“meu texto é bom?”

um texto só pode ser bom em função do seu objetivo. aquilo que “sai pronto de você” “em um jato de inspiração”… é urina.

* * *

jovem escritora me manda seu texto e pergunta:

“o texto é bom?”

e respondo:

“não sei. para que é o texto?”

e ela:

“pra nada. é só um texto.”

e eu:

“então não tenho como responder.”

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um texto só pode ser bom em função do que se propõe.

o texto que é excelente para fazer rir pode ser péssimo em causar terror; o texto que é excelente para informar sobre química orgânica é péssimo em ensinar inglês.

se a pessoa autora não sabe para que o texto serve, se não sabe para que escreveu aquele texto, então o texto não tem chance de ser bom.

ou melhor, pode até ser bom, mas por acidente e à revelia, do mesmo modo que um relógio parado estará certo uma vez a cada doze horas – e errado praticamente o tempo todo.

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nada pode existir no vácuo. nada pode ser bom por acaso.

a coisa-que-é-boa só é boa porque cumpriu o objetivo que se propôs a atingir.

portanto, é impossível julgar se ela é boa ou não sem saber qual era esse objetivo.

um martelo é “bom” se eu tenho um prego para enfiar em uma parede.

se quero fritar um ovo ou trocar uma lâmpada, o martelo não me serve pra nada.

se uma cientista sai de seu laboratório, me pergunta se a nova ferramenta que acabou de inventar “é boa”, mas não sabe dizer para que serve…

… como responder?

* * *

algumas pessoas leram esse texto e me acusaram de “utilitarista”, como se tudo tivesse que “ter objetivo!”:

“e a arte, alex?! e a arte?!”

mas “produzir arte pela arte” é um objetivo.

os objetivos de um texto podem incluir, desde o mais vago até o mais específico, coisas como “fazer as pessoas leitoras viajarem”, ou “estimular o sentido estético”, ou até mesmo um singelo “produzir arte”.

só não pode deixar de ser ALGUMA COISA.

* * *

às vezes, essas pessoas me falam:

“eu não tinha objetivo. não tinha plano. o texto saiu de mim assim e pronto.”

“mas, se você não tinha objetivo nem plano, como vai revisar o texto? afinal, o processo de revisão nada mais é do que ajudar o texto a dizer melhor aquilo que ele se propõe a dizer.”

“deus me livre mexer no meu texto, alex! isso seria uma traição à minha inspiração artística. ele irrompeu de mim como um jato e pronto!”

e me dá vontade de responder:

colega, o que “sai de você assim e pronto” é cocô. o que “irrompe de você como um jato e pronto” é urina.

arte é criação consciente.

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o próximo encontro “as prisões” será em curitiba, no domingo, 2 de outubro. mais detalhes aqui.

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