homens: monstros de nascença ou socializados para ser monstros?

ninguém quer se tornar um canalha.

se nós, enquanto sociedade, não salvarmos os homens de se tornarem abusadores, não teremos como salvar as mulheres de quem abusarão.

Gay power black power women power student power all power to the people

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há pouco tempo, em uma de suas colunas, o médico dráuzio varela apontou o fato (facilmente observável) que mulheres frequentemente ficam ao lado de seus maridos convalescentes em hospitais, mas que maridos raramente fazem o mesmo por suas esposas.

na época, muitas pessoas apontaram (cobertas de razão) que isso não era porque, como especulara dráuzio, as mulheres eram naturalmente mais carinhosas, mais cuidadoras, mais empáticas, etc, mas sim porque são socializadas para serem mais mais carinhosas, mais cuidadoras, mais empáticas.

(como disse uma amiga, em um dos desabafos mais intensos que já ouvi, ela e o irmão eram igualmente sobrinhos do mesmo tio distante, mas a família só esperava que ela ficasse ao lado dele no hospital durante uma longa convalescência: não só ninguém esperava que seu irmão abrisse mão de sua vida para isso, como também, mais importante, seu irmão não se sentia menos homem, menos sobrinho, menos virtuoso, etc, por nunca ter passado uma noite sequer no hospital com o tio que ambos mal conheciam.)

até aí, tudo bem.

mas então, algumas das mesmas pessoas que apontaram que mulheres são socializadas para serem cuidadoras e homens, competitivos, às vezes quase que na mesma frase, gritam que “homem é todo igual”, que “todo homem é abusador potencial”, que “nenhum homem presta”, etc.

das duas, uma:

ou

1) homens e mulheres são fundamentalmente iguais, têm a mesma capacidade para o bem e para o mal, para serem vítimas e para serem abusadoras, e só existem mais homens abusadores do que mulheres abusadoras porque vivemos numa sociedade machista e patriarcal, onde os homens têm mais poder que as mulheres e, portanto, mais ocasiões de abusá-lo;

ou

2) as mulheres são naturalmente mais empáticas, mais carinhosas, mais cuidadoras, nasceram para ser professorinhas e enfermeiras, olha, que meigas!, enquanto os homens, esses monstros!, nasceram naturalmente abusadores e engenheiros.

se achamos que a primeira opção é a correta, então talvez caiba vigiar nossos arroubos verbais para não parecer que acreditamos na segunda.

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porque, se os homens são socializados para serem agressores, então, eles são vítimas dessa socialização perversa que lhes transforma em monstros, e também devemos lutar por eles, para libertar tanto agressoras quanto vítimas desse infindável círculo de violência.

mas, se os homens são naturalmente agressores, se “homem não presta”, se “homem é tudo igual”, então, eles são o inimigo a combater e não existe possibilidade de estarem do lado certo em nossa luta por um mundo melhor.

a diferença é poderosa, concreta, política.

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em resposta ao texto acima, uma amiga me escreveu:

“Você menciona que homens são vítimas da socialização. Não são. O lugar deles neste sistema é de opressores e, sendo assim, totalmente privilegiados. Nós mulheres é que somos VÍTIMAS. A gente é que sofre o cão, de verdade. … [A]cho importante falar num feminismo que conscientize os homens desta posição de opressor/agressor. E aí que está a dificuldade deles: assumirem essa caralhada de privilégios e agirem de forma não escrota. Por isso o feminismo AINDA é uma luta que cabe só às mulheres. Talvez daqui um tempo os homens já se encontrem mais desconstruídos, de um modo geral, e possam caminhar e lutar com a gente.”

respeito e acho válida a posição de que as únicas vítimas do patriarcado são as mulheres agredidas e abusadas, mas, nesse caso, nossa luta por um mundo melhor e mais igualitário se torna um impossível e interminável trabalho de sísifo.

por acaso, a amiga que escreveu as palavras acima tem um filhinho de dois anos.

hoje, em 2018, ele é uma tábula rasa: ainda não se sente melhor que as meninas; ainda não sabe que “muié é tudo vadia”; ainda não aprendeu que os pelos nas pernas delas são horríveis mas na perna dele não.

será que ele realmente não é uma vítima da lavagem cerebral criminosa que está prestes a receber?

se consideramos que só a mulher em quem ele vai bater em 2036 é a vítima, mas não ele em 2018, não estaremos deixando intacto o sistema que continuamente cria novas vítimas e novas vitimizações?

se nem a própria mãe desse menino consegue ver nele uma vítima involuntária dessa socialização que vai transformá-lo em canalha, que esperança temos de salvá-lo?

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ninguém quer se tornar um canalha, um machista, um abusador.

o processo através do qual uma pessoa humana, que nasce limpa e inocente, é transformada em um homem machista pode ser comparado ao processo de lavagem cerebral que sofrem os membros de uma seita: em ambos os casos, a vítima, em alguma medida, consente e participa do processo mas, ainda assim, em larga medida, não deixa de ser uma vítima de um processo externo a ela, realizado sobre ela, realizado contra ela.

a diferença é que a seita em questão é a sociedade “normal” onde vivemos, misógina e patriarcal. outrofóbica, enfim.

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estamos há milênios “ensinando” as meninas a não serem estupradas, “não se veste assim”, “não bebe muito”, etc, esses conselhos que são variações das velhas tentativas de controlar o corpo da mulher: está na hora de também ensinarmos os homens a não se tornarem estupradores.

aliás, essa é a maior contribuição que os próprios homens podem dar: denunciar o patriarcado em seus próprios espaços masculinos, educar os homens de amanhã, lhes dar o exemplo de que é possível ser um homem não-canalha.

se não salvarmos os homens de se tornarem abusadores, não teremos como salvar todas as mulheres de quem abusarão.

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adendo

não me incomoda que as pessoas discordem do meu texto, mas me incomoda muito que as pessoas discordem do texto por causa de afirmações que não estão nele.

abaixo, algumas coisas o que o texto não está afirmando:

1. que homens têm que ser aceitos no feminismo (essa decisão pertence a cada uma das múltiplas vertentes do feminismo. além disso, meu texto não fala de feminismo em nenhum momento.);

2. que as mulheres têm que fazer qualquer coisa (longe de mim dizer o que as mulheres devem fazer ou jogar mais alguma obrigação em seus ombros);

3. que não devem haver espaços seguros só para mulheres no feminismo (não consigo nem imaginar como alguém pode ter visto essa afirmação no meu texto!);

4. que um homem que foi vitimizado por sua socialização canalha é “tão vítima” quanto a mulher que ele surrou.

essa última talvez seja a questão fundamental de todo o texto:

uma vítima de um furto e uma vítima de um assassinato são igualmente vítimas de crimes, mas são crimes tão radicalmente diferentes que ninguém pensaria em igualá-las.

por outro lado, ninguém também pensaria em dizer que a vítima de um furto não é uma “vítima de verdade” só porque o crime que sofreu é menos grave que outro.

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o que o texto está afirmando:

que precisamos refletir sobre o que nós, enquanto sociedade patriarcal e misógina, estamos fazendo contra nossos meninos no momento em que eles ainda mal podem se defender.

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Os encontros “As Prisões: Exercícios de Atenção”

O próximo encontro “As Prisões: Exercícios de Atenção” acontece em São Paulo, no domingo, 5 de agosto.

São instalações artísticas, indefiníveis e improvisadas, onde exploramos os limites e as possibilidades de nossa atenção, de nossa generosidade, de nosso cuidado.

Um espaço de prática, sempre imprevisível, onde pessoas se juntam e se chacoalham, compartilham vivências e trocam histórias e, no processo, criam novos tipos de interação.

Um evento que só pode ser presencial pois foi criado para só poder ser presencial, justamente para fazermos aquilo que é impossível de ser feito através de textos.

Foi nesses encontros, realizados desde 2013 nas cinco regiões do Brasil, no contato energizante e polifônico com milhares de pessoas, que os Exercícios de Atenção foram sendo lentamente criados e aprimorados e são, até hoje, praticados.

Tudo o que faço é sempre fundamentalmente gratuito, e os encontros não seriam a exceção. Existe um preço sugerido mas paga quem quer, o quanto quiser.

Hoje, eu literalmente vivo da generosidade alheia: graças às pessoas mecenas, que me sustentam com suas contribuições, não preciso ganhar a vida. Então, o mínimo que posso fazer com essa vida que me foi dada ganha é passar adiante a generosidade: promovo esses encontros como um serviço para as pessoas que precisam dele.

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Inscreva-se
alexcastro.com.br/encontros

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