sobre o lado oficial da conquista, Fernão deixou testemunho sobre a ralé que ia nos porões dos navios. Foi o primeiro homem branco a ver, registrar, testemunhar incontáveis países, povos, culturas, cerimônias asiáticas. Quase morreu várias vezes. Se salvava sempre por sua lábia e por suas mentiras, nunca pela força ou por proezas militares. É o nosso maior pícaro, precursor de Pedro Malasartes, malandro carioca antes mesmo de existir o Rio de Janeiro.

Como todo grande livro, a Peregrinação contem em si o seu próprio contra-discurso. Mendes Pinto aproveitava seus personagens estrangeiros para fazer críticas nada sutis ao projeto colonialista português. Eis um diálogo que ele põe na boca do Rei dos Tártaros e seus conselheiros, ao encontrar portugueses (e ocidentais!) pela primeira vez:

[E] bulindo três ou quatro vezes com a cabeça, [o Rei] disse para um homem velho que estava junto dele: “Conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria, dá claramente a entender que deve haver entre eles muita cobiça e pouca justiça.” A que o velho respondeu: “Assim parece que deve ser, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas, para adquirirem o que Deus lhes não deu; ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes faz esquecer a sua pátria, ou a vaidade e a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha que por ela negam a Deus e a seus pais.” (Cap.122)

Os duros e corajosos podem baixar e ler de graça a versão integral em português antigo, mas a Nova Fronteira acabou de lançar uma bela edição na ortografia brasileira atual. Para saber mais, dê uma olhada em alguns textos meus sobre o Mendes Pinto: uma sólida ficha corrida de decisões catastroficamente erradas, os mercadores de esterco da china & somos mesmo filhos dos portugueses.

Em termos de literatura nacional, o último livro que de fato terminei de ler, faz poucos dias, foi o lindíssimo Sonhei que a neve fervia, da minha querida amiga Fal Azevedo, lançado agora em maio e já devorado. A Fal parece um rockstar da literatura: a Livraria Prefácio, em Botafogo, estava praticamente interditada, teve fã esperando duas horas na fila. Já recomendei o livro para vários amigos e todos me ligam comovidos, agradecendo.

Sonhei que a neve fervia é um novo tipo de livro. Não é estritamente não-ficção, mas não tem nada de ficção. Depoimento? Documentário? Tico-tico no fubá? Só sei que é lindo.

A “história” é simples, tão simples como são as piores dores: em agosto de 2007, Fal perde seu marido, Alexandre, uma morte súbita e sem aviso. Sonhei que a neve fervia é a narrativa dos doze meses seguintes. Do processo de luto. Da tristeza. Da presença dos amigos. Do desespero. Da felicidade. Da volta.

Recomendo para qualquer um que já sofreu uma perda devastadora. E aproveito para indicar Drops da Fal, blog da autora.

Por fim, o que estou lendo mesmo, o que acabei de ler ontem a noite e li um pouco hoje de manhã, são livros sobre a guerra de Tróia. Estou relendo a Ilíada, uma das obras mais sensacionais da literatura mundial, o livro mais duro, mais violento, mais másculo de todos os tempos. E, enquanto vou prosseguindo na leitura, eu vou lendo ou relendo peças gregas relacionadas.

Ontem, por exemplo, li Filoctetes, de Sófocles e reli Ifigênia em Aulis, uma das minhas preferidas do meu dramatugo grego favorito, Euripides. São, também, duas peças duras, que não deixam pedra sobre pedra.

O personagem-título de Filoctetes é um herói grego que, no caminho para a Guerra de Tróia, é picado por uma serpente sagrada e fica com o pé pustulento e fedido, provocando dores atrozes que o fazem urrar de desespero. Incapazes de lidar com isso, os gregos gente-boa o abandonam numa ilha deserta e seguem para a guerra. Dez anos depois, um profeta revela que Tróia só cairá com a ajuda de Filoctetes. Agora então cabe a Ulisses, o sacana que decidiu abandonar o herói, e ao jovem Neoptólemo, o filho de Aquiles, a ingrata tarefa de convencer aquele homem amargo, abandonado por dez anos, a voltar com eles e ajudá-los em sua vitória.

Uma duríssima descrição de Filoctetes, em belíssima tradução de Gregory McNamee, de 1986, disponível pelo Projeto Gutenberg:

But I have seen or heard of no other man whom destiny treated with such enmity as it did Philoktetes, who killed no one, nor robbed, but lived justly, a fair man to all who treated him fairly, and who fell into evils he did not deserve. It amazes me that he, alone, listening to the rushing waves pounding on the shore, could cling to life when life brought him pain, and so many tears. He was crippled and had no one near him. He was made to suffer, and no one could ease his burden, answer his cries, mourn with him the savage, blood-poisoning illness that was devouring him. He had no neighbor to gather soft leaves to staunch the bleeding, hideous sore that ran, suppurating, maggoty, on his foot. He writhed and scrawled upon the hard ground, crying like a motherless child, to wherever he might find relief when the spirit-killing illness attacked him.

Ontem à noite, li também Ifigênia em Aulis, de Euripides, outra peça sobre o alto custo da Guerra de Tróia. Todos os exércitos da Grécia estão reunidos em Aulis, mas não conseguem nunca vento favorável para rumar em direção à Tróia. Até que um profeta (sempre esses malditos profetas!) revela que os deuses somente deixarão a frota partir se Agamenom, líder dos gregos, sacrificar sua filha Ifigênia. E agora? Vale a pena sacrificar a própria filha para ir travar uma guerra que, basicamente, é sobre um marido corneado? Por outro lado, todos os exércitos da Grécia já estão ali, concentrados, com sangue nos olhos, todos com séculos de desfeitas entre eles. Se a frota não partir logo, vão começar a se trucidar entre si, ou pior, vão trucidar Agamenom e sua família. E então? O que fazer?

Talvez a grande moral da Ilíada, e de todas as obras sobre a Guerra de Tróia, seja justamente essa: uma vez iniciado o ciclo da violência, jamais sabemos onde ele vai parar.

Do quarto canto da Ilíada, em tradução brasileira de Carlos Alberto Nunes (1962):

O Ódio semeava exicial pelo meio da turba guerreira
multiplicando por onde passava os gemidos dos homens.
Quando os imigos exércitos vieram num ponto a encontrar-se
lanças e escudos se chocam bem como a coragem dos homens
com armaduras de bronze; broquéis abaulados se chocam
uns contra os outros; estrépito enorme se eleva da pugna.
Dos vencedores os gritos de júbilo se ouvem e as queixas
dos que tombavam vencidos; de sangue se encharca o chão duro.
Como dois rios oriundos dum grande degelo dos montes
numa bacia somente o volume das águas despejam
para reuni-las depois nas entranhas do côncavo abismo
donde o barulho vai longe ao pastor que num monte se encontra:
tal era a grita e o trabalho dos dois combatentes exércitos.
Foi o primeiro a prostrar a um dos Troas guerreiros Antíloco
que na vanguarda a Equepolo matou de Talísio nascido.
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta
que fez o crânio partir-se-lhe entrando até ao cérebro a ponta
aénea da lança potente; cobriram-lhe as trevas os olhos.
Como se efunde uma torre tombou na batalha terrível.
No mesmo instante o puxou pelos pés Elefénor gerado
por Calcodonte magnânimo chefe dos fortes Abantes
para tirá-lo do alcance dos dardos e mais facilmente
o despojar da armadura; contudo a intenção foi fugaz
pois Agenor de alma nobre notou que ao querer debruçar-se
sobre o cadáver o escudo um dos flancos deixara visível:
fere-o com a ponta de bronze solvendo-lhe a força dos joelhos.
A alma o deixou; em redor ainda mais se incrementa a batalha
entre os guerreiros Troianos e os fortes Aqueus; como lobos
uns contra os outros se atiram travando-se luta corpórea.
O grande Ájax Telamónio feriu a Simoésio florente
o Antemiónio garboso que a mãe deu à luz junto à margem
do Simoente num dia em que fora com os pais ao Monte Ida
para ajudá-los no afã de vigiar os vistosos rebanhos.
Daí lhe chamaram Simoésio; aos pais não lhe foi pois possível
retribuir os cuidados na curta existência que teve
pois deveria cair sob a lança de Ájax de alma grande.
Quando avançava na frente o feriu junto ao seio direito
o Telamónio na espádua sair indo a lança de bronze.
Ei-lo que tomba na poeira tal como se abate um grande álamo
que se criara e crescera na beira dum lago espaçoso
de tronco liso que em ramos inúmeros no alto se alarga. …
Diores o filho do herói Amaríncio foi presa do Fado.
No tornozelo da perna direita se viu atingido
por uma pedra pontuda que o Imbrásida Píroo atirou-lhe
chefe dos homens da Trácia que de Eno chegara de pouco.
Os tendões ambos e os ossos a pedra angulosa de todo
esmigalhou; cai de costas na areia e a vida ali deixa
quando ainda súplice os braços tentava soerguer para os sócios
fiéis companheiros. Mas Píroo que o tinha ferido saltando
junto do umbigo lhe a lança enterrou; pelo solo derramam-se
os intestinos; cobriram-lhe as trevas os olhos brilhantes.
Mas ao recuar Píroo foi atacado por Toante da Etólia
junto do seio com fúria indo o bronze o pulmão alcançar-lhe.
Aproximando-se dele o guerreiro da Etólia arrancou-lhe
do peito a lança; em seguida sacando da espada cortante
fere-lhe o ventre com o que mais depressa o privou da existência.
Mas espoliá-lo não pôde que os sócios da Trácia de tufos
no alto do crânio o cercaram armados de lanças compridas
os quais conquanto soberbo e de grande estatura ele fosse
o repeliram dali. Cede à força do número Toante.
Dessa maneira ficaram deitados na poeira os dois chefes
um dos guerreiros epeios de vestes de bronze; outro Trácio.
À volta de ambos inúmeros outros heróis pereceram.
De forma alguma dissera tratar-se de feitos somenos
quem sem se ver atingido por golpes do bronze cortante
atravessasse a batalha levado por Palas Atena
que pela mão segurando-o o livrasse da fúria dos dardos
pois numerosos guerreiros troianos e acaios naquele
dia se achavam sem vida na poeira uns ao lado dos outros.

Quando era criança, li a Ilíada primeiro na tradução de Samuel Butler, de 1898, que era a única que tinha na minha casa, como parte da coleção Britannica Great Books. Depois, enquanto dirigia os mil e quinhentos quilômetros entre Miami e Nova Orleans, uma semana antes do furação Katrina, ouvi o audiobook da tradução de Robert Fagles, de 1990, por achar que um poema oral tem que ser mais ouvido do que lido. Agora, estou lendo primordialmente a tradução de Stanley Lombardo, de 1997, que é excelente, feita para o palco, em inglês contemporâneo, sem arcaísmos, emocionante mesmo. (O tom do livro já é dado pela capa: uma foto de desembarque da Normandia.) Mas, como sou bibliófilo e doente, a cada canto que termino, eu comparo também com outras traduções, especialmente as minhas preferidas citadas acima, Butler e Fagels, mas também a tradução em verso de Alexander Pope, de 1720, lindíssima, e as brasileiras de Fernando C. de Araújo Gomes e a citada de Carlos Alberto Nunes.

Para quem está chegando agora, minha sugestão: arrume um kindle, ou baixe pro seu computador o programa gratuito kindle for pc, e compre na amazon esse livrinho por $2.99 e que contém quase todas as traduções em domínio público de todos os clássicos da literatura grega para o inglês. Se você só fala português, ó, difícil, hein. Suas opções são limitadas. A única tradução brasileira em domínio público é a do Odorico Mendes, publicada em 1874, mas antiquada ao ponto de ser ilegível. O melhor mesmo é folhear várias traduções e ver qual é mais confortável pra você.

Estou no meio do quinto canto. Hoje à noite, chego no sexto.

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