Ana Lucia Araujo, acadêmica, pesquisadora, blogueira e amiga, escreveu uma linda resenha sobre meu livro Radical Rebelde Revolucionário – Crônicas Cubanas:
Narrado na primeira pessoa, o primeiro elemento positivo do livro é que ele é totalmente em sintonia com o formato escolhido: o e-book. As crônicas são curtas, tem ritmo, você pode lê-las na ordem que quiser. Elas podem ser vistas como capítulos de um relato de viagem. Estão ali quase todos os elementos desse sub-gênero, que tem geralmente três modos de enunciação : o comentário, a descrição e a narração. O comentário seriam todas aquelas explicações que o autor dá muitas vezes citando datas, estatísticas, fatos históricos. As informações do “comentário” (onde às vezes o autor pode se pronunciar sobre algum tema importante) podem ser recolhidas pelo autor durante a estadia no lugar visitado, mas geralmente elas são de segunda mão, algo que ele leu em outros livros ou que tomou de outros viajantes. A descrição é o ato de descrever paisagens, objetos, pessoas : cores, formas, etc. A narração seria tudo aquilo que releva da ordem da experiência, se trata principalmente de contar ações, que se desenvolvem no tempo.
O Alex não caiu na armadilha de abusar dos comentários longos e enfadonhos (como essa resenha) sobre Cuba. O leitor que tiver interesse em conhecer mais sobre a história de Cuba, que procure as centenas de livros escritos por historiadores, sociólogos e outros que passaram anos a estudar o assunto. Sim porque não existe nada mais cansativo que ler um romance onde o autor encantado pela pesquisa de duas semanas que realizou na biblioteca pública municipal de Quixeramobim sobre plantação de abacaxis resolve começar a dar entrevistas sobre plantação de tomates. O Alex não precisa disso e o leitor agradece. Sendo assim, o comentário aparece aqui e acolá, mas ele se mistura bem com a descrição e o relato das experiências vividas.
Aliás, não suporto esses romances históricos que param a ação para o autor gastar onda de quanto pesquisou. O Xangô de Baker Street, por exemplo, poderia ter sido bom se não a ânsia do Jô (ou do estagiário que fez a pesquisa com ele) de enfiar no livro cada informaçãozinha que ele descobriu.
Para esse livro, eu tentei dar todas, ou quase todas, as informações mais históricas e chatinhas nos primeiros dois capítulos, e deixar o resto do livro só para as crônicas. Demorei duas semanas pra escrever esses dois primerios capítulos e duas semanas para escrever o resto do livro. É difícil escrever um texto tão informativo sem ser chato ou seco. Na verdade, foi tão difícil que eu estava quase achando que esse livro não iria rolar.
Para descrever a Havana de 2007, ele usa o recurso da analogia, comparando Cuba com regiões que também tem na sua história um passado escravista, como Rio de Janeiro, Atlanta, New Orleans. É claro que isso é possível porque o autor conhece os lugares do qual ele fala, não se trata de informação livresca e não se trata então de relato de marinheiro de primeira viagem. No meio da descrição e do relato, além da analogia uma outra maneira de contar suas experiências é apelar para as lembranças do passado, de outras viagens, de outras pessoas que encontrou. O relato é cheio de personagens e mesmo se eles aparecem numa única crônica eles são bastante ricos: Annie, a companheira de viagem “gringa” bonita; Dionisio, o chileno malandro que “odeia os cubanos”; Leonardo, o cubano negro, bonito, honesto e apaixonado; Cándido, o Bozó (porque até em Cuba tem Bozós “eu trabalho na tv tá legal?”; Dolores, a bibliotecária sexy e muitos outros.
“Em Cuba, falta de tudo, menos justiça poética.”
As experiências relatadas nas crônicas tocam em temas que foram bastante delicados para a Revolução cubana, entre os quais as mulheres e os homossexuais, e em outros temas que fazem parte da realidade cubana principalmente depois do começo dos anos noventa, como a prostituição. Na crônica Os Jineteiros o que era pra ser dramático fica engraçado, mas sem ser machista ou caricato.
Alex Castro observou o cubano mas também o turista gringo que ele critica por andar em terra estrangeira vestido como se fosse para um safári. O autor, além de narrador também vira personagem de histórias que nem sempre são coroadas de sucesso e Castro brinca com a sua dupla identidade de brasileiro/estrangeiro/turista, mas que ao mesmo tempo é latino-americano e pode em várias situações se passar por um nativo na fila pra comprar sorvete, na livraria, no mercado. Como todo bom viajante que “conta um conto e aumenta um ponto”, o narrador-personagem não deixa de se gabar por conseguir comprar produtos com preço local. Sua “cara-de-pau” acaba trazendo muitos dividendos, inclusive o
melhor elogio que um turista-viajante pode receber de um nativo : “Alexandre, já podes se considerar um havaneiro honorário!”
Por todas essas razões vale a pena ler Radical, Rebelde e Revolucionário. Além de conhecer um pouco sobre Cuba, você vai dar boas risadas. Não preciso nem dizer que algumas crônicas vão servir de material para estimular a discussão na minha aula sobre revolução cubana desse outono e no curso sobre história das mulheres na América Latina após 1825. Na era da Internet, do skipe e da tv à cabo, essas crônicas têm a grande vantagem de constituirem um testemunho direto de alguém que viu e ouviu tudo que está contando e é esse olhar de testemunha ocular que faz elas serem tão boas.
Obrigado, Ana. E você, não vai ler não?