Leituras comentadas, abril de 2017

Em abril, li pouco, coloquei de lado “O livro das Prisões” (já volto a ele, juro!), escrevi o primeiro canto de um romance sobre a Pré-História, pratiquei muito zen.

1. (31) The hero with a thousand faces, de Campbell, 1949, inglês.
2. (32) Pré-História do Brasil, de Funari e Noeli, 2002, português.
3. (33) Pré-História, de Gosden, 2003, inglês.
4. (34) Ethics in small scale societies, de Silberbauer, 1991, inglês.
5. (35) Satipatthana Sutta (Majjhima Nikaya), páli.
6. (36) A montanha no oceano, de Leloup, 2000, francês.
7. (37) História da Língua Portuguesa, de Teyssier, 1980, francês.

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Pré-História

Estou começando a pensar sobre um futuro romance ambientado na Pré-História. Alguns textos lidos para ele.hero with a thousand faces

 

1. (31) The hero with a thousand faces, de Joseph Campbell, 1949, inglês.

Sobre a jornada do Herói. Sensacional e bem inspirador.

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2. (32) Pré-História do Brasil, de Pedro Paulo Funari e Francisco Silva Noeli, 2002, português.

3. (33) Pré-História, de Chris Gosden, 2003, inglês. [Trad: Janaina Marcoantonio, 2012.]

pre historia

Diz o senso-comum que as sociedades ditas primitivas eram mais pobres do que a nossa ó-tão-próspera Civilização Ocidental.

Na verdade, somos mais ricas porque a nossa definição de “riqueza” foi inventada por nós explicitamente para podermos nos autodefinir como as mais ricas, as mais prósperas, as mais avançadas.

Abaixo, dois trechos citados por Funari e Noeli:

“Se atribuímos ao caçador impulsos burgueses e ferramentas paleolíticas, então é natural que consideremos sua situação desesperadora. … Pelo senso comum, uma sociedade afluente é aquela em que todas as vontades materiais das pessoas são facilmente satisfeitas. Afirmar que os caçadores são afluentes é negar que a condição humana seja tragédia predestinada, com o homem prisioneiro de trabalho pesado caracterizado por uma disparidade perpétua entre vontades ilimitadas e meios insuficientes. Há duas formas possíveis de afluência. As necessidades podem ser “facilmente satisfeitas”, seja produzindo muito, seja desejando pouco..”

(Economia da idade da pedra, de Marshall Sahlins)

pre historia no brasil

“A partir do século XVIII, inventaram-se as noções de civilização e barbárie, após a ascensão do capitalismo e a sua identificação com o termo “civilização”. As origens dos “outros”, grupos distinguidos da elite europeia por suas supostas diferenças em aparência, comportamento ou essência, ligam-se, na verdade, às relações de poder nas sociedades modernas em que tais conceitos emergem. Muitos intelectuais interpretaram tradicionalmente o progresso como um movimento lento, mas contínuo, do simples (sociedades indígenas) para o complexo (sociedades com Estado), marcado por uma crescente diferenciação, da homogeneidade (das sociedades primitivas sem diferenciações internas) para a heterogeneidade (das sociedades com classes sociais). O progresso, segundo tal ponto de vista, seria marcado pela divisão do trabalho e pelo individualismo. Nesse contexto, forjam-se os estágios de evolução da humanidade, com os caçadores nômades na base, seguidos dos praticantes da agricultura, dos que dominavam os metais, dos que viviam em cidades, impérios, até chegar ao ápice tecnológico com a indústria capitalista e a consequente conquista da “liberdade econômica”. Ou seja, o conceito de caçadores nômades é uma invenção que se explica por certa visão capitalista do passado da humanidade.”

(Funari e Noelli parafraseando Inventing Western Civilization, de Thomas C. Patterson.)
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companion to ethics

4. (34) Ethics in small scale societies, de George Silberbauer, 1991, inglês. [in “A companion to ethics”, ed. Peter Singer.] (Emprestado do Helder)

O que me motiva a escrever um romance passado na Pré-História é tentar descobrir quem somos na nossa essência.

Ou seja, antes de inventarmos tudo isso que nos entulha a vida, da propriedade privada ao patriotismo, da monogamia ao sexismo, quem éramos na nossa essência? Quais eram nosso valores? Quais eram nossos conflitos?

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Meditação

No templo que frequento, Eininji, estou fazendo um curso de instrutor de meditação. Começamos em abril e vamos até novembro. Abaixo, as primeiras duas leituras:

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5. (35) Satipatthana Sutta (Majjhima Nikaya), páli.

a. Establishing mindfulness. [Rupert Gethin, 2008, “Sayings of the Buddha”.]
b. Foundations of mindfulness. [Bikkhus Nanamoli e Bodhi, “Buddhist scriptures”, Lopez.]
c. The four establishments of mindfulness. [Bikkhu Bodhi, 1995, “In the Buddha’s words”.]

É um dos mais importantes discursos budistas do cânon páli. Nele, o Buda ensina a meditar e, por isso, é considerado o primeiro manual do método budista de meditação.

Naturalmente, uma coisa que tenho sempre em mente durante o meu curso de meditação é o seguinte: a meditação, como método contemplativo, foi adotada pelo budismo, mas ela é muito anterior ao budismo.

Ou seja, em algum momento, depois de adulto, Buda também aprendeu a meditar.

sayings of the buddha

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6. (36) A montanha no oceano: meditação e compaixão no Budismo e Cristianismo, de Jean-Yves Leloup, 2000, francês. [Trad: Frei Celso Márcio Teixeira, 2002.]

Jean-Yves Leloup é um padre ortodoxo treinado em budismo tibetano. Nesse livro, ele compara o hesicasmo, uma prática meditativa do Cristianismo Ortodoxo, com a meditação budista.

Abaixo, alguns trechos sobre os princípios do hesicasmo, como ensinado a Leloup pelo padre Serafim:

“Se os homens soubessem qual é o meu sofrimento e qual é a minha alegria diante diante desse insuportável paradoxo da cruz e da ressurreição, eles fugiriam todos do cristianismo. Deus não me pediu para ser edificante ou para ensinar a boa doutrina, ele me pediu para oferecer-lhe minha respiração, meus pensamentos, meu sangue. …

Os homens não têm necessidade de saber que eu os amo, o importante é que verdadeiramente eu dou minha vida por eles. …

Nós rezamos para não esquecer “o que é”, “Aquele que é”. Não inventamos nada, não buscamos os estados psíquicos extraordinários. “O que é”, aí está nossa felicidade, agradável ou dolorosa, pouco importa. Em Deus, não há mais “isso me agrada” ou “isso não me agrada”; “é isso” e é tudo. Se o todo te interessa, tudo já está aí, por que procurá-lo? Há porventura um só lugar onde a realidade não está? …

Rezar não é pensar em Deus; quando estás com alguém, não pensas nele, mas tu respiras com ele. Rezar é respirar consciente e profundamente, não é ter pensamentos sublimes sobre Deus, não é outra coisa que tornar-se um com o sopro que te atravessa.”

montanha no oceano

Enquanto isso, em nosso templo zen, depois das aulas, recitamos e renovamos os Quatro Votos do Bodisatva.

Na versão que utilizamos, abaixo, o terceiro voto é especialmente importante para mim:

1. As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las;
2. As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las;
3. A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la;
4. O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.

O que pode ser mais sagrado, e mais importante, e mais árduo, e mais impossível, do que simplesmente… perceber a realidade?

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Uma historinha budista tirada de Leloup. (Infelizmente, ele não dá referências. Se alguém souber qual é a fonte original dessa anedota, agradeço.)

Era uma vez dois irmãos.

O mais velho tinha 99 bois e seu sonho era ter cem bois. Ele dormia e acordava ansioso pensando nos seus cem bois.

O mais novo tinha um único boi e tava de boas.

Para realizar o sonho do primeiro, o caçula lhe deu seu boi e ficou sem nenhum.

Quem saiu ganhando?

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Para o mais velho, preso na roda consumista e acumuladora, sua ânsia não será aliviada por mais um boi: agora, ele quer 110 bois, 150 bois, 200 bois. Seu desespero é sem fim, sua pobreza é insolucionável.

Já o caçula teve o desprendimento de doar o pouco que possuía.

A verdadeira riqueza é essa capacidade de doação.

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Língua portuguesa

Para me divertir:

7. (37) História da Língua Portuguesa, de Paul Teyssier, 1980, francês. [Trad: Celso Cunha, 1982.]

Na verdade, achei curto demais e aprendi muito pouco. Não supriu minha demanda: ainda estou procurando um livro decente sobre a história dessa nossa língua global.

historia da lingua portuguesa

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Convenções da lista

Título, autor, data da escritura, idioma original. (organizador, tradutor, data da organização e/ou tradução) data da leitura.

Quando são dadas várias traduções de uma mesma obra, a primeira foi a principal e as demais usadas para cotejo.

Considero um livro “lido” e acrescento nessa lista quando li o suficiente sobre ele para sentir que posso escrever sobre ele sem estar blefando: o critério é subjetivo e varia de obra a obra.

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A mesma ressalva de sempre

Fazer listas de livros reforça uma ideia que considero muito problemática:

Que “ler é bom”, que todas deveríamos “ler mais”, que ler é uma atividade intrinsecamente melhor do que a maioria das outras, etc.

Mas ler um livro não é mérito, não é vantagem alguma, não é algo para se gabar.

Mais importante, simplesmente ter lido um livro não significa que a pessoa leitora o entendeu, que tirou dele qualquer coisa de relevante, bela, prazeirosa ou útil.

Listar os livros que eu li faz tanto sentido quando listar os vagões de metrô que eu viajei. (Aliás, quase sempre, o 1022 e o 1026, que operam na linha um e são os últimos vagões de suas composições.)

E daí, não?

Apesar disso, incrivelmente, as pessoas pedem e perguntam.

Enfim, a verdade é que trabalho com livros. Para mim, pessoalmente, esse tipo de lista é relevante e me ajuda a sistematizar as leituras.

Então, apesar do efeito negativo de divulgar listas assim, esses foram alguns dos livros que li em abril de 2017.

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