não é o seu cachorro que é racista

hoje, andando pela rua com o oliver, cruzamos por uma bela moça num carrinho de bebê e o oliver, pro meu imenso orgulho, fez festinha e tudo, cachorro charmoso que ele é. logo depois, cruzamos por um negão mal-encarado e o oliver, pra minha imensa vergonha, só faltou querer estraçalhar o moço, cachorro protetor que ele é. pedi desculpas e saí de fininho.

será verdade que cães podem ser racistas?

* * *

criamos os cães à nossa imagem e semelhança. passamos milênios selecionando geneticamente cães com base em um único critério: sua compatibilidade conosco. sua capacidade de nos ler, nos entender, nos servir, se adaptar a nós.

quando seu cão late para o moço da geladeira, não é porque ele é um bom juiz de caráter, ou sabe quando “tem alguma coisa errada”, ou possui poderes sobrenaturais, ou tem capacidade de “ler almas”. provavelmente, ele não está nem mesmo latindo em reação ao moço da geladeira em si. o seu cachorro não sabe negociar com técnicos, ele não conhece as dicas sutis de que um prestador de serviços está enrolando ou superfaturando um trabalho. quem sabe essas coisas é você.

o seu cão está reagindo à única coisa no mundo na qual ele é expert absoluto: você.  ele está reagindo a mudanças no seu corpo que são tão sutis que você nem mesmo percebe mas que ele consegue captar. batimentos acelerados, suor, diferença na voz, algum tique físico que reconhece como uma típica reação sua ao estresse súbito. seu cheiro, seus hormônios, seus humores, sua voz, seus gestos.

seu cachorro não tem poderes sobrenaturais, nem sabe nada que você não saiba melhor – com uma única exceção. seu cão sabe confiar em seus próprios instintos caninos e, inclusive, confia mais nos SEUS instintos primatas do que você mesmo, que provavelmente os racionaliza. você, ao mesmo tempo em que dá um inconsciente passo atrás em resposta a algo suspeito que fez o moço da geladeira, também pensa: “que besteira, estou sendo paranóico”.

seu cachorro, por outro lado, leva essas coisas a sério. e faz bem.

(esse trechinho parafraseia o livro as virtudes do medo, de gavin debecker.)

* * *

então, voltando ao exemplo inicial, não é o oliver que é racista, coitadinho.

sou eu que, mesmo sendo tão liberal e avançadinho, mesmo dando bom dia ao moço e não trocando de calçada (olha eu falando isso como se fosse grande vantagem!), ainda assim meu corpo deve tensionar, ainda assim eu devo me colocar em posição de alerta, ainda assim eu devo reagir ao homem como se ele fosse uma ameaça maior do que a mulher com o bebê.

e o oliver, que não é bobo, repara. e faz bem.

* * *

releia o primeiro parágrafo. o oliver nem precisaria estar presente: ele poderia ter latido para o “negão” só pela minha escolha de palavras.  é assim que falamos. nosso racismo exala pelos poros, pelas entrelinhas.

§ 10 respostas para não é o seu cachorro que é racista

  • Carolina disse:

    Somos racistas e julgadores mesmo. Nossa reação é diferente dependendo também de como a pessoa está vestida. Se passa um negão de terno, com cabelo arrumadinho etc não temos a mesma reação que teríamos se ele estivesse com uma roupa de “mano”.

    Alex, é bom ter um cão delator. Ele te faz refletir sobre sua percepção inconsciente das coisas sem enrolação. É só dar uns latidos que passa a mensagem em poucos segundos.

  • André disse:

    E uma outra observação:
    “ainda assim eu devo reagir ao homem como se ele fosse uma ameaça maior do que a mulher com o bebê”

    Ora, e não é? Um outro homem, não importa a cor da pele dele, é ou não é uma ameaça maior do que a mulher com o bebê?

  • André disse:

    Bem, acho que a sua explicação não é a mais simples.

    E, bem, eu realmente não entendo nada de cachorro. Acho bastante lógico pensar que, em uma situação em que você DE FATO está ameaçado, seu corpo reage de uma forma, que pode até ser discreta, mas que PODE SIM ser vista e até medida. E aí ok o cachorro perceber e reagir.

    Daí a você dizer que ao ver um negro na rua vc, apesar de não ter atravessado, teve algum tipo de atitude racista de defesa só percebida pelo seu próprio cachorro é um salto bastante, como dizer?, ousado.

    E o problema é que é uma tese que simplesmente não pode ser falsificada. Quer dizer, é UM dos problemas. O outro é que existe outra forma mais simples de explicar a mesma coisa…

  • alexcastro disse:

    Oi André. Acho sim. Senão não teria escrito o texto, né? Todos os treinadores e estudiosos de cognição canina que li e com quem conversei seguem uma linha parecida. Abraços.

  • André disse:

    Hã?

    E o cachorro não tem olhos? Ele não enxerga em preto-e-branco, o que faz com que a cor da pele mais escura salte mais aos olhos dele do que uma cor de pele mais clara, justamente pq ele vê muito mais gente com a pele mais clara do que a pele mais escura???

    Sério que você acha mais plausível uma explicação que diz que o cachorro percebe uma suposta imperceptível alteração no seu comportamento e reage de acordo, do que uma explicação mais simples baseada no número de vezes que o próprio cachorro vê determinadas características?

    E esse caso (outros também, aliás, mas esse é mais forte) não dá nem pra provar o contrário, então acho que o mais certo seria simplesmente aceitar como correta a hipótese que explica a mesma coisa, mas de forma mais simples, você não concorda?

  • Allan disse:

    Vou acabar me acostumando com o acesso aos comentários. :)

    Talvez você já o conheça, mesmo assim vale o link. Sou fascinado pelo trabalho desse cara (fascinado):
    http://www.cesarsway.com

  • marcos nunes disse:

    Se fosse a moça* da geladeira talvez a reação do cão, baseada na sua, fosse diferente. Penso também nessa coisa do negão mal-encarado; com quantos brancões mal-encarados topamos todos os dias? Será que reagimos de forma diferenciada (isso virou moda) diante de dois exemplares assustadores, como um negão angolano e um skinhead homofóbico e racista? Será que o último nos é mais simpático, se possível, que o primeiro? Poderia um cão nos indicar isso?

    Moral na história: melhor se livrar do seu cão delator. Sua imagem, com ele, fica queimada. Sua auto-imagem fica ainda pior: lá vem o diabo da comiseração pra te mandar pro inferno dos bem-intencionados hipócritas.

    *experimentei isso outro dia; passou ao meu lado uma negra linda sob um belo vestido estampado com tons verdes predominantes; demorou uns segundos (dois?) para perceber que se tratava de uma negra; pois a reação imediata de satisfação e excitação me pôs a sonhar eroticamente com a bela mulher, cujo “defeito de cor” bateu depois, mas se desconstruiu: fazia parte daquele conjunto de curvas, volumes, olhos, sobrancelhas e moldura capilar sem qualquer desnível estético. A melhor coisa para perder o medo da diferença é mergulhar nela.

  • alexcastro disse:

    Eric,

    eu me considero antes de tudo um primata cuja prioridade é a sobrevivência e levo sempre muito a sério todos os meus instintos e “pressentimentos”.

    te recomendo com força ler o livro a cito no texto. já dei ele de presente umas seis vezes. tem tradução em português.

  • Eric Costa disse:

    Considerando a reação do cão como um reflexo das reações involuntárias do dono, eu acho que a racionalidade é muito mais motivo de orgulho do que de tristeza ou vergonha.

    Nosso lado animal mais básico nos faz ter medo do que é diferente (em qualquer aspecto, não somente a cor da pele) e de seres maiores do que nós.

    Lembro que ouvia certa vez no rádio que é um problema deixar macacos de tamanho médio próximos a anões (“little people”, como se diz aí), pois rola um ataque quase imediato. A presença de outro primata de tamanho menor é suficiente para o macaco tentar exercer força e controle sobre ele. Logo, é um instinto evolutivo termos medo de seres maiores do que nós.

    Se, ao ver um sujeito maior e diferente, nossos instintos básicos nos fazem suar e ter medo, nossa racionalidade nos faz controlar (ou tentar controlar) esses instintos. Talvez, com alguns milhares de anos, esse instinto desapareça dos humanos, mas não é necessário nos sintamos mal por isso, já que temos outra ferramenta forte para evitar comportamentos instintivos (nem sempre funciona, mas, no geral, é bem efetiva).

    Em resumo, não é que “somos racistas” instintivamente. Tememos o maior e o diferente instintivamente. Transformar esse instinto em uma interpretação racista é o problema.

  • Isis disse:

    Gostei muito deste post, Alex! você viu o episodio de Curb your enthusiasm em relaçao à esta questao? Nao é tao profundo mas é engraçado sim!

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