ler mais para saber menos, ler menos para saber mais

Sempre que atualizo minha lista de leituras, várias pessoas me escrevem com uma variação de:

“Aaaah, que inveeeeja, eu queria taaaanto ler mais…”

Mas… por quê?!

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Ler mais para saber menos

 
De vez em quando, eu me interesso sobre algum assunto e decido me informar mais. Para isso, leio pelo menos dois livros inteiros sobre o tema.

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Se quero me informar sobre como Euclides da Cunha narraria a Guerra de Canudos, quais recortes escolheria, quais aspectos enfatizaria, etc, eu posso ler Os sertões (1903).

Mas, se quero me informar minimamente sobre a Guerra de Canudos em si, eu preciso ler, pelo menos, mais um livro sobre o assunto.

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Ler apenas um livro dá uma falsa sensação de conhecimento. Passamos de não saber nada para saber muita coisa sobre a Guerra de Canudos em poucos dias. Chega a ser intoxicante e tentador pensar que “agora sim conheço a Guerra de Canudos!”

Mas não. Conheço apenas o recorte específico, as perspectivas e as opiniões, daquela pessoa autora sobre a Guerra de Canudos. E olhe lá.

Ler um segundo livro sobre o mesmo assunto quebra esse efeito. Provavelmente, ambos os livos vão dialogar entre si, trocar citações ou trocar refutações, trocar elogios ou trocar farpas.

Aquela interpretação sobre Antônio Conselheiro que me parecia tão sólida e pouco problemática no primeiro livro (até citei, empolgado e inocente, para os amigos na mesa de bar!) é justamente a interpretação que o segundo livro desconstrói impiedosamente. E vice-versa.

De repente, nos damos conta que a história da Guerra de Canudos não é tão simples quanto pensávamos, que existe muita discordância mesmo entre as pessoas que realmente conhecem a Guerra de Canudos, que a história da Guerra de Canudos ainda está sendo escrita e reescrita.

(Um textinho meu sobre porque ler Os sertões.)

* * *

Eu leio mais de um livro sobre o mesmo assunto não para saber mais sobre o assunto.

Eu leio mais de um livro sobre o mesmo assunto para me dar conta da minha enorme ignorância sobre o assunto.

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Ler menos para saber mais

Quando se escreve profissionalmente, pessoas leitoras e jornalistas sempre nos pedem por “recomendações de leitura”.

* * *

Mesmo em um país de poucas pessoas leitoras como o Brasil, o lobby da leitura é fortíssimo.

Não lemos quase nada, mas colocamos a leitura no mesmo altar quase-religioso onde já estão a atividade física e a comida saudável.

Discordamos em tudo, mas concordamos que deveríamos estar todas lendo mais, malhando mais, comendo melhor.

Gastamos fortunas em comidas orgânicas que não gostamos, em academias que não frequentamos, em livros que não lemos, e depois nos martirizamos por fracassar em nosso projeto de sermos pessoas mais lidas, mais saradas, mais saudáveis.

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As pessoas que realmente querem ler leem o tempo todo. Estão lendo agora. Aproveitam cada cinco minutos no metrô ou na fila do banco para ler mais duas pagininhas, como um fumante ansioso que aproveita qualquer oportunidade para ir fumar um cigarrinho lá fora.

Já as pessoas que dizem

“Ah, eu queria tanto ler mais…” (ou fazer mais ginástica, ou comer mais vegetais, etc)

não querem realmente ler mais.

Elas apenas querem querer ler mais.

Elas apenas acreditam sinceramente que essas atividades (ler, malhar, comer melhor, etc) são intrinsecamente boas e indispensáveis para a identidade que estão construindo para si mesmas, de pessoas cultas, saradas, saudáveis, e, por isso, desejam ardentemente querer fazer essas coisas.

Mas não querem. Porque, se quisessem, já estariam fazendo, não querendo fazer.

Como escritor, eu gostaria de poder absolvê-las dessa ansiedade: ninguém precisa ler. Ler não é intrinsecamente bom. Ler é um passatempo como qualquer outro. Existem mil maneiras de aprender os fatos do mundo e de se tornar uma pessoa melhor sem passar pela leitura.

Se gostam de ler, leiam. Se não gostam, não se culpem.

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Então, sempre que me pedem por “recomendações de leitura”, recomendo que não leiam nada.

Pergunto: quanto tempo em média passaria lendo um livro de, digamos, duzentas páginas? Oito, dez horas ao longo de quatro, cinco dias?

Então, economize o valor do livro, encontre um lugar tranquilo em sua casa e ocupe esse tempo fazendo a jardinagem do seu cérebro, podando galhos, arrancando ervas daninhas.

Quantos preconceitos, falsidades, distorções, mentiras, estereótipos, lugares-comuns você não tem aí dentro?

Em vez de absorver mais e mais novas verdades, em um verdadeiro frenesi acumulativo cultural, coloque o lixo para fora.

Em vez de ler, des-leia. Em vez de aprender, desaprenda.

* * *

Esse texto é parte do argumento que desenvolvo na Prisão Verdade, que você deveria ler agora.

§ uma resposta para ler mais para saber menos, ler menos para saber mais

  • Roseli disse:

    Opa!
    Você, Alex me surpreende cada vez mais, continue produzindo e desproduzindo.
    E enriquecedor a descontrução dessas ideologias, dos julgamentos e das ideias fixas.
    Você deveria ser lido por muito mais gente, existe muito gente inclusive eu, que precisa renovar idéias e buscar ponto de vista diferentes.

    Obrigado por essa leitura.
    Roseli

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